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A Apple contra o mundo: entenda as disputas da empresa

Da Adobe ao Google, passando por empresas como HTC, a empresa de Steve Jobs dispara sua artilharia contra os concorrentes

Jason Snell, diretor editorial da Macworld/EUA

12/04/2010 às 14h25

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O anúncio do iPhone OS 4.0 no dia 8/4 não foi um evento típico da Apple, daqueles que a empresa mostra uma novidade, explica que “é o melhor produto já feito” e espera que o público presente faça “oh” e “ah” e bata palmas.

Ele foi mais sobre estratégia da empresa de Steve Jobs do que para mostrar os novos recursos do sistema operacional. E ficou claro que a Apple vai pegar pesado com seus rivais.

Alvo 1: Android
A Apple mudou o mercado de smartphones em 2007 com o lançamento do iPhone. Mas o celular também gerou grande competição, que ganha corpo agora com o Android, do Google, presente em vários aparelhos e até um modelo próprio do gigante das busca, batizado de Nexus One, produzido pela HTC (processada recentemente pela Apple).

E a plataforma traz várias inovações. A participação de mercado do Android tem crescido em ritmo acelerado (44% no último trimestre) e a Apple tem sido cobrada por não oferecer alguns recursos presentes no sistema da rival, como a multitarefa.

Analisando de forma geral, o Android tem multitarefa e o iPhone, não tem (se levarmos a questão para a definição clássica de mulitask). É claro que o consumidor comum não se importa com um conceito tão técnico. Mas ele se importa com a capacidade de poder fazer mais de uma coisa no seu celular ao mesmo tempo.

Aí chega o iPhone 4.0, com recursos que são destinados a combater alguns pontos nos quais o Android leva vantagem, principalmente a multitarefa. A Apple chamou o CEO da Pandora para mostrar que agora é possível usar o serviço de música e mudar para outra ferramenta sem interromper sua canção. Para completar, exibiu o Skype rodando em segundo plano, com a capacidade de receber ou fazer ligações. Ponto para Apple. 

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Steve Jobs: com o iAd, sua empresa dispara um ataque direto ao coração do Google

Nós temos os softwares!
A App Store é uma das maiores armas da Apple para essa batalha, com mais de 4 bilhões de downloads e mais de 180 mil aplicativos disponíveis. Mas muitos criticam sua política de controle/censura de softwares. Para um software aparecer na loja da Apple, só sendo aprovado pela empresa. Nesse ponto o Google possui um sistema mais flexível, facilitando a oferta de programas em sua loja, o Android Market.

Perguntado sobre o motivo de não flexibilizar a oferta de software na App Store, Jobs respondeu que há aplicativos pornográficos para Android e que a Apple não quer isso. A empresa quer passar uma imagem de que tem o controle de sua ferramenta e de que iPhone, iPad e iPod são plataformas seguras para crianças e adolescentes, um público importante para os dispositivos, principalmente na área dos games. E a Apple não é o tipo de empresa que abre mão de controlar seus produtos, mesmo que isso traga reclamações de muitos usuários.

Adobe, não!
A preocupação da Apple de não perder o controle de sua plataforma gerou mais confusão na semana passada, quando a empresa anunciou alterações na sua política para desenvolvedores para o iPhone, banindo aplicativos desenvolvidos com ferramentas não aprovadas por ela. O tiro foi direto na Adobe (que anunciou um recurso do pacote CS5 destinado a desenvolvedores para iPhone), mas deve atingir também outras empresas.

A Apple não gosta do Flash e Jobs já disse que não há mudança de posição. A empresa não quer aplicativos desenvolvidos com ferramentas da  Adobe porque quer manter o controle sobre essa área.

Uma vez que seja possível criar um aplicativo em um ambiente de desenvolvimento (Adobe) e compilar isso para rodar em qualquer smartphone, muitos desenvolvedores decidirão cortar custos, parando de produzir softwares específicos para cada plataforma. Bastaria desenvolver uma versão em Flash e rodar em qualquer dispositivo. Faz sentido para os desenvolvedores, mas não faz para os donos das plataformas.

Na década de 1990, nos foi dito que aplicativos em Java seriam o futuro do software. Seria possível escrever uma vez e implementar em qualquer plataforma. Como alguém que usa aplicativos no Mac baseados em Java, posso dizer que elas são horríveis, não se comportam como aplicativos para Mac – mas pelo menos rodam em computadores da Apple.

E me sinto da mesma maneira sobre o ambiente da Adobe. É um ambiente baseado em Flash e/ou HTML que permite aos desenvolvedores criar aplicativos para várias plataformas. Um bom exemplo é o TweetDeck. Muita gente gosta de sua versão para Mac. Mas, acredito que eles gostam disso porque curtem os recursos que oferece, apesar de ser um software horrível para Mac. Tem uma janela de preferência estranha e limitada, ferramenta de rolagem esquisita... E a lista vai embora.

A Apple não quer aplicativos que não se parecem com softwares nativos no iPhone. Ela quer um mundo onde fique claro a diferença entre programas para iPhone e para Android. Não quer lançar um recursos e ver que ninguém vai tirar vantagem disso porque a Adobe não fez a atualização de seu ambiente de desenvolvimento, também.

Ou, pior, ver a Adobe se recusar a adotá-lo porque outro sistema operacional não suporte esses recursos. Mas entendo a fúria da Adobe sobre o movimento da Apple contra o Flash no iPhone. E esse disputa vai prejudicar a relação de longa data entre as duas companhias e pode prejudicar o consumidor.

Busca? O negócio é aplicativos...
Outra bomba detonada por Steve Jobs no lançamento do iPhone 4.0 foi direcionada contra o Google – e não tem como alvo, neste caso, o Android. Ela tem como endereço o núcleo da rival: busca e publicidade.

O que Jobs disse:
Nos dispositivos móveis, a busca ainda não deslanchou. As pessoas não buscam informações como fazem no desktop. Elas gastam todo o seu tempo em aplicativos. E é nessa área que as oportunidades estão. Não como uma parte da busca, mas como uma parte dos aplicativos.

Tradução: a Apple acha que a gigantesca vantagem do Google em matéria de busca e publicidade não vai chegar necessariamente aos smartphones. Com os aplicativos, ela poderia passar a perna no Google. E aí que chega o iAd, para bater de frente com a rival.

Na apresentação que fez, Jobs estava realmente animado com essa cartada. Já os consumidores não costumam ficar animados quando o assunto é inserir mais publicidade. O executivo quer inserir os anúncios de uma forma mais divertida, proporcionando uma experiência sem incomodar o usuário. E as agências de publicidade estão animadas com essa perspectiva. Poderão levar suas habilidades de forma criativa para o mundo digital.

As pessoas não gostam de anúncios mas, sim, é possível fazer coisas legais, que as pessoas queiram ver. Um exemplo: a campanha Get a Mac, com John Hodgman e Justin Long.

Apple contra o mundo
Faz todo sentido as pessoas não gostarem de algumas estratégias da Apple. Eu não necessariamente concordo com todas ela, mas entendo porque a empresa toma essas atitudes (por exemplo: eu compreendo porque a Apple parou de participar da Macworld Expo. Não concordo com a decisão, mas entendo porque a companhia fez isso).

E a Apple não faz filantropia. É uma empresa movida a lucro, com acionistas e bilhões de dólares no banco. Steve Jobs pode dizer que sua missão é mudar o mundo ao fazer produtos tecnológicos inovadores (e com design exótico), mas seu objetivo, no final das contas, é ganhar dinheiro.

A verdade é que a Apple não pode agradar a todos (e não quer mesmo fazer isso).  Ela até poderia fazer um MacBook de 500 dólares, por exemplo, mas acredita que não é financeiramente interessante. No lançamento do iPhone 4.0, a Apple mostrou que será cada vez mais agressiva para manter sua vantagem no mercado. Mesmo que precise comprar muitas brigas.

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