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Comunidade de software livre vê com receio anúncio da Microsoft

Comunidade de software livre mostra pouca crença no anúncio de aproximação, tido como estratégia de marketing da Microsoft.

Por Guilherme Felitti, repórter do IDG Now!

21/02/2008 às 19h09

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Falar é fácil. Se houvesse um ditado para resumir a postura de representantes da comunidade de software livre ouvidos pelo IDG Now! após a Microsoft dar indícios de aproximação nesta quinta-feira (21/02), seria, facilmente, este.

O ceticismo da comunidade passa tanto pela falta de pontualidade nas ações anunciadas pela Microsoft como pela temporalidade do anúncio oficial, formalizado na semana anterior da reunião da ISO, em Genebra, que determinará se o Open XML, da empresa, será o padrão para documentos eletrônicos frente ao Open Documento Format.

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O surpreendente anúncio da Microsoft, tida como uma empresa altamente centralizadora a respeito de seus produtos, dá conta que a empresa se apoiará em tornar a conexão de seus produtos mais aberta, melhorar o cumprimento de padrões de mercado, praticar a portabilidade de número e incentivar a aproximação entre comunidade de software livre e a companhia.

"Só acredito nisto tudo, na verdade, vendo acontecer", desafia Jomar Silva, diretor geral da ODF Alliance Chapter Brazil, responsável por participar de reuniões sobre a batalha ODF e Open XML dentro da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).

"Precisamos ver a qualidade da documentação e quais vão ser as formas de licenciamento. A interoperabilidade tem que ser absolutamente livre para uso e desenvolvimento sem pagamento. Qualquer obstáculo no caminho pode ser uma barreira para a inovação".
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A pretensão de se aproximar da comunidade de software livre pontua diferentes partes do anúncio feito pela Microsoft nesta quinta. Por mais que a ação de maior impacto diga respeito às pressões recebidas pela União Européia na questão de compartilhamento de informações técnicas com rivais no setor de tecnologia, a Microsoft faz considerações diretas sobre uma possível interação maior entre seus produtos e a comunidade que defende o software livre.

Além da criação do Open Source Interoperability Initiative, onde a Microsoft investirá uma quantia não revelada para promover eventos e pesquisas sobre a integração entre suas plataformas e softwares abertos, a empresa deu um recado à reunião do ISO ao afirmar que reescreverá APIs do Office 2007 para o melhor suporte a diferentes formatos de arquivo.

"É extremamente oportuno. Parece que a Microsoft está preparando um ar angelical pra dizer em Genebra que vai abraçar a interoperabilidade", pondera Silva, afirmando ainda que a liberdade alardeada no anúncio tem que ter conseqüências práticas para que a comunidade em geral, tão ponderada (senão, radical) quanto à Microsoft, lhe dê o mínimo de crédito.

Em novembro de 2006, a Microsoft deu o primeiro sinal claro de investimento em software livre, ao fechar um acordo com a Novell em que ambas as empresas desenvolveriam tecnologias que melhoraria a interoperabilidade entre os sistemas Windows e SuSe Linux. Na ocasião, a Microsoft garantiu aos desenvolvedores da Novell não processá-los pelo uso de patentes da Microsoft na criação de aplicativos dentro do projeto.

O que parecia um passo à frente nas conturbadas relações com a comunidade de software livre desmoronou quando Brad Smith, conselheiro geral da Microsoft, disse à revista Forbes que a Microsoft exigiria royaltes de usuários e desenvolvedores de distribuições Linux, que violavam 235 patentes não reveladas da companhia.
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A garantia de não haver processo, confirmada hoje para qualquer desenvolvedor que consulte as milhares de páginas de documentos sobre APIs e protocolos de comunicação de seus produtos (na prática, todos os softwares atingidos pela ação continuam com seus códigos fechados), não deixa claro, no entanto, se o uso da documentação para criar aplicativos direcionados ao sistema Linux sofrerão qualquer tipo de ameaça.

“É mais um movimento de marketing que qualquer coisa. Não acho que vai beneficiar empresas nem usuários finais”, opina Álvaro Leal, analista da consultoria IT Data. “Com o crescimento da adoção de sistemas livres, a Microsoft precisa não ser odiada pela comunidade para que possa aproveitar as oportunidades, principalmente no mercado corporativo”, ele acrescenta.

Avi Alkalay, consultor de padrões abertos e open source da IBM Brasil, aprofunda o temor. "Não é a primeira vez que (a Microsoft) coloca uma auréola de anjo. Anos depois, vemos os resultados da promessa", afirma, citando a promessa da companhia de desenvolver o Internet Explorer para Solaris ou a abertura da plataforma .Net.

Os três concordam que o texto da Microsoft tem mais cheiro de marketing por enquanto, dado o contexto e a falta de detalhes pontuais, do que um caminho para conquistar a confiança da comunidade. "Por enquanto, é apenas um site bonito com nome forte por trás", define Avi.

Mas consideremos que a Microsoft realmente leve a sério a iniciativa, liderada agora por Ray Ozzie, executivo que se formou e atingiu relevância no mercado de software livre antes de assumir o posto do fundador Bill Gates. Quem será o mais beneficiado?
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Leal acredita que o movimento sequer teria a função de dar tranqüilidade às empresas em relação às indicações da Microsoft de que poderia processar fornecedores de distribuições Linux por infração de patentes. “A parceria com a Novell já acalmou o mercado”, avalia.

Avi é muito mais otimista. "Todo mundo ganha. Ações mais abertas foram tomadas por empresas como IBM e Sun há muitos anos - a Microsoft está atrasada neste tipo de atitude. Hoje, eu vejo os resultados desta atitude. O mercado gosta mais da gente, temos portas mais abertas. Fazendo analogia com internet, quanto mais gente, melhor ela fica".

Sobre o ditado de Avi, não custa lembrar: a inabilidade da Microsoft com a grande rede levou a gigante de software a propor uma recente compra hostil do Yahoo por 44,6 bilhões de dólares.

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