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Cyanogen quer deixar o Android ainda mais aberto

Com milhões em investimento e uma equipe de desenvolvedores experientes, empresa quer tornar o Android mais fácil, adaptável e bonito, e conquistar o grande público.

Florence Ion, TechHive

14/01/2014 às 20h23

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Quando a Cyanogen, desenvolvedora de versões customizadas do Android, anunciou seus planos para se tornar uma empresa, o anúncio foi uma grande notícia para os fãs de seu sistema operacional Open Source, o CyanogenMod. O unido grupo de 10 desenvolvedores que trabalhou arduamente na criação de sua própria versão de um “Android melhor” finalmente teria a chance de cumprir sua promessa em grande escala. 

A princípio a história da Cyanogen parece uma típica fábula do vale do silício: uma pequena equipe de hackers e programadores trabalhando apaixonadamente por dias e noites em sua popular variante do Android, quando de repente alguns gentis investidores aparecem do nada e colocam US$ 7 milhões sobre a mesa.

Mas mesmo com o dinheiro, a Cyanogen tem um longo caminho a percorrer antes que possa ser considerada como uma das grandes plataformas móveis. Por enquanto a empresa está focando seus esforços em pontos chave, como colocar um smartphone com seu software pré-instalado nas mãos dos consumidores, mas espera que seu objetivo de tornar o Android mais adaptável e útil desperte o interesse dos usuários.

Da gratuidade ao investimento

O produto da Cyanogen, o CyanogenMod, é uma ROM customizada ou variante do Android. Em outras palavras, é um sistema operacional construído com base no código Open Source publicado pela Google. Para instalá-lo é necessário primeiro fazer “root” em um smartphone, o que permite o acesso irrestrito ao sistema operacional, para só depois instalar o CyanogenMod, substituindo o sistema que veio com seu aparelho. Desde seu lançamento, o sistema já foi instalado mais de 10 milhões de vezes por entusiastas em todo o mundo.

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O CyanogenMod tem o mesmo visual "limpo" do Android puro

A primeira versão do CyanogenMod foi lançada em 2009, um ano após o lançamento do Android. O sistema interessa não só aos entusiastas que gostam de “fuçar” seus aparelhos, mas a qualquer um que esteja interessado em uma versão do Android diferente do que fabricantes como a Samsung, LG, Sony, Motorola ou mesmo a própria Google oferecem.

Os desenvolvedores anunciaram seus planos para fundar uma empresa no final do ano passado. Inicialmente a idéia era lançar um app na loja Google Play que simplificasse o processo de instalação do CyanogenMod em um smartphone, mas a Google atrapalhou os planos ao remover o app da loja, já que ela “encoraja os usuários a violar a garantia” de seus aparelhos, o que é proibido.

Ainda assim a Cyanogen continuou com a arrecadação de fundos, e no final do ano passado já tinha conseguido US$ 23 milhões, além dos US$ 7 milhões iniciais recebidos da Benchmark Capital e Redpoint Ventures em Setembro. A empresa espera eventualmente superar tanto o Windows Phone quanto o BlackBerry e se posicionar confortavelmente como o terceiro sistema operacional para dispositivos móveis mais usado no mundo. É um objetivo ambicioso para qualquer empresa, mas no estágio atual da guerra entre os sistemas móveis é uma aposta muito alta.

“Somos usuários, construindo coisas para os usuários”

Em nossas conversas por e-mail, o desafio de lutar contra as inúmeras outras variantes do Android e outros sistemas operacionais para dispositivos móveis não parece amendrontar Steve Kondik, fundador da Cyanogen, Inc. Embora o CyanogenMod tenha sido desenvolvido pensando em um grupo de usuários mais avançados, o objetivo final é torná-lo acessível a qualquer um, mesmo pessoas “normais”, explica ele.

“Há dois objetivos aqui”, diz Kondik. “Queremos espalhar a idéia de que é OK mudar o sistema operacional e o software que roda em seu smartphone. Isso deveria ser a norma, não a exceção”.

Ele complementa dizendo que espera que os usuários aprendam que podem confiar novamente em sua tecnologia. “Seguimos a filosofia Open Source e somos usuários construindo coisas para os usuários. É fácil ver o que estamos fazendo. Atualmente ninguém tem nenhuma idéia do que está acontecendo por trás dos panos em seus aparelhos. Ter a capacidade de manter o controle sobre seus dados é algo libertador”.

Kondik também espera reduzir o receio de ter software Open Source em um aparelho. “O CyanogenMod às vezes tem uma reputação ruim quando à estabilidade porque temos versões a cada noite que estão disponíveis a qualquer um, e também há um enorme número de variantes não oficiais que tem zero controle de qualidade”. Kondik frisa que mudanças no processo de desenvolvimento ao longo dos próximos meses irão ajudar a resolver este problema.

“Uma dos motivos pelos quais estamos fazendo isso é porque muitos segmentos da comunidade de smartphones se tornaram nada confiáveis… Estamos tentando corrigir esta situação. Estamos realmente tentando construir algo que é focado no usuário”.

Um smartphone para chamar de seu

Para ter controle tanto sobre o sistema operacional quanto sobre o hardware, a Cyanogen fez uma parceria com a fabricante chinesa de smartphones Oppo Electronics para construir seu primeiro aparelho. A Oppo é uma empresa que apóia intensamente a comunidade de desenvolvedores de ROMs customizadas.

“A Oppo tem sua própria variante do Android, chamada ColorOS, mas eles também gostam da diversidade do que está acontecendo entre os entusiastas”, explica Kondik. A Oppo o contatou logo após a Cyanogen completar a primeira rodada de investimentos. Foi aí que ambos começaram a definir os planos para uma colaboração.

Em vez de lançar uma linha completamente nova de smartphones, a Cyanogen convenceu a Oppo a lançar uma edição especial do Oppo N1 com o CyanogenMod pré-instalado. “Foi uma forma fácil para nós de realmente concentrar o foco no software sem ter de lidar muito com o lado da manufatura de hardware”, disse Kondik. O N1 é vendido por US$ 600 desbloqueado e, como um bônus, os usuários podem alternar livremente entre o CyanogenMod e o ColorOS.

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A edição especial do Oppo N1 com CyanogenMod instalado

Montar todo o conjunto foi um desafio para a equipe do Cyanogen. Anteriormente ela se preocupava apenas em lançar seu software para seus leais seguidores, todos entusiastas. Mas como a Oppo está vendendo os aparelhos, a Cyanogen tinha de garantir que o produto final fosse perfeito.

“Há inúmeros casos extremos com os quais você tem de lidar”, disse Kondik. Os usuários de ROMs customizadas são um pouco mais tolerantes a falhas na busca pelo software mais recente em seus aparelhos, mas quando você está lançando um produto realmente tem de aparar todas as arestas… se certificar de que as coisas não quebrem”.

No geral a equipe foi capaz de concluir o trabalho sem grandes obstáculos. “A Oppo foi sensacional e nos ofereceu código para que pudéssemos implementar nosso software sob uma licença Open Source e permitir que o resto do mundo também possa mexer nele”.

A Cyanogen também está fazendo uma parceria com a OnePlus, uma startup que está comprometida com o desenvolvimento de hardware sob medida para o CyanogenMod. Kondik acredita que este é o começo de um momento perfeito para a empresa. “Há um velho ditado que diz que são necessários 10% do tempo para completar 90% do trabalho”, diz ele. “Estivemos tão focados em progredir que nossos 10% tem sido um grande desafio, mas agora conseguimos e estamos prontos para fazer algo com um apelo para as massas e que seja realmente focado no usuário final”.

O caminho à frente

A Cyanogen sempre foi uma defensora do software aberto, e embora esta filosofia tenha sido bem recebida em um nicho de entusiastas mais ferrenhos, ela não necessariamente se traduz para o consumidor final. Eles já se sentem “traídos” com o fato de que as empresas tem tanto acesso aos seus dados, e a idéia de mais um sistema operacional para dispositivos móveis pode assustá-los.

O Marketing é outro problema: a Oppo é uma fabricante baseada na China, enquanto a OnePlus é uma novata. Para que a Cyanogen realmente ganhe apelo em mercados como os EUA, por exemplo, ela terá de conquistar influência junto às operadoras, ao mesmo tempo em que foca em distribuição e participação em mercados emergentes. Uma parceria com uma grande fabricante de hardware, como a LG ou a Samsung, seria benéfica, mas é improvável que qualquer uma delas dê apoio a esta empreitada.

Durante nossa conversa, Kondik reiterou que o objetivo era “tornar as coisas difíceis fáceis, adaptáveis e bonitas. Nosso objetivo é apelar ao mercado de massa, ao mesmo tempo em que nos mantemos atraentes a geeks como nós mesmos”.

Por enquanto a edição especial do Oppo N1 continua voltada ao mercado chinês, embora a Cyanogen tenha outros projetos em andamento. “Vamos fazer um pequeno esforço de “rebranding” para o mercado de massa porque CyanogenMod não é exatamente um nome fácil”.

Kondik não pode revelar muito do que vem pela frente, mas não economiza no entusiasmo. “Nosso plano é nos manter fiéis às nossas raízes”, adiciona. Temos alguns conceitos muito fortes a longo prazo que iremos revelar em breve.

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