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Fábrica de iPad: Abinee questiona investimentos de US$ 12 bi no Brasil

Projeto seria mais útil para o País se fosse na área de componentes, que mais pesa no déficit da balança comercial, segundo a entidade

Edileuza Soares, da Computerword

14/04/2011 às 13h40

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Os investimentos de 12 bilhões de dólares ou 18,9 bilhões de reais em uma fábrica da Foxconn no Brasil para montagem de produtos Apple, como o iPad, anunciados durante a visita da presidente Dilma Rousseff à China, geraram protestos por parte da indústria de eletroeletrônicos.

As preocupações do setor já chegaram até o ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercandante, que promete após a viagem, na segunda-feira, 25/4, uma reunião com o presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), Humberto Barbato, para detalhar o plano dos chineses.

Segundo a (Abinee), os valores são exagerados e desestabilizam o setor, que neste momento precisa mais é de uma indústria de componentes para o equilíbrio da balança comercial de eletrônicos.

“Todo investimento para o Brasil é bem-vindo, mas achamos que os valores anunciados pelos chineses são um exagero. Os volumes estão fora da nossa realidade e vão desorganizar o mercado”, avalia o presidente da Abinee, Humberto Barbato.

Em sua opinião, a promessa da China de injetar tanto dinheiro no mercado brasileiro é uma medida estratégica para evitar possíveis retaliações contra sua política cambial agressiva, que está quebrando o mundo e gerando problemas também no Brasil.

Barbato questiona a ordem de grandezas dos números, que segundo ele, estão muito dimensionados. Na sua avaliação, com 12 bilhões de dólares dariam para construir quatro plantas da Intel no Brasil.

“Estamos precisando é de uma fábrica de componentes e não mais uma indústria de montagem”, protesta o presidente da Abinee. Ele lembra que em 2010 o déficit da balança comercial de eletrônicos chegou a 12 bilhões de dólares, 58% superior ao volume registrado em 2009.

O presidente da Abinee diz que esperava que o ministro do MCT voltasse da China com algum acordo fechado na área de componentes, já que a maior parte das indústrias desse setor está localizada naquele país e leste asiático. “Mercadante saiu do Brasil preocupado com essa área. Agora ficamos receosos e temerosos com os investimentos apresentados pela Foxconn”, comenta o executivo.

Não é de hoje que Barbato alerta para a perda de competitividade da indústria nacional, e acusa o governo de assistir, sem reação, ao processo de desindustrialização do país devido à política cambial. A entidade defende medidas compensatórias, como desoneração da folha de pagamento de empresas exportadoras e a implantação de novas políticas industriais que promovam o chamado adensamento da cadeia do Processo Produtivo Básico (PPB), ou seja, maior produção local, especialmente na área de componentes.

Em 2009, o segmento de componentes apresentou um déficit de mais de 10 bilhões de dólares, com exportações de 2,5 bilhões de dólares e importações de cerca de 13 bilhões. Em 2010, o déficit foi expressivo outra vez.

"Este cenário requer mudanças expressivas na estrutura do segmento de componentes eletrônicos. A implementação de políticas de incentivo teria como meta o ganho de competitividade do produto brasileiro", afirma Barbato.

A balança comercial de eletroeletrônicos entre o Brasil e a China é muito desigual. Em 2010, os chineses importaram 151,6 milhões de dólares em produtos e componentes produzidos no Brasil, enquanto a indústria brasileira importou 12,4 bilhões de dólares dos chineses.

Falta de mão de obra

A quantidade de pessoas exigida pela Foxconn para montagem local dos displays de celulares e iPads da Apple também foi questionada pelo presidente da Abinee.

“Como pode uma única fábrica gerar 100 mil empregos se todo o setor de eletroeletrônico emprega no País 175 mil profissionais?”, pergunta Barbato. Ele também quer saber onde a Foxconn vai achar 20 mil engenheiros no Brasil.

O presidente da Abinee observa que, com o aquecimento da economia, o Brasil está sofrendo com a falta de mão de obra qualificada. “Vamos importar engenheiros da China?”, pergunta Barbato.

O executivo espera que Mercadante volte da China com explicações sobre os novos investimentos anunciados naquele país durante a visita da Dilma. “Queremos que o ministro detalhe esse projeto e o seu real objetivo porque estamos preocupados com a ordem dos investimentos anunciados”, diz Barbato.

Ele teme que por traz dos volumes apresentados tenha uma estratégia da China para aumentar a competição com indústria local, jogando os preços para baixo. “É impossível concorrer com os chineses. Eles mantêm a moeda deles desvalorizadas e por isso o produto deles é mais barato. A China também não tem encargos sociais pesados, o que fica difícil para a indústria brasileira exportar e concorrer com eles”, diz o presidente da Abinee.

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