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Chromecast pode ter um futuro mais brilhante que a Apple TV

Plataforma “aberta” e baixo custo podem ajudar o produto da Google a conquistar um lugar de destaque na sala de estar.

Marco Tabini, TechHive

16/08/2013 às 20h51

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O lançamento do Chromecast marca a mais recente tentativa da Google de entrar no mercado de TV. Uma tentativa que, embora ainda esteja nos estágios iniciais, parece estar sendo mais bem recebida do que a Google TV, que vem sendo ignorada pelos consumidores desde o seu lançamento em Outubro de 2010.

Não é surpresa que o dongle para streaming de vídeo da Google, que é vendido por US$ 35, esteja sendo comparado à Apple TV, o eterno “hobby” da empresa de Cupertino que, de acordo com os números mais recentes, vende 1.5 milhões de unidades a cada trimestre. E porque não? Ambos os aparelhos são, à primeira vista, bastante semelhantes. Ambos são capazes de reproduzir vídeo da internet, e são parte de tentativas de seus respectivos fabricantes de mudar a experiência tradicional com uma TV na sala de estar.

As apostas são grandes. Uma pesquisa elaborada em 2012 pela Global Industry Analysts, uma empresa de pesquisa de mercado, estima que o mercado de vídeo online chegará aos US$ 4,4 bilhões em 2017 - e isso nem inclui todas as novas atividades que um computador na sala de estar poderia suportar, como jogos e apps. E não há nenhuma dúvida de que a Google está na lanterninha nesta disputa: até maio deste ano a Apple já havia vendido 13 milhões de Apple TVs.

Embora a Apple TV esteja no mercado há muito mais tempo, o Chromecast na verdade parece melhor posicionado para dominar o mercado de dispositivos para streaming. O produto da Apple certamente tem algumas vantagens, mas as vantagens da Google são maiores.

Semelhanças superficiais

As duas empresas tem algumas diferenças gritantes na forma como estão enfrentando o problema do entretenimento na TV.

A Apple TV, como é de praxe na Apple, oferece ao usuário uma experiência mais completa. Mesmo que você nunca tenha chegado perto de um computador em sua vida, ela é um aparelho fácil de usar. Basta plugá-la à TV, ligar e começar a aproveitar conteúdo em questão de minutos, aproveitando a gigantesca biblioteca de filmes, séries de TV e músicas no iTunes. Em pouco tempo sua única preocupação será onde foi parar o pequeno controle remoto.

Por outro lado o Chromecast foi projetado para aquelas pessoas que já tem um computador ou smartphone, e preferem trocar o controle remoto por uma abordagem mais moderna no consumo de conteúdo. O resultado não é tão elegante quanto a Apple TV, mas vem em um “pacote” menor, mais discreto e mais barato.

O preço atraente pode ser um fator significativo para seu sucesso inicial. “O preço torna fácil que pessoas fora do perfil dos “early adopters”, os primeiros a adotar uma tecnologia, não importa quanto ela custa, decidam experimentar o produto”, disse Alan Wolk, um analista global da Kit Digital/Piksel (uma empresa especializada em tecnologia e serviços de vídeo). “A capacidade de usar o smartphone ou tablet como um controle remoto também foi uma idéia brilhante, já que cria funcionalidade adicional”. 

Aberto ou fechado?

Mais importante, entretanto, é que as duas empresas adotaram abordagens dramaticamente diferentes ao escolher as tecnologias nas quais basear suas respectivas plataformas. A Apple TV originalmente rodava uma versão simplificada do OS X, mas hoje é baseada em uma versão especializada do iOS. E embora seja possível fazer o “jailbreak” no sistema operacional, oficialmente seus recursos estão fora do alcance dos desenvolvedores em geral. A única exceção é que apps podem incorporar a tecnologia AirPlay, para transmitir ou espelhar conteúdo numa TV conectada à Apple TV.

Já a Google, por sua vez, decidiu abrir sua plataforma aos desenvolvedores, que podem construir seus próprios apps usando as mesmas tecnologias nas quais são baseados os aplicativos web tradicionais. O aparelho em si roda uma versão extremamente simplificada do Chrome OS, que usa documentos HTML5 padrão para exibir o conteúdo, incluindo vídeo em alta definição, e tem a capacidade de interagir com um app “emissor” rodando em um PC ou dispositivo móvel.

Isto deve tornar muito mais fácil despertar o interesse dos desenvolvedores pelo Chromecast. Alex Gourney, CEO da companhia de “fitness interativo” BitGym, concorda. “Fazemos o streaming avançado de vídeos de exercícios, e a capacidade de rodar um “app” no Chromecast é uma grande vantagem sobre a Apple TV. Podemos fazer reprodução de vídeo com velocidade variável, compor áudio dinâmicamente e até mesmo baixar conteúdo extra”. Basicamente, tudo o que é possível fazer em um app em HTML5 para a web.

Da mesma forma como aconteceu com a App Store no iOS, a decisão de “abrir” o Chromecast pode ser benéfica para todos. “Se um desenvolvedor criar alguma coisa que agite o mercado e atraia muitos usuários, todo mundo ganha”, diz Wolk. “A Google ganha, porque o Chromecast se torna popular. Os desenvolvedores ganham, porque terão um mercado maior para seus produtos. E os consumidores ganham, porque terão produtos melhores e muitas mentes brilhantes trabalhando em seu desenvolvimento.”

Quase falho

Isso não quer dizer que a Google tenha acertado em cheio no lançamento do Chromecast. Um problema é que ele parece ter baixo desempenho. Comprei um assim que foi lançado para “fins de estudo” e minha impressão, não científica, é que ele é muito menos capaz do que uma Apple TV, tanto em poder de processamento quando em memória. Eu preferiria gastar US$ 50 ou US$ 70 em um aparelho um pouco mais poderoso, e milhões de pessoas não tem problemas em pagar mais de US$ 100 pelo produto da Apple. Mas é claro que o preço é responsável por grande parte do apelo do Chromecast, e que por ele os usuários podem estar dispostos a ignorar algumas limitações.

Além disso o Chromecast, de acordo com a própria Google, ainda está “inacabado”. A documentação para os desenvolvedores deixa claro que as ferramentas usadas para a criação de apps podem mudar a qualquer momento, e de forma a tornar o software atual inútil. A insistência da empresa em chamar todos os seus produtos de “beta” acabou se transformando em arrogância. Como ela espera que os desenvolvedores invistam tempo e recursos em uma tecnologia que pode mudar radicalmente em um piscar de olhos?

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A Apple controla rigidamente quais apps, ou "canais" estão disponíveis na AppleTV

A Apple é notavelmente estrita quanto às interfaces de programação às quais permite acesso, mas por uma boa razão: como explicado por Bertrand Serlet, ex vice-presidente de software da empresa durante a Worldwide Developers Conference (WWDC) em 2009, estas interfaces são de fato contratos entre a empresa e seus desenvolvedores, e a Apple faz um grande esforço para não quebrá-los uma vez que estejam estabelecidos. Esta abordagem dá aos desenvolvedores mais segurança e previsibilidade, e é frustrante que uma empresa tão centrada em seus engenheiros, como a Google, não consiga entender sua importância.

Ainda assim, esta não é necessariamente uma fraqueza mortal no Chromecast. “Uma lição de podemos aprender com a indústria da música é que “bom o bastante” geralmente é bom o bastante”, diz Wolk. “Lembram-se quando nos disseram que ninguém iria escutar músicas em MP3 porque a qualidade não era tão boa quanto a dos CDs? É a mesma coisa com o streaming de vídeo. A qualidade pode não ser tão boa quanto um Blu-ray, por exemplo, mas é boa o bastante, e quando o assunto é o consumo de mídia, a conveniência é um fator que supera todos os outros”.

Enorme oportunidade

Se a Google conseguir resolver estes problemas, o Chromecast pode representar uma tremenda oportunidade para a empresa conseguir uma posição significativa no mercado. Atualmente a Apple TV e os aparelhos da Roku o dominam, com os outros participantes basicamente brigando por migalhas. 

Até agora a natureza fechada de plataformas como a Apple TV significou que os consumidores precisam depender de participantes estabelecidos para mudar a forma como usam seus televisores. Mas frequentemente estes participantes estão comprometidos, por escolha ou necessidade, com provedores de conteúdo cujo antiquado modelo de negócios é baseado na capacidade de controlar de perto a distribuição de seus produtos.

Como resultado a inovação tem demorado a chegar neste mercado, e as poucas melhorias que temos visto ao longo dos anos, talvez com exceção da ascensão da Netflix, no geral desapontaram os consumidores.

Entretanto, com uma plataforma amplamente aberta a terceiros tudo pode acontecer. Sua sala de estar pode finalmente experimentar o mesmo tipo de revolução que o iOS e o iPhone trouxeram ao mercado de dispositivos móveis, onde participantes pequenos e grandes redefiniram os limites do que pode ser feito em um smartphone.

Melhor ainda, o Chromecast ataca diretamente uma das principais fraquezas da Apple: sua insistência em prosseguir sozinha. De acordo com Harry Hawk, um consultor baseado em Nova Iorque com experiência em marketing, isto pode dar à Google tempo para crescer sua base de usuários praticamente sem interferência de Cupertino. 

Ele explica: “dado o baixo preço do Chromecast, e a falta de cooperação da Apple com outros ecossistemas, é difícil ver a Apple indo diretamente atrás do Chromecast. No jogo entre a Apple TV e o Chromecast o produto da Google, no momento, tem a vantagem”.

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