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Abordagem distante da Valve mancha o lançamento das Steam Machines

Falta de uma direção clara no hardware pode alienar os consumidores e prejudicar as chances de sucesso da plataforma

Brad Chacos, PCWorld EUA

15/01/2014 às 19h21

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Depois de mais de um ano de rumores, anúncios de emprego criticando a falta de inovação no mercado de hardware para PCs e muitas provocações, a Valve finalmente apresentou suas há muito aguardadas Steam Machines durante a CES 2014.

A “grande estréia” foi claramente um sucesso. Nada menos do que 14 fabricantes de PCs se juntaram ao esforço da Valve para levar os jogos de PC para a sala de estar, movido pelo sistema operacional SteamOS e seu estranho gamepad. É difícil se lembrar da última vez em que tanta atenção foi focada nos PCs Desktop, muito menos a última vez em que os fiéis aos PCs puderam comemorar notícias realmente excitantes. 

Dito isto, não consigo me livrar de uma certa decepção com a primeira onda de Steam Machines. Veja o por quê.

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À vontade na sala de estar

A maioria das minhas preocupações é causada pela própria Valve. Mas em vez de algo específico que a empresa tenha feito, estou mais preocupado com o que ela não fez durante a apresentação.

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O ponto forte da Steam Machine da Origin PC não é o design

“Cada [máquina de um parceiro] representa uma abordagem diferente quanto ao que é certo para seus consumidores. Qual a coisa mais útil que podemos fazer?”, perguntou Gabe Newell, CEO da Valve, durante a CES.

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Bem Gabe, para começar vocês poderiam apresentar uma visão clara e diferenciada para as Steam Machines.

Uma das principais críticas ao mercado de jogos de PC é sua complexidade. As pessoas querem simplesmente se sentar e sair detonando inimigos imediatamente, sem ter de se preocupar com atualizações de drivers, de sistema operacional ou mesmo se a placa de vídeo da máquina será poderosa o suficiente para rodar determinado jogo com uma taxa de quadros decente. As Steam Machines estão competindo contra os PlayStation e Xbox na sala de estar, não contra PCs superpoderosos feitos para gamers (que são um público pequeno, e que já tem suas próprias máquinas).

Mas em sua busca por “abertura” e desejo de ser o oposto da Microsoft na era do Windows 8, a Valve não fez nada para tornar as Steam Machines mais acessíveis ao usuário comum. Em vez disso a primeira leva de máquinas mostradas na CES consiste em um disperso conjunto de hardware, que varia de diminutas máquinas como a Gigabyte Brix Pro e sua GPU Intel a microtorres decoradas rodando processadores Core i7 overclockados e múltiplas placas de vídeo. Qual delas é a escolha certa para você? Quem sabe?

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Os principais concorrentes das Steam Machines são consoles como o Xbox One (acima) e PlayStation 4

Em uma entrevista ao site The Verge em 2013, Gabe Newell disse que as Steam Machines estavam sendo desenvolvidas de acordo com a filosofia “Good, Better, Best” (algo como “Boa, Melhor, Superior”). As máquinas “boas” seriam modelos de baixo custo projetadas para retransmitir para a TV via streaming jogos que estão rodando em um PC dedicado a jogos, em vez de funcionar como sistemas independentes. As “melhores” teriam CPUs mais poderosas e GPUs dedicadas e Newell disse que a Valve planejava controlar as especificações para o bem do ecossistema. Já entre as máquinas “superiores”, as mais caras e poderosas, literalmente vale tudo.

Nenhuma destas “classes” foi mencionada durante o evento na CES, e isso é uma pena. Durante a feira a Valve teve a oportunidade de ouro de ofertar as Steam Machines para as massas. Em vez de dizer “Ei, olhem essas máquinas legais com preços que vão de US$ 500 a US$ 6.000”, Newell e sua turma deveriam ter estabelecido alguns limites.

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A máquina da iBuyPower tem design, e preço mais similares aos de um console

Gostaria de ter visto a Valve destacando as máquinas “melhores”, com preços acessíveis e mais capazes, como os modelos da iBuyPower, CyberPower, Gigabyte e Zotac. Poderiam ter dito: “Pelo mesmo preço de um Xbox One você poderá jogar milhares de jogaços de PC com desempenho perfeitamente aceitável, sem falar em montes de incríveis jogos independentes como FTL, Terraria e Spelunky!”. E gostaria de ter visto a Valve usar esta categoria base como trampolim para alardear os estonteantes recursos das supermáquinas “superiores”, como os modelos da Alienware, Origin, Digital Storm e Falcon Northwest.

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Não vi nada disso. A Valve não ofereceu qualquer tipo de orientação. E isso me deixa preocupado.

Mais do mesmo

E há algo sobre as Steam Machines que me faz parar para pensar. Sim, todas parecem incríveis e estou animado em ver tanta ênfase em grande poder de processamento em um tamanho compacto. Mas muitas delas se parecem com qualquer outro PC compacto para games.

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O gabinete da máquina da Webhallen é bastante familiar...

As Steam Machines Bolt II, da Digital Storm, e a Tiki, da Falcon Northwest, são idênticas às versões com Windows, até mesmo no gabinete vertical estilo torre, alto que nunca me veio à cabeça ao imaginar as Steam Machines. O modelo da Webhallen tem um gabinete BitFenix Prodigy padrão, um chassis interessante mas não muito refinado que é decepcionantemente comum.

É verdade que os principais culpados nesse ponto são as super máquinas da categoria “superior”, em vez das máquinas mais baratas na faixa dos US$ 500 que competem com consoles. Não dá pra esperar que componentes topo de linha como uma GeForce GTX 780 Ti ou Radeon R9 290X caibam num chassis diminuto, dado seu tamanho e características térmicas.

As máquinas na faixa entre os US$ 500 e US$ 600 tem designs muito mais interessantes e similares aos dos consoles, apesar da abundância de neon. Você não irá confundir os modelos da iBuyPower ou CyberPower com qualquer PC compacto que já tenha visto, embora possa se perguntar se não são protótipos de um novo Xbox. A estética atraente e preço competitivo destas máquinas são mais um motivo pelo qual a Valve deveria tê-las destacado durante seu evento. Lembrando: as Steam Machines tem de competir com os consoles, e não com os PCs para games.

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A Steam Machine da CyberPower exagera no Neon, mas ao menos tem um design único

Não corte meu barato

Não me levem a mal. Ainda estou loucamente otimista quanto ao SteamOS e seu potencial impacto no futuro dos jogos no PC. A audaciosa empreitada da Valve ainda tem um longo caminho pela frente, mas a mera promessa já foi interessante o suficiente para fisgar mais de uma dúzia de fabricantes de PCs, e alguns fabricantes de hardware já estão redobrando esforços no desenvolvimento de drivers para Linux, no qual o novo sistema é baseado.

As Steam Machines podem conquistar um futuro brilhante rapidamente. Versões de jogos de console seriam algo natural para a plataforma, com seu foco na sala de estar, e se a AMD convencer os desenvolvedores a usar sua (potencialmente) poderosa tecnologia Mantle, uma Steam Machine poderia ser capaz de produzir gráficos impressionantes mesmo com hardware (da AMD) mediano.

Versões de jogos de console e novos jogos são a única forma de compensar pelo imenso “porém” que é o calcanhar de aquiles do SteamOS: o sistema só é capaz de rodar algumas centenas dos jogos disponíveis no imenso catálogo da Steam. E a vasta maioria dos títulos só poderá ser acessada via streaming a partir de um PC com Windows em um outro cômodo da casa.

É do interesse da Valve persuadir os desenvolvedores a fazer versões para SteamOS/Linux de seus jogos, o mais rápido e com a maior frequência possível, para tornar as Steam Machines uma opção viável para os gamers. A melhor forma de fazer isso é vender um montão de Steam Machines, e a melhor forma de vender um montão de Steam Machines é torná-las similares aos consoles que as massas já conhecem. Em preço, na aparência, no catálogo de software e na simplicidade do hardware.

A Valve já forneceu a fundação necessária para o nascimento das Steam Machines, mas para que estes PCs tenham sucesso Gabe e seus aliados precisam apresentar uma visão para guiar a iniciativa. E simplesmente não vi isso durante a apresentação.

Espero que a mensagem da Valve se torne mais clara à medida em que as Steam Machines caminham para se tornar uma realidade no mercado. O CD-i da Philips já mostrou na década de 90 os perigos de ser “aberto” demais. Se a Valve falhar, é difícil imaginar alguém mais abraçando a causa.

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