Coringa | Como nascem os monstros

A sociedade doente e o despertar de um psicopata

Foto: Warner / Divulgação
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Antes mesmo de começar a ser exibido nos cinemas de todo o mundo, Coringa já estava causando polêmica. Entre alertas de “deixem as crianças em casa” e proibições de uso de máscaras de palhaço, o título levou para casa o Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza e a pré-estreia, no dia 03 de outubro, arrecadou US$ 13,3 milhões nos EUA.

Considerado perigoso por alguns, o filme passa longe do tema vilão e super-herói, como muitos podem esperar. O foco aqui é criar uma história de origem para um personagem que já existe há quase 80 anos. Missão difícil? Com certeza.

O inusitado já começa pelo diretor do longa: Todd Phillips, o mesmo responsável pela comédia Se Beber, Não Case. No entanto, não espere muitas piadas por aqui, pois o resultado é um mergulho intenso na vida de um personagem perturbado que enfrenta as crueldades do mundo e também da sua própria cabeça.

É fácil entender a dualidade das opiniões a respeito do filme. A atuação de Joaquin Phoenix é colossal, tanto quanto o desconforto que sentimos na sala de cinema. A inquietação na cadeira a cada cena de violência física e psicológica sofrida e cometida pelo personagem principal é nítida desde o começo do filme, quando Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) mistura lágrimas e riso ao se caracterizar como palhaço.

ALERTA DE SPOILER: Este texto contém informações sobre os principais acontecimentos do filme

Ambientado em uma Gotham tomada pelo caos nos anos 1980, Coringa conta a história de Arthur Fleck, um rapaz que trabalha como palhaço, mas sonha mesmo em ser humorista de stand-up nos palcos da cidade.

Depois de sofrer bullying nas ruas pela sua caracterização de palhaço, apanhar de adolescentes arruaceiros em um beco, descobrir que seu passado não é nada do que ele pensava, as coisas começam a ficar cada vez mais anuviadas para Arthur.

A série de tristezas e humilhações passa ainda por ser demitido, descobrir que é adotado e que sua mãe sofria de distúrbios psicológicos, e ser caçoado em rede nacional pelo seu maior ídolo da TV, o apresentador Murray Abraham (Robert De Niro). A lista não é pequena e inclui ainda alucinações que o ajudam a fugir da realidade.

Ao longo da trama, a transformação de um aspirante a comediante em um assassino psicopata fica clara, muitas vezes acentuada graças à atuação de Joaquin, que aparece super magro e com um mix de riso e choro que faz qualquer um ter uma sensação, no mínimo, perturbadora.

Durante a sequência do talk show, podemos ver exatamente a pintura entre a loucura e a conexão do personagem com a realidade cruel em que sempre viveu, humilhado e deixado à margem da sociedade por sofrer de um distúrbio que o fazia rir em ocasiões totalmente aleatórias, sem nenhuma conexão com seus sentimentos.

A transição de vítima da sociedade para homicida nos faz questionar o caminho que a sociedade está seguindo, principalmente no que diz respeito ao tratamento das minorias que fogem aos padrões impostos. É claro que a loucura de Arthur sempre esteve ali, e o fato da sociedade o “esquecer” simplesmente foi mais um dos gatilhos. Fato é que depois de experimentar o gosto da violência extrema, ele percebeu que seu brilho está no caos e não nos palcos de stand-up.

A cena final nos mostra a ascensão do Coringa como ídolo de um povo revoltado e sem esperanças, mesmo após sua confissão de ter matado três playboys de Wall Street que o estavam irritando no metrô e assassinado friamente o apresentador de TV ao vivo. Isso diz mais sobre ele, que é diagnosticado como sendo portador de distúrbios mentais, ou sobre a sociedade que antes o desprezava e agora o enaltece pelos seus atos de violência?

Não posso deixar de citar que, apesar da máxima “cada Coringa é um Coringa”, as comparações com Heath Ledger ainda permanecem. De forma simplista, podemos dizer que Ledger ainda é o mais anarquista e promotor do caos, enquanto Phoenix vive um Coringa que externa sua loucura moldada pelo descaso.

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