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Conheça os seis principais cultos tecnológicos

Saiba mais sobre os fanáticos devotos de tecnologias consideradas ultrapassadas, sites colaborativos e sistemas CMS, entre outros.

Infoworld / EUA

05/07/2010 às 16h47

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Chame do que quiser – fanatismo, devoção, obsessão – algumas tecnologias conseguem de alguma forma inspirar seguidores extremamente leais. Esses devotos são tão comprometidos que você pode chamá-los de cultos de tecnologia.

Algumas vezes esses cultos são inspirados em elegantes linhas de código. Em outras é a dedicação a um ideal. Alguns estão buscando transformar a maneira como o software é feito. Outros esperam transformar a própria humanidade. E uns só querem discutir sobre tudo – interminavelmente e de maneira muito metódica.

Selecionamos seis dos principais cultos. Mexa com eles à sua própria sorte.

Deixamos algum culto escapar? Nos diga nos comentários abaixo.

Culto Nº 1: Os Samurais do Slashdot
Fundação: 1997
Reunião das tribos: /. - www.slashdot.org (Onde mais?)
Principais divindades: Linus Torvalds, Neil Gaiman
Escrituras sagradas: “O Senhor dos Anéis”; “Programming Perl” (também conhecido como "o livro do camelo")
Sacríficios ritualísticos: Assar novatos em fogo aberto
Mantra: Calças são opcionais

Muito antes de existir guerras de comentários nos blogs, muito antes de Digg e Reddit e todos os outros sites de “mídia social”, existia o Slashdot. O motivo da sua existência: explorar a Internet em busca de coisas de interesse dos "geekerati", a elite entre os geeks, e lhes dar um lugar para discutir.

Quando um artigo ou post recebe uma menção no slashdot, isto é uma benção e uma maldição. Pode levar dezenas de milhares de leitores ao seu site e fazer com que eles questionem tudo, da sua competência à sua descendência. Coitado do tolo que entra alegremente em uma discussão e diz “O que o Linux tem de tão interessante? O Windows funciona muito bem.” Seus restos online serão transportados em caixas de comida chinesa.

“O que separa o culto do Slashdot é que nós éramos os tipos de pessoas que estavam online antes mesmo da Internet se tornar algo comum”, explica o fundador Rob Malda, mais conhecido entre os fiéis como CmdrTaco. “Então nossos ‘rituais’ envolviam ter a Internet presente em nossas vidas de uma forma que a geração anterior considera estúpida e a mais nova toma como algo certo. Nós viemos da época das BBSs e modems, não do Twitter e DSL. Esses jovens chorões da era de mensagens de texto não sabem como as coisas são fáceis atualmente."

Como se reconhece um membro do Slashdot em público? Não se reconhece, diz Malda, porque eles quase nunca saem de casa.

“Por que iríamos a algum lugar?”, ele questiona. “Nós nos encontramos no Slashdot 24 horas por dia e 7 dias por semana.”

Culto Nº 2: As Sereias de Singularidade
Fundação: anos 1980
Reunião das tribos: A Conferência TED, H+ Summit
Escola teológica: Singularity University (Universidade da Singularidade)
Escritura sagrada: "A Singularidade está próxima"
Principal divindade: Ray Kurzweil
Divindade menor: Ramona, a AI cantante

O objetivo dos membros desse culto não poderia ser mais alto: imortalidade como compreendido em um homem-máquina vivo -- um Homem Transcendente, um Humano+.

Esse conceito, articulado pelo autor Vernor Vinge em 1982 e que foi popularizado pelo inventor e futurista Ray Kurzweil nos livros "Era das Máquinas Espirituais" (de 1998, disponível em português) e "The Singularity Is Near" (de 2005, disponível apenas em inglês) traçou ministrantes na casa dos milhares. De acordo com Kurzweil, a “singularidade” vai ocorrer em 2045, quando a tecnologia tiver avançado a um ponto em que humanos e máquinas pensantes finalmente convergem. (Kurzweil também é famoso por se comunicar por meio de um software chamado Ramona, a hostess falante/cantante do seu site KurzweilAI.net.)

“Eu orgulhosamente admito ser chamado de um “Singularitariano”, diz o escritor e pesquisador Brad Acker, que, apesar disso, não fica exatamente feliz em ser considerado como membro de um culto. “Mas a ideia de comparar o conceito de Singularidade, um horizonte de eventos que nunca aconteceu antes na história da evolução como a conhecemos, com fãs do OS/2 ou do Slashdot é algo despropositado."

Ele tem um ponto. Por exemplo, não há muitos cultos que fundaram sua própria universidade, co-patrocinada pelo Google e pelo Ames Research Center da NASA, onde pessoas importantes do mundo da tecnologia se reúnem para "hackear" o próximo estágio da evolução humana.

Como Acker, os Singularitarianos são, bem, dedicados – e muito sérios sobre Kurzwell e seu trabalho. “Esse é um movimento científico que deve ser integrado por mais indivíduos. Pretendemos guiar de forma segura e benéfica nossa evolução rumo a humanos se fundindo com suas ferramentas em um homem transcendente", escreve Acker (em negrito e letras maiúsculas).

Nenhum culto seria completo sem sua facção rival, mesmo que o número de membros não passe de uma casa decimal. O Dr. Stephen Thaler, que chama a si mesmo de um "porcupine-ularitarian" apenas para provocar o público de Kurzweil, argumenta que a singularidade não está próxima, ela já está aqui – e tem estado desde pelo menos 19 de agosto de 1997. Data em que recebeu uma patente dos Estados Unidos (U.S. Patent) por sua Creativity Machine, uma rede neural "consciente" que tem sido usada para desenvolver tudo, desde escovas de dente até satélites militares dos EUA.

“Ao contrário de Kurzweil, eu não sou otimista”, diz Thaler, que enxerga essa tecnologia inevitavelmente caindo em mãos erradas. "Eu construí a primeira forma de AI (Inteligência Artificial) no mundo, e tudo que vejo como resultado disso é conflito e sofrimento."

Thaler diz que vai revelar os segredos da consciência gerada por máquina na WorldFuture Society Conference em julho deste ano. E então, talvez, ele vá inspirar seus próprios seguidores.

Culto Nº 3: Os Sumo-Sacerdotes da Wikipedia
Fundação: 2001
Reunião das tribos: Wikimania, Wikimeets
Escrituras sagradas: Wikipédia:FAQ (Perguntas mais freqüentes)
Santo padroeiro: Jimmy Wales
Ritual bizarro: Discussões intermináveis nas páginas de discussão da Wikipédia

No quesito intriga mortal e lutas de poder, a Wikipédia faz o Vaticano parecer uma discussão na hora do café. Essa enciclopédia aparentemente informal que qualquer um pode editar é na verdade uma “wikicracia” onde experts auto-consagrados competem por controle.

Apesar de a Wikipédia possuir mais de 12 milhões de usuários registrados, seu núcleo interno consiste em cerca de 1.700 administradores que possuem a habilidade de rejeitar edições, bloquear páginas para edições futuras e julgar que artigos ineiros não são bons o suficiente. Mas o poder real está no equivalente da Wikipédia do Colégio dos Cardeais – entre 200 e 300 super administradores que podem banir os transgressores para o resto da vida e traçar a estratégia e direção do site, informa Sam Vaknin, autor do livro “Malignant Self Love: Narcissism Revisited” e outras obras sobre distúrbios de personalidade.

“Essa não é uma rede informal. Ela é completamente rígida, com uma hierarquia, cargos, descrições de trabalho, deveres, e responsabilidades”, diz. “Em 2003, a Wikipédia tinha adquirido todas as características marcantes de um culto: hierarquia, regras enigmáticas, isolamento paranóico, intolerância do diferente, e uma missão cósmica grandiosa.”

Conseguir entrar no círculo interno não é fácil. Uma pessoa ascende ao grupo sagrado por meio da edição de uma grande quantidade de artigos e da dominação das regras confusas da Wikipédia, diz Vaknin. Por isso não é surpresa que o típico membro do site se pareça com um jovem monge: predominantemente são homens, solteiros, sem filhos, abaixo dos 30 anos, e, de acordo com um estudo de 2009 feito por psicólogos israelenses, incomumente irritáveis e de mente fechada.

Questione os métodos ou a confiabilidade do site, e você muito provavelmente será queimado por um dos fiéis da Wikipédia. Viole seu código e você será punido. Até mesmo Jimmy “Jimbo” Wales, co-fundador do site, abandonou alguns dos seus privilégios administrativos após o que alguns membros da Wikipédia consideraram como uma exclusão superzelosa de supostas imagens pornográficas do site.

De sua parte, Wales afirma que não foi forçado a desistir de nada, e ele discorda de praticamente tudo que Vaknin afirma.

“Eu conheci mais voluntários da Wikipédia do que qualquer um no mundo”, diz. “Existem pessoas gentis e atenciosas que realmente trabalham duro para tentar assegurar que a Wikipédia seja precisa. Nós possuímos uma cultura aberta que é altamente democrática e muito tolerante quanto a críticas e opiniões discordantes.”

Culto Nº 4: O Templo do Drupal
Fundação: 2001
Reunião das tribos: DrupalCon
Principal divindade: Dries Buytaert
Escrituras sagradas:The Drupal Handbooks
Ícone religioso: O Drupal Drop

É a maior conspiração da qual você nunca ouviu falar. A General Motors (GM) e a Proctor & Gamble, a Casa Branca e o World Bank, Cristina Aguilera e Mensa – todos se juntaram ao Templo do Drupal, a plataforma de código-aberto de gerenciamento de conteúdo criada pelo programador belga Dries Buytaert, em 2001.

É estimado que 1% dos sites do mundo usem o Drupal, um número que deve aumentar dramaticamente após a finalização do código do Drupal 7, que é esperada para acontecer até o final do terceiro trimestre.

“O que distinguiu o Drupal e permitiu que sua comunidade aumentasse tanto e em tal velocidade é, em primeiro lugar e mais importante, Dries, o cara que o fundou", explica Matt Tarsi, diretor de projetos da Accession Media, uma agência de Web design e marketing que utiliza o Drupal.

Atualmente, Dries é co-fundador e CTO da Acquia, que oferece seu próprio sabor de Drupal e vende suporte a ela.

“Eu imagino que ele realmente sabia como cultivar a comunidade de desenvolvedores desde o início”, diz Tarsi. “Mesmo agora, que o Drupal recebe uma séria adoção corporativa, a companhia abrindo as portas é a Acquia"

Os fiéis se reúnem duas vezes por ano na DrupalCon e o tempo todo em sites como Drupal.org, onde dão as boas vindas aos novatos e educadamente toleram comparações com outros CMSes de código aberto como Joomla e WordPress, diz Tarsi.

Normalmente é fácil reconhecer “drupalistas” por aí, ele diz. Eles geralmente possuem adesivos e camisetas com o "Drop" Drupal,  uma figura de um Smurf azul com uma cabeça no formato de um bombom da Hershey que se tornou tão icônico quanto o Pinguim do Linux para gerações mais antigas de geeks.

Culto Nº 5: O caminho do Warp (OS/2)
Fundação: 1987
Reunião das tribos: Warpstock
Escritura sagrada: OS/2 Warp Unleashed (1995)
Relíquia sagrada: CD-ROM original do OS/2 Warp (de 1994)
O Anticristo: Steve Ballmer

Eles já foram uma legião. Agora apenas alguns milhares permanecem. E mesmo assim os devotos do OS/2 Warp estão mantendo a chama acesa - unidos por um amor pelos seus recursos, um ódio da Microsoft, e às vezes apenas necessidade.

O consultor de tecnologia Jamie Wells diz que um de seus clientes ainda usa OS/2 para rodar seus sistemas ERP e CRM, só que em vez de PCs, eles rodam isso de maneira virtualizada em Mac Minis.

"Isso lhes dá a aparência de ser um culto, mas eles não enxergam a si mesmos dessa maneira", diz Wells, cuja companhia, a SheerBrilliance Consulting, é especializada em qualquer sistema operacional, desde que não seja da Microsoft. "À medida que a tecnologia tem mudado, integrar esses aplicativos com o mundo lá fora tem ficado mais difícil. Nós tivemos de aprender mais e mais sobre OS/2 para mantê-los funcionando."

O OS/2 já foi declarado morto mais vezes do que conseguimos contar. Mesmo assim, ele vive no eComStation (eCS), um sistema operacional baseado no Warp v4 que foi criado pela Serenity Systems após a IBM abandonar o desenvolvimento do OS/2 no final dos anos 1990. Muitos caixas eletrônicos de bancos (ATM) continuam a rodar OS/2, e o eCS ainda está em desenvolvimento ativo.  Alguns "Warp-heads" com muito tempo livre conseguiram rodar Windows no eCS 2.0.

Mesmo assim, o "Caminho do Warp" ainda é um pequeno grupo que não possui muitos dos ornamentos de um culto, como divindades principais ou rituais bizarros.

"Algumas pessoas dizem que o simples fato de usar o OS/2 já é um ritual bizarro", diz Andy Willis, vice-presidente da Warpstock, que organiza encontros anuais dos fiéis na América do Norte e Europa.

Usar o OS/2 mais de uma década após ter sido abandonado por seus criadores é um pouco parecido com operar dentro de uma cápsula do tempo, diz Neil Waldhauer, secretário da Warpstock.

"A maioria dos usuários do OS/2 e eComStation são individualistas fortes que sabem a tecnologia avançou, e realmente não ligam pra isso", explica Waldhaeur. "O OS/2 faz o suficiente para nós, e o faz de um jeito que amamos."

Culto Nº6: Os feiticeiros do Open Source
Fundação: Anos 1980
Reunião das tribos: SourceForge, Open Source Initiative
Principais divindades: Linus Torvalds, Richard Stallman, Eric S. Raymond
Divindades menores: Muitas para nomear
Escritura sagrada: O livro "A Catedral e o Bazar"
Guia espiritual animal: O Pinguim do Linux

Vasto, abrangente e anárquico, o movimento "open source" (código aberto") é talvez o maior e mais anti-autoritário culto do mundo - e é exatamente assim que eles gostam. Seu objetivo: transformar radicalmente o mundo, uma linha de comando por vez.

"Do ponto de vista geek, o que o código aberto te dá é tecnologia limpa", diz Simon Crosbt, CTO da Datacenter and Cloud Division da Citrix, e fundador da XenSource (agora parte da Citrix). "A noção é de que manda o melhor código dos melhores colaboradores. Tem o apelo inerente de elegância tecnológica, independente de baboseiras do mundo corporativo"

Centenas de milhões de pessoas usam diariamente produtos de código aberto, mas o número de desenvolvedores open source é desconhecido. Talvez seja impossível de medir. Geoff Radcliffe, diretor de desenvolvimento administrativo da Raster Media, estima que 70% dos geeks mais ferrenhos são praticantes do culto "open source".

“Esse é um movimento que não será destruído em breve”, diz Radcliffe. “As oportunidades para uma mente esperta se tornar rica, famosa,  e popular, a partir do desenvolvimento de código aberto tem evoluído muito desde sua introdução e vão apenas aumentar."

Mas também é um movimento cheio de divisões internas, nenhuma delas mais notável do que a separação entre os seguidores de Richard Stallman, que acredita que os softwares devem ser absolutamente livres, e pragmatistas liderados por eruditos como Linus Torvalds, que pensam que a comercialização é perfeitamente aceitável desde que o código seja bom e acessível para todos. Adicione a isso as dezenas de diferentes licenças de código aberto, cada uma com seus próprios patronos, e o movimento se fragmenta ainda mais.

Como você reconhece pessoas que gostam/trabalham com código aberto? Procure pelas pessoas mais nerds na sala – as que estiverem com algoritmos de segurança Perl impressos em suas camisetas ou com adesivos como “Não há lugar como 127.0.0.1” em seus notebooks, explica Crosby.

Ainda assim os nerds vão herdar a Terra, ele diz.

“Não há dúvida de que o desenvolvimento "open source" transformou profundamente o mundo”, afirma Crosby. “Nenhum dos atuais aplicativos da nuvem – Google, eBay, Amazon, Yahoo, SaaS, ou o iPhone – existiria sem código aberto. Ele liberta as pessoas para fazerem coisas incríveis com software. E elas certamente fizeram.”

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