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Análise: iPhone abre espaço para a Apple nas empresas

Analistas dizem haver dúvidas de que os dois lados estejam prontos para estabelecer uma relação duradoura.

CIO (EUA)

13/10/2008 às 19h25

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Ao anunciar que o iPhone estava pronto para uso corporativo, o CEO da Apple, Steve Jobs, causou um frisson que poucos lendários homens de negócios conseguiram igualar. De operários a CEOs, parecia que todo mundo queria ter seus aplicativos corporativos no novo dispositivo. Mas porquê? Tratava-se da Apple, sinônimo de design moderno e admirado e antítese da velha e pesada tecnologia corporativa que deixa os olhos vermelhos e congela a tela do computador.

Porém, segundo alguns observadores de iniciativas da Apple e profissionais de TI evangelistas que usam Macs para negócio, a importância do anúncio vai além do iPhone em si. Eles acreditam que o iPhone poderá conduzir a uma nova era – a de uma Apple mais amigável com a corporação. E argumentam: esta mudança de paradigma poderá ser o ingrediente final do caldeirão que está sendo mexido por funcionários que se tornaram insatisfeitos com a tecnologia corporativa e, para suprir suas necessidades, recorreram a opções inovadoras na arena de consumo.

Alguns obstáculos à conversão de PCs para Macs nas empresas já existem há anos. Muitos departamentos de TI são agradecidos às decisões tomadas por seus predecessores nos anos 90, quando os PCs e o sistema operacional Microsoft Windows dominaram o mercado corporativo. As empresas planejavam tudo, de servidores back-end a software cliente, baseando-se em um framework Microsoft, observa Roger Kay, analista da EndPoint Technologies.

Integrar equipamento Mac e outros produtos da Apple a tal ambiente demanda tempo e dinheiro. Apesar dos problemas do software Microsoft, a maioria das empresas almeja compatibilidade com ele, admite Kay. “Elas já têm investimentos que querem utilizar.”

Mas uma migração para software baseado na web poderia suavizar a resistência de TI à integração, já que os usuários só precisam de um navegador para acessar seus aplicativos.

Os funcionários têm liderado este movimento. Em vez de usar o software sancionado pela corporação em suas workstations, muitos recorrem a tecnologias como wikis, blogs e redes sociais para colaborar em projetos horizontalmente, sem a ajuda ou a bênção de TI. Na pesquisa CIO Consumer Technology, os 311 decisores de TI entrevistados admitiram que quase 25% dos seus funcionários utilizam redes sociais para fins profissionais, enquanto 21% usam wikis e outros 17%, blogs.

Do ponto de vista do hardware, os Macs se tornaram a marca preferida de cada vez mais pessoas. A Apple forneceu 2,3 milhões de Macs no primeiro trimestre de 2008, o que equivaleu a um crescimento unitário de 44% e ajudou a Apple a obter um crescimento de receita de 47%, em comparação ao mesmo trimestre do ano anterior.
Mas a adoção de Macs e de software da Apple nas empresas ainda é lenta, talvez, em parte, por não ser altamente prioritária para a própria Apple.

É claro que a Apple faz negócios com empresas e tem uma equipe especializada em algumas de suas lojas, mas, indiscutivelmente, continua sendo uma companhia voltada ao consumidor. Os números comprovam isso. O iPod detém cerca de 70% do mercado de tocadores de MP3. A Apple vendeu 22,1 milhões de iPods no primeiro trimestre de 2008. Em média, um iPod tem sido vendido a cada 1,7 segundo nestes seus cinco anos e meio de existência.

Evangelistas que dirigem instalações Mac em pequenas e médias empresas dizem que suas experiências – não diferentes das vividas nas grandes empresas, como você poderia pensar – ainda demonstram os mais variados resultados para quem utiliza Apple no cenário corporativo.

Mudança por atacado
Shani Magosky, COO com responsabilidade por TI na Jaffe Associates, empresa de marketing e relações públicas com 25 funcionários, não precisou do iPhone para “abraçar” a Apple.

Magosky começou a observar Macs para sua empresa tradicionalmente baseada em PC e Windows no segundo semestre de 2006. Ela não estava necessariamente atraída por Bono cantando em um anúncio do iPod. Estava farta de ver PCs quebrando o tempo todo. E havia o choque de descobrir o quanto lhe custaria migrar para o software de colaboração SharePoint da Microsoft (e a tecnologia de servidor associada).

Especificamente, Magosky rodava uma versão antiga do servidor de terminal da Microsoft, que permitia aos seus funcionários (todos trabalhando remotamente, já que a Jaffe não tem um escritório central) conectar à rede e compartilhar arquivos. “Era desnecessariamente lenta e não confiável”, revela. “Acabamos gastando uma fortuna para diagnosticar problemas de TI.”

Com um servidor de terminal obsoleto, Magosky foi aconselhada a atualizar para o SharePoint. Computando a compra e a instalação do servidor, a aquisição das licenças de software e todo o suporte relacionado, Magosky gastaria US$100 mil.

Nesse meio-tempo, os PCs tornaram-se um problema oneroso. Diante do que Magosky considera uma fabricação ruim e toneladas de malware permeando a camada deixada pelo Windows entre a web e a rede, os PCs começaram a quebrar com extrema freqüência, recorda. “Muita coisa pode dar errado com eles. Todos estes vírus que infectam PCs não atacam Macs. E sai mais caro consertar do que comprar novo. Então eu disse que não desperdiçaria mais dinheiro e comprei um MacBook Pro.”

Talvez por um feliz acaso, na mesma época seu chefe, Presidente e CEO Jay Jaffe, estava de férias com a filha em San Francisco e visitou a loja da Apple em Stockton Street. “Ele comprou um iPod touch pelo qual se encantou”, diz Magosky. “Na loja, conversou com uma equipe corporativa e foi convencido de que não havia nada que precisássemos fazer agora que não poderíamos fazer com eles [Apple].”

Pouco tempo depois, Magosky começou a migrar a instalação inteira para Macs. Como a Jaffe Associates atua no setor jurídico, que é grande usuário de software Microsoft, começou a rodar o Office 2008 para Mac. A companhia escolheu o Kerio MailServer para e-mail, o Entourage para arquivamento e o servidor Xserve da Apple para armazenamento de dados back-end. Magosky prevê que a Jaffe obterá uma economia de 50% em custos de manutenção graças à mudança para a Apple, que pagará pelo hardware e pela implementação de produtos Apple no primeiro ano.

O custo de suporte/hora para Mac e Windows é o mesmo, mas Magosky obteve economia porque reduziu substancialmente o número de horas necessárias. Em outras palavras, Macs requerem bem menos manutenção.

“A eficiência dos funcionários aumentará tremendamente”, comemora. “Além da economia de dinheiro propriamente dita, ficarei livre para fazer outras coisas de maior valor agregado.”

E quanto a esses iPhones tão interessantes? Os funcionários da Jaffe utilizam principalmente dispositivos RIM BlackBerry para mobilidade, mas Magosky talvez leve em conta iPhones mais adiante, se um número suficiente de usuários pedir.

Obstáculos permanecem
Descartar PCs em uma empresa de 25 pessoas é uma coisa. Inserir a Apple em uma grande empresa com sistemas legados é outra bem diferente. Até mesmo algumas empresas que gerenciam ambientes híbridos de Mac e PC há anos dizem que a Apple ainda tem trabalho pela frente.

Segundo Rob Israel, gerente de suporte a desktop da Digitas, 30% da agência de publicidade usa Macs. Um ambiente misto de Macs e Windows pode ter armadilhas tecnológicas e culturais, alerta Israel, que gerencia cerca de 600 Macs.

“É raro implementarmos servidores Apple aqui, embora a cultura da companhia tenha se tornado amigável com o Macintosh”, revela. “No departamento de TI, ainda há a sensação de que somos uma instalação Windows. Por que complicar as coisas acrescentando mais plataformas?”A instalação de TI tem quatro Apple Xserves, um deles utilizado para hospedar o Filemaker Pro.

Apesar de descrever como “fantástico” o relacionamento da companhia com a Apple em termos de contratos, Israel reconhece que o negócio deixa a desejar. “A Apple não fornece os roadmaps de tecnologia de que o departamento de TI, obviamente, precisa”, diz Israel. “Pior ainda, o hardware é incompatível com a versão anterior do sistema operacional e é impossível acompanhar o cronograma da companhia."

A Digitas não consegue implementar novas versões do Leopard, o sistema operacional do Mac, com a rapidez que a Apple pede, por exemplo. Toda vez que a Apple passa para a versão seguinte de um sistema operacional, durante seis meses a Digitas acaba tendo que comprar equipamento ultrapassado para continuar compatível com o antigo sistema operacional. “Reclamamos disso há quatro anos”, explica. A Apple não tem nenhuma motivação para projetar novo seu hardware para suportar um antigo sistema operacional e por isso não o faz.”

Não é a gota d’água
Dificilmente o alarido da Apple poderia ser mais alto. Mas será que chegamos ao ponto em que muitas grandes empresas podem cogitar uma troca geral de PCs por Macs? Provavelmente não, opina Kay.

Mesmo que um CIO avançado -- daqueles que acha que a empresa empatou dinheiro demais no Windows – quisesse fazer uma troca em massa e obtivesse o capital inicial para isso nestes tempos econômicos bicudos, seria difícil. “É rara a época em que você pode fazer uma mudança tão grande de paradigma na computação”, argumenta Kay.

Por ora, o iPhone pode ser o ponto de partida. Isto é, as empresas botam apenas as pontas dos pés na piscina da Apple para ver se a experiência corporativa amadurece.
Na New York Media, que publica a revista New York e NYMag.com, o diretor de TI Albert C. Lee implantou Macs para alguns funcionários, mas teve problemas com acordos de nível de serviço. Entretanto, isso não será empecilho para um possível acréscimo de iPhones à corporação quando proporcionar a capacidade de acessar e-mail a partir de um servidor Microsoft Exchange, em junho.

“Uma maioria expressiva dos nossos funcionários já usa o iPhone como dispositivo de comunicação pessoal”, diz Lee. “É muito atrativa a idéia de empoderar uma grande população de usuários corporativos com push e-mail e gerenciamento remoto de agenda, principalmente se eles nunca tiveram.”

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