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Intel e ARM podem dar início à guerra dos processadores

Com baixo custo e melhor eficiência energética, o Atom e o chips da ARM têm tudo para colocar as empresas em rota de colisão.

Neil McAllister, da InfoWorld/EUA

29/10/2009 às 20h48

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Foto:

guerra-chips-150.jpgParte da razão para a existência dos netbooks, computadores portáteis, com recursos limitados e voltados para mobilidade e acesso a web, está diretamente ligada ao Atom, processador de pequenas dimensões e muito eficiente em termos de consumo energético.

Com as versões chamadas de ultra-low-voltage, a Intel – que fabrica o Atom – quer levar o processador para outros segmentos e equipar media players, TVs inteligentes e outros gadgets com o chip.

Mas, se uma das maiores fabricantes de chips do mundo reinou com certa tranquilidade até agora, uma concorrente pequena e despretensiosa pode levar a Intel a rever seus planos.

A ARM, empresa britânica com sede em Cambridge, é praticamente desconhecida da maior parte dos usuários de dispositivos eletrônicos. Dificilmente se verá uma campanha publicitária dela, seja em revista ou mesmo na TV. Com menos de 1,8 mil funcionários e uma receita anual de 3 bilhões de dólares, ela representa uma pequena fração da gigante Intel. Mesmo assim, as duas empresas estão em rota de colisão e o resultado disso pode dar novos rumos à indústria de informática.

A Intel vendeu seu bilionésimo processador em 2003; sua rival mais próxima, a AMD, chegou à marca de 500 milhões de chips vendidos apenas este ano. Já a ARM espera vender 2,8 bilhões de processadores em 2009 – o que daria cerca de 90 chips por segundo.

Se não consegue entender a lógica desse raciocínio é porque falta uma informação importante: pegue qualquer celular e as chances de ele trazer um processador ARM são de 95%. No caso de ele ter sido fabricado nos últimos cinco anos, esse índice bate em 100%.

Você também encontrará chips da fabricante britânica em roteadores sem fio da D-Link, Linksys e Netgear; em impressoras da HP, Konica Minolta, Lexmark. Eles também estão presentes em calculadoras gráficas da HP e da Texas Instruments; em aparelhos GPS da Blaupunkt, Garmin e TomTom; e em inúmeros outros dispositivos. Até mesmo o sistema de informação de voo da SpaceShipOne, era alimentado por um processador ARM.

Cada uma destas aplicações representa uma oportunidade potencial para a Intel. Mas, até recentemente, processadores com set de instruções x86 foram considerados caros e com alto consumo de energia para uso em aplicações embarcadas. O Atom está mudando, mas a Intel ainda precisa convencer os fabricantes de dispositivos que ela ainda pode ser uma boa parceira para esses dispositivos.

Davi e Golias
Apesar de desconhecida do grande público, ARM é uma das marcas mais conhecidas entre entusiastas de tecnologia e também na indústria de semicondutores. Em volume, é o processador de 32 bits mais bem sucedido do mundo, respondendo por mais CPUs em dispositivos do que qualquer outro - sem sequer um único anúncio na TV. Tal sucesso é o resultado direto do modelo de negócio da ARM.

A Intel subiu ao topo da indústria de computadores da maneira mais tradicional: lutar com unhas e dentes e guarda com zelo os projetos de seus processadores. Mesmo quando a Intel licencia sua tecnologia para outras empresas - como a própria AMD - ela ainda concorre cabeça a cabeça com os licenciados e para os mesmos mercados.

Por sua vez, a ARM se baseia fortemente na parceria. Ela fabrica, mas não vende chips sob a sua bandeira. Em vez disso, licencia os projetos do núcleo da CPU para mais de 200 empresas de semicondutores em todo o mundo. Para citar algumas, somente no mercado norte-americano, os licenciados incluem a Freescale, Marvell, Qualcomm e Texas Instruments.

Cada licenciado é livre para trabalhar com os projetos da ARM, realizando modificações, personalizando os chips e os vendendo sob sua própria marca. Por exemplo, o processador instalado no iPhone 3G S é vendido como um Samsung S5PC100, mas seu núcleo é um ARM de 600MHz, combinado com unidades de processamento gráfico e de sinal de rádio da Samsung.

É por isso que há tantos tipos diferentes de processadores ARM em tantos tipos diferentes de aparelhos. O processador ARM não é apenas uma única CPU, mas sim um ecossistema que inclui não apenas os processadores, mas também ferramentas de desenvolvimento e outras tecnologias de conexão.

O que acaba acontecendo é que muitos fabricantes concorrentes podem desenvolver uma variedade de produtos para atender mercados diferentes, mas todos baseados na arquitetura do processador ARM.

Na era do átomo
Se a Intel quer ganhar uma parcela desse lucrativo mercado, a ARM é o concorrente que ela terá de enfrentar. Na verdade, mesmo a Intel já fabricou chips com núcleo ARM, sob a marca chamada XScale. Em quais equipamentos são usados? Simplesmente nos smartphones BlackBerry da série 8000.

A Intel vendeu a divisão XScale para a Marvell, em 2006, no entanto, durante um período de reestruturação. Na época, um porta-voz da companhia descreveu a divisão como uma “unidade de negócios não sustentável” e ainda afirmou que “o mercado servido pelo XScale não se ajustava às estratégias da Intel”. Pois é.

Menos de dois anos depois, a Intel lançou o processador Atom. Trabalhando em conjunto com a Asus (primeira empresa a lançar um netbook), a Intel desenvolveu o chip para oferecer um bom desempenho a uma voltagem muito baixa. Mas ainda consumia muita energia para ser utilizado em smartphones e outros pequenos dispositivos. No entanto, para o mercado de netbooks, decolou como um foguete.

Hoje, o Atom está presente na maioria dos netbooks e novos modelos estão vindo por aí, com mais velocidade e, recentemente, com dois núcleos. E a Intel não quer deixar o Atom apenas nesse mercado de netbooks, mesmo aquecido como está.

Há rumores de um projeto, com codinome Medfield, que visa produzir uma versão do Atom mais compacta de forma a ser utilizado em smartphones e outros gadgets.

Parece que o Atom é um produto que vai mudar os rumos da Intel. Em março, ela fechou um acordo com a Taiwan Semiconductor Manufacturing Corporation, no qual permite que à TSMC e seus clientes criarem produtos personalizados baseados no núcleo do Atom. Em outras palavras, a Intel começa a seguir o caminho da ARM.

Questão de compatibilidade
Pode ser difícil para a Intel conquistar os clientes da ARM. Mas ela tem uma importante carta na manga: o set de instruções x86. Apesar da ARM ter um vasto mercado, os programadores que estão acostumados a desenvolver mais aplicações sobre a plataforma x86, precisam aprender novos truques sobre a arquitetura ARM para poderem ser produtivos.

Isso se deve à história da ARM. Com projeto único, desenvolvido em cima da tecnologia de processadores Risc, a ARM cresceu na década de 1980 na Grã Bretanha, fora da indústria de computadores e sem o tipo de capital que levou a Intel ao topo das empresas no Vale do Silício. Quando ficou claro de que a arquitetura x86, da Intel, dominava o mercado de PCs, só restou à ARM ficar com os dispositivos eletrônicos menores.

O Atom é menor do que os chips mainstream PC da Intel e consome menos energia, mas suporta o conjunto completo de instruções x86 e seu modelo de programação. Qualquer proprietário de um notebook com processador Core 2 Duo pode comprar um netbook com Atom e rodar todos os programas que rodavam no notebook, embora mais lentamente.

A Intel entende que essa compatibilidade pode ser um bom argumento para os desenvolvedores fazerem a transição de ambientes de PC para dispositivos móveis. Isso significa que eles serão capazes de usar os mesmos compiladores, ferramentas e bibliotecas de código para criar programas para dispositivos móveis como já fazem para computadores.

Isso não quer dizer que faltará desenvolvimento para a plataforma ARM. Sistemas operacionais e aplicativos disponíveis para a plataforma mostraram crescimento ao longo de décadas e inclui várias distribuições Linux.

O Android, sistema operacional da Google, funciona em ARM, como também o Chrome OS. Mesmo alguns fornecedores de software comercial o apoiam como, por exemplo, a Adobe. Ela anunciou recentemente que iria desenvolver as versões do Flash Player 10.1 para ARM e Intel simultaneamente.

Uma coisa que a ARM não tem, no entanto, é o Windows. Apesar de vários sabores do Windows CE serem executados em dispositivos ARM, a Microsoft diz não ter planos para manter-se em cima da programação do ARM. E mesmo que o próprio sistema se sustente, não teria muito uso, a menos que grandes fornecedores de aplicativos também continuassem desenvolvendo para essa plataforma.

É certo que o Windows pode ser um exagero para muitas aplicações embarcadas. Mas a incapacidade de executar o sistema operacional da Microsoft pode ser suficiente para bloquear os planos da ARM para competir no mercado de netbooks.

Questão de foco
Mas se a Intel subjugar o mercado, entretanto, sua ênfase no Windows e arquitetura x86 pode ser um tiro pela culatra. Não muito tempo atrás, a revista Upside entitulou uma empresa chamada Transmeta como "a mais importante empresa no Vale do Silício". Seu produto parecia notavelmente semelhante ao Atom. As CPUs da Transmeta utilizavam tecnologia proprietária para executar o conjunto de instruções x86 de uma maneira que consumia muito menos energia do que os chips Intel para desktop e notebook.

Quando os primeiros chips Transmeta começaram a aparecer nos portáteis de consumo, no entanto, foi uma decepção. Os laptops não foram muito menores ou mais leves do que as normais e, ainda, o seu desempenho foi sensivelmente pior.

A categoria netbook não existia naquela época e a tecnologia das baterias era menos avançada do que é hoje. Para o público obcecado por desempenho, os minutos que a tecnologia Transmeta adicionava à vida da bateria não valia a pena, pois sacrificava o desempenho.

A situação é semelhante hoje, só que agora os consumidores exigem velocidade e economia de energia. Quem se importa em usar um chip com arquitetura x86, contanto que se possa decodificar um vídeo de alta definição e não descarregar a bateria antes que o filme termine?

O desempenho do Atom é bom, mas a Intel ainda tem de demonstrar um modelo com características de economia de energia comparável à da atual geração de chips ARM. Enquanto isso, a ARM demonstrou recentemente uma versão do seu processador Cortex A9 Rodando a 2 GHz, provando que os chips ARM podem ser dimensionados para suportar aplicações de alto desempenho.

E o próximo produto ARM promete consumir um terço da potência consumida pelos chips atuais. Diante desses números, o discurso da Intel sobre a arquitetura x86 poderia acabar por terra.

Que os chips fiquem aonde eles devem ficar
Finalmente, a melhor arma da Intel é uma grande fortuna. O Atom não precisa ser um sucesso imediato no mercado de dispositivos, pois a Intel pode sustentá-lo com as vendas de outros produtos para os lucrativos mercados de PC e suas linhas de servidores.

Mas isso também não importa se a Intel não puder fazer o Atom ser rentável no longo prazo. Enquanto a ARM cresceu no mercado de processadores embarcados, a Intel tem se acostumado a empresas com margens mais elevadas.

Segundo algumas fontes, cada processador Atom é vendido por cerca de um décimo do preço de um dos chips Penryn para laptops padrão. Como a ARM faz seus chips cada vez mais rápidos e mais versáteis, a Intel será pressionada a fazer o mesmo com o Atom.

Em contrapartida, se o Atom oferecer mais desempenho, haverá uma queda nas vendas de outros processadores da Intel, que levam a maior margem de lucro da empresa. Muitas analistas já se perguntam este é realmente um mercado no qual a Intel deve se aventurar.

A Intel não tem escolha. A ascensão dos netbooks, o declínio dos desktops, o movimento de TI verde e a explosão dos smartphones apontam para uma mudança radical na computação. A empresa pode abraçar a mudança, mas não pode impedi-la.

E fica cada vez mais claro. Em um futuro breve, a ARM e seus muitos parceiros devem cruzar seus caminhos com os da Intel.

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