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Depoimento: surdo usa iPhone 4 e conversa pela primeira vez via celular

Raul Sinedino, deficiente auditivo desde o nascimento, utilizou a videochamada e dá seu depoimento sobre a experiência marcante

Raul Sinedino*

21/09/2010 às 15h29

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“Conversar pelo Facetime – uma das novidades do iPhone 4 – pode ser banal para as pessoas acostumadas a falar ao telefone, mas é uma verdadeira revolução na vida dos surdos. Pelo menos, dos oralizados.  A primeira 'ligação' entre dois deles foi de uma emoção especial.

Os dois falam e fazem leitura labial, mas sempre dependeram de alguém para resolver coisas rotineiras que complicam bastante a vida  de quem não tem o recurso quebra galho do telefone. Por exemplo, desbloquear  cartão de crédito. Os atendentes do outro lado exigem falar com o titular. Como resolver? Outra via crucis é cancelar um plano de telefonia. Só o titular pode fazer isso.  Na hora de  solicitar o serviço, a exigência cai, liberam na hora, sem qualquer preocupação se falam com o dono da linha, ou não. Quem ouve também pode telefonar para alguém e contar qualquer bobagem, o que é muito bom. Nós, surdos, nunca pudemos. 
 

Num passe de mágica, a “invenção” de Steve Jobs pode acabar com a dependência e o aprisionamento emocional dos surdos.  Ou quase. O preço do iPhone cobrado aqui no Brasil é muito alto, devido aos impostos. Nos Estados Unidos, a operadora AT&T cobra 199 dólares pelo modelo de 16 GB (com exigência de contrato de fidelidade de dois anos, ou multa de 400). Aqui, a versão pré-paga do equipamento está cotada a 1.799 reais. Outro entrave é o fato de ser necessário rede Wi-Fi  para falar no serviço Facetime. Não funciona em 3G. Além disso, o recurso só funciona se as duas pessoas tiverem aparelhos que utilizem a tecnologia.

Eu intuía a pequena revolução que o iPhone 4 iria me proporcionar. Por isso, nem me importei com o custo de fazer um plano iPhone, no qual está incluído pagar por  400 minutos de conversa que nunca vou ter, R$ 1.149 pelo aparelho e R$ 250 de mensalidade. Não me enganei. Moro em Porto Alegre e, hoje, recebi minha primeira ligação na vida. Era uma amiga surda, residente em São Paulo, querendo compartilhar o seu estado de graça pela compra do aparelho. O marido ouvinte sentia a falta de falar com ela ao telefone, por isso foram os dois resolver o problema, comprando o aparelho.


Confesso que fiquei sem reação durante a minha primeira videoconferência. Não sabia se chorava ou se continuava a conversa. Não sabia nem como reagir, o que fazer ou responder, porque jamais falei desse jeito com ninguém ao telefone. Muita coisa passava minha cabeça – a briga cotidiana, desde criança, por autonomia, principal motivo de estresse entre os surdos.

Pelo menos, dos que falam, fazem leitura labial e estão inseridos na sociedade ouvinte, mas se deparam com muitas barreiras, na maioria das vezes apenas criadas pela falta de bom senso de algumas empresas e órgãos governamentais ou de uma política voltada às necessidades específicas de uma  nova geração de surdos --  oralizados e implantados.

O Steve Jobs deve achar apenas que, mais uma vez, foi responsável por um grande avanço na tecnologia. Talvez jamais saiba da pequena revolução pessoal que  provocou na vida de dois surdos brasileiros no dia 20 de setembro de 2010. Sem qualquer exagero.”


*Engenheiro químico e surdo desde o nascimento

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