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Apple x Adobe: 6 motivos para que o Flash sobreviva na web

Se o HTML5 quiser se firmar como grande plataforma precisará de mais do que apenas o apoio moral por parte de empresas como a Google e Apple

Computerworld/EUA

19/08/2010 às 11h01

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Depois que a  Apple anunciou que deixaria de suportar a
plataforma Flash
em seus dispositivos móveis munidos com o iOS, muitos chegaram
a prever a morte do aplicativo desenvolvido pela Macromedia. Steve Jobs
disparou uma bala de grosso calibre contra o conteúdo .swf quando
disse, em carta aberta chamada de Thoughts About Flash (Elucubrações sobre o
Flash – em tradução livre do inglês) que “o Flash já não é mais necessário para
assistir a vídeos ou para apreciar arquivos multimídia na web.

Jobs e mais um grupo de pessoas hastearam alto a bandeira do
HTML5 como melhor jeito de consumir conteúdo de vídeo, animações e outras
mídias interativas na Internet. Uma das motivações do apoio a este padrão é o fato
deste ser aberto e público, ao passo que o Flash permanece sendo uma plataforma
proprietária. Com base na versão 5 da linguagem padrão de programação na web, é
possível assistir aos vídeos diretamente no navegador, em vez de depender da benevolência de um plugin, caso do Flash. Mas, daí a avisar que
o Flash “já era” ainda falta um bocado, advertem analistas.

“Sim, há muitas pessoas que desdenham o Flash. Resta saber
se essas mesmas pessoas vão gostar do que se esconde por trás dos portões que
abrigam o HTML5. O universo do código-fonte aberto não foi capaz de encantar a
todos com seu recurso de reprodução de vídeo; pelo menos não até agora”, diz o
analista da RedMonk Michael Cote. “A Adobe investiu muito tempo na otimização
do Flash e ouso prever que a integração de conteúdo de vídeo à plataforma HTML5
também vai levar algum tempo”.

Então seguem seis, no lugar dos cinco tradicionais, motivos
que injetam nova vida nas veias do supostamente moribundo Adobe Flash.

1. A teimosia dos irmãos iPhone e iPad pode não durar muito
mais

Apesar de a Apple ter se despedido da plataforma da Adobe
nos dispositivos iPhone e iPad, o sistema Android, da Google, na versão 2.2
suporta os recursos. É verdade que o Android 2.2 ainda não permeia todos os
dispositivos do mercado, mas a distribuição do Froyo (versão mais recente do
sistema do Google) é anunciada para uma extensa variedade de smartphones nos
próximos meses.

Um grupo  nada
desprezível de fornecedores de sistemas para dispositivos também garantiu à Adobe que continuará a apoiar o Flash nos
próximos anos. Entre esses “fãs” do Flash encontram-se nada mais, nada menos, que
nomes como o da Microsoft e a HP/Palm. Outro player de renome nesse segmento, a
RIM, deixou avisado que estaria trabalhando no projeto que estenderá o suporte
ao Flash nos aparelhos BlackBerry, sem deixar claro quando esse suporte estaria
disponível.

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Steve Jobs: "Flash é coisa do passado"

2. Flash não é só vídeo

Quando alguém diz “Flash”, a primeira coisa que vem à mente
das pessoas é o super-herói. Só depois conteúdo de vídeo
na internet. O que, na perspectiva do analista do NPD Group, Ross Rubin, é
bastante lógico. O Flash é apoiado por sites bastante relevantes, como é
o caso do Youtube e do Hulu. Mas os talentos do Flash não podem ser enclausurados nesses dois
elementos. Existe uma infinidade de aplicativos interativos, como jogos e
anúncios da web, inspirados e apoiados nesta plataforma.

“Enquanto todo mundo patina no discurso sobre vídeo, os
recursos interativos parecem relegados ao segundo lugar”, ressalta o
vice-presidente de desenvolvimento de marketing e negócios da Coincident TV, Craig Barberich. A empresa de Barberich trabalha com o desenvolvimento
de plataformas de conteúdo interativo que têm suporte em sistemas movidos a
iOS.

“Honestamente falando, o Flash é uma boa ferramenta para
animações e é usada para vários níveis de interatividade. Muitos desses níveis
ainda são um desafio para o HTML5.”

3. O suporte da Adobe aos desenvolvedores

Apresentado ao mercado em 1996, o Flash (ainda Macromedia
nessa época) não tardou a receber o apoio por seu peso moderado e pela
capacidade de exibir gráficos complexos na web. Isso em uma época em que a
banda larga ainda não era difundida como é hoje. Mas, pode-se dizer que a
garantia de sucesso veio por meio do extenso suporte que a companhia dava à
comunidade desenvolvedora.

A Adobe tem uma longa tradição em meio aos criadores de
conteúdo. Ela adquiriu a Macromedia e o filho pródigo, Flash, em 2005. O
comprometimento da empresa com os desenvolvedores foi mantido com o lançamento
da primeira versão proprietária, em 2007. Atualmente, o Flash vem
integrado em vários pacotes de software que compõem as suítes da empresa.

“Sendo uma empresa desenvolvedora de ferramentas, a Adobe
ofereceu suporte à comunidade de desenvolvedores de conteúdo e procurou
adicionar funcionalidades simples e encorajadoras, sem abrir mão da leveza do
programa”, afirma Rubin.

“O framework do Flash permite a criação de animações
interativas, o que motivou os programadores de jogos e daqueles anúncios super
elaborados”, comenta Cote. Isso transforma o Flash em muito mais do que um formato
de mídia.

Na visão de Barberich, se o HTML5 quiser se firmar como
grande plataforma, precisará de mais que apenas o apoio moral por parte de
empresas como a Google ou a Apple. Quem sabe, sejam necessárias ferramentas e
aplicativos firmemente apoiadas e um robusto suporte técnico para erradicar o
temor da comunidade de mídias digitais.

4. A proteção do conteúdo desenvolvido com base no Flash

Outro desafio que se coloca ante ao HTML5 é oferecer o mesmo
tipo de proteção de conteúdo atualmente oferecida pela Adobe. Essas proteções
poderiam ser implementadas dentro de uma tecnologia de mídia da web. A Adobe,
porém, teve tempo de incluir essa proteção na própria ferramenta.

Cote avisa que também devemos ficar atentos ao interesse de
Hollywood na plataforma. “Eles viram o que aconteceu com a indústria de música
depois do surgimento do MP3 – e não desejam que o mesmo lhe ocorra. As pessoas
que têm direitos sobre programas de TV e filmes para o cinema devem insistir
no mesmo tipo gestão de propriedade digital. O que significa que plataformas
que não atendam esse requisito tornem-se de difícil aceitação.”

Apesar de o YouTube (de propriedade do Google) estar
realizando experimentos com o HTML5, a proteção de conteúdo é justamente o
porquê do site ainda precisar do Flash. Quem afirma é o engenheiro de software da
equipe do YouTube, John Harding, em um post recente em um blog. Determinados
provedores de vídeo requerem que o YouTube use o protocolo da plataforma RTMPE,
do Flash. Essa tecnologia impede que o internauta baixe o arquivo em seu
computador e o redistribua livremente.

Não conte com o Silverlight

Igual ao Flash, o Silverlight – a plataforma de
desenvolvimento de rich content da Microsoft – também é proprietária. A interface do sistema Windows Phone 7 é inteiramente desenvolvida com base
nessa linguagem. A empresa também lançou uma versão do Silverlight para o
sistema Symbian.

O Silverlight tem uma proteção integrada contra cópias, que é
usada pela Netflix. Os usuários desse último são obrigados a instalar o
Silverlight para poder assistir ao conteúdo sob demanda (já o serviço de vídeo
da Amazon PE é baseado no Flash).

Apesar de o Silverlight não ter conquistado uma legião de seguidores, Cote, da Redmonk acha que a plataforma
tem futuro, dependendo só do marketing da Microsoft para outras empresas que
tenham eventual interesse em vender conteúdo protegido.

Contudo, Cote faz uma observação bastante relevante sobre o YouTube. Para ele, o site de compartilhamento de vídeos não expressa um amor
incondicional pelo Flash, mas, precisa dele. Em outras palavras, o que poderia
ameaçar a soberania do Flash é o HTML atender a esse requisito.

Cote diz, ainda, que o Silverlight pode ter um papel
importante face à integração de sistemas de proteção do conteúdo.



5. O Flash é querido pelos anunciantes

O Flash é a plataforma mais disseminada na comunidade de
anunciantes online e isso pode motivar o atraso no sucesso de outras
plataformas. O HTML5  - ou qualquer outra tecnologia similar - ainda não ofereceu aos anunciantes o
motivo necessário para abandonar o .swf. Pelo menos por enquanto.

Além disso, o Flash também tem um lugar no segmento de
mobile. O comprometimento da Google em apoiar o Flash no Android a curto
prazo, deve ampliar as oportunidades de quem quiser realizar campanhas de
vendas na web e isso em uma linha bastante extensa de dispositivos móveis.

A despeito dessa promessa, os anunciantes não gostam da
ideia de abandonar a plataforma da dupla iPhone e iPad. Estes acham que a
necessidade de transformar conteúdo elaborado em Flash para o formato HTML5 é
mais do que urgente. Essa demanda motiva a empresa Greystripe, por exxemplo, a enfrentar o
desafio da conversão do Flash para a versão 5 do HTML. A tecnologia, chamada de
Lightning Technology, realiza essa transformação.

Possivelmente, o exemplo mais relevante para o HTML5 seja
o projeto Smokescreen, desenvolvido pela RevShock, uma startup do segmento
mobile. O projeto é promissor, mas não chega à altura do já consagrado Flash.
“O Smokescreen mostra a imaturidade do HTML5”, diz Rubin.

E por que os desenvolvedores não se concentram na
programação do HTML5 para a plataforma mobile? Posto lado-a-lado com o canal de
distribuição tradicional da internet, a plataforma de anúncios para
dispositivos móveis neste padrão ainda é muito nova. Se conseguirem escrever anúncios em uma
plataforma única e forem capazes de convertê-los para o formato HTML5, isso pode
render um corte generoso nos custos.

Em suma: mesmo que o iOS não entenda conteúdo em Flash, em
breve teremos ferramentas de conversão capazes de interpretar os arquivos.

6. O HTML5 tem questões de codec para resolver

Igual ao Flash, o HTML5 depende das tecnologias de
codificação e decodificação – também conhecidos por codecs – para entregar o
conteúdo. Mesmo assim, eles não especificam qual codec é necessário. O mais
popular deles é o H.264.

O navegador da Apple, Safari, oferece suporte ao
formato. O mesmo suporte é esperado para o Internet Explorer 9. As versões mais
recentes do Flash também são compatíveis, de maneira adicional
a outros codecs de áudio e de vídeo.

A tecnologia do H.264 é patenteada; para usá-la, as
companhias precisam desembolsar as licenças. No caso de empresas grandes como é
o caso da Microsoft, da Apple e da Google, isso não chega a ser um problema. Já
organizações com menor poder de fogo têm sofrido para honrar esse compromisso;
é o caso da Mozilla. Os defensores do código aberto também torcem o nariz
quando veem questões de tecnologia patenteadas sendo introduzidas no HTML5. Afinal de contas, ele é gratuito e aberto, para todos, não é?

Rubin conta que a controvérsia sobre o uso do H.264 para
vídeo na web existe há vários anos e ela é anterior ao anúncio do HTML5. Foi
graças à propaganda da Apple que o assunto sobre o ele e as plataformas
proprietárias voltou a vida.

Um alternativa para esse dilema foi apresentada pela Google.
Trata-se do VP8, tecnologia comprada junto à desenvolvedora On2
Technologies, em fevereiro deste ano. O projeto open source da Google, o WebM disponibiliza o VP8
junto com o codec de áudio da Vorbis. E o melhor: de forma gratuita e capaz de
entregar vídeo de alta qualidade na web.

Nas futuras versões do navegador da Goggle, o Chrome, o
suporte ao WebM será implementado de forma nativa. O mesmo é esperado por parte
do FireFox e do Opera. No caso do IE9, a compatibilidade com vídeos via HTML só será
possível se o usuário instalar por conta própria o pacote VP8.

Rubin questiona a viabilidade do VP8, uma vez que a Microsoft e a
Apple não oferecem suporte à plataforma. No caso da empresa de Steve Jobs, mantendora das
chaves de acesso ao reino do iPad e iPhone, isso é especialmente relevante. Na
perspectiva de Rubin, isso não deve mudar no futuro próximo, pois a Apple já
investiu pesado no suporte à plataforma H.264.

Qualidade e eficiência da compactação também preocupam os
observadores do projeto VP8. A natureza rebelde e pouco esmerada do formato foi
sinalizada pelo desenvolvedor do projeto FFmpeg, Jason Garrett-Glaser.

A não ser que se chegue a um consenso referente ao transporte
de vídeo na plataforma HTML5, os criadores de conteúdo terão de codificar seus
vídeos diversas vezes a fim de torná-los acessíveis aos novos navegadores.

Quem sabe esse seja o motivo que leve Google e Apple a
investir muito dinheiro e muito tempo no processo de chegar a um acordo
referente ao iminente HTML5. “Talvez, quando isso acontecer, o desenvolvimento
pleno de uma plataforma open source seja possibilitado. Seria ótimo que o formato
de vídeo fosse padronizado e, preferencialmente, de forma aberta”, diz Cote.

“A Google tem tecnologia e vontade 
para financiar tal iniciativa. Dinheiro, a empresa também tem de sobra, e este
pode viabilizar a entrada do open  vídeo”,
diz.

Co-existência

No fundo de toda a discussão envolvendo o Flash e o HTML5,
está escondida a possibilidade dos dois existirem juntos, pacificamente. “Não
entendo por que essa hipótese não é mencionada. Todos têm a ganhar”, diz Cote.

Rubin prevê um cenário no qual ambas as plataformas serão
suportadas por sites. Ele acredita que muito do que é visto hoje em dia poderá
ser experimentado nas duas tecnologias. De qualquer forma, o Flash deverá
continuar a evoluir e a oferecer incentivos para manter o suporte por parte dos
desenvolvedores.

Um bom exemplo disso é o YouTube. Apesar do site de vídeos estar
apoiado firmemente na plataforma Flash, ele recentemente lançou um serviço
front-end para permitir que usuários do iPhone e iPad possam assistir ao
conteúdo do provedor de vídeo de propriedade da Google.

Alinhados a essa tática, empresas como a Coincident TV, a
Greystripe e a RevShock apostam na demanda por tecnologias que possibilitem aos
criadores de conteúdo, transformar os vídeos em algo que o browsers HTML5 possam
interpretar. Essa tática pode durar pouco, mas, pode também decidir como as
coisas serão daqui para frente.

“Pessoalmente, não acredito que uma empresa sólida como a
Adobe possa ser ameaçada em suas habilidades; mas, certamente, existe um
movimento de integração entre várias tecnologias o que deve possiblitar que
qualquer formato funcione em todos os dispositivos”, afirma a direção de
marketing da Greystripe, na voz de Dane Holewinski.

Todas as formas de cooperação entre as diferentes
plataformas redundam em uma confirmação da relevância do Flash no futuro.

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