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Greenpeace mapeia o caminho do lixo eletrônico para África e Ásia

Líder para lixo eletrônico do Greenpeace, Zeina Al Hajj detalha o descarte internacional e dá dicas para compras mais verdes.

Guilherme Felitti, do IDG Now!

04/06/2009 às 20h09

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Já se perguntou para onde um monitor com defeito, o celular ultrapassado ou aquele videogame trocado por um mais moderno vão parar assim que a evolução tecnológica lhe convence que um produto novo é necessário?

O IDG Now! conversou com a líder internacional da campanha de eletrônicos tóxicos do Greenpeace, Zeina Al Hajj, sobre o intrincado caminho que o lixo eletrônico faz dos países desenvolvidos - Estados Unidos, principalmente - para os subdesenvolvidos, como China, Índia e nações na África.

A falta de estratégias centralizadas de reciclagem resulta em contêineres enviados ilegalmente, que carregam monitores, placas-mãe e outros gadgets para serem desmontados e queimados sem qualquer proteção por habitantes dos países pobres.

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A complexa estrutura de descarte internacional, classificada como “máfia” por Zeina, justifica ainda mais um cuidado maior por parte de fabricantes para a retirada completa de compostos perigosos para o ambiente como chumbo, cádmio, mercúrio, polivinis (PVC) e retardantes de chama bromado (BFR), com características cancerígenas, do processo de fabricação.

Para pressionar o setor, o Greenpeace criou um ranking das empresas mais verdes que, em sua 11ª edição, destaca tanto a liderança da finlandesa Nokia como a melhora da Apple, usada como parâmetro pelo grupo para que fabricantes de computadores como HP e Dell, por exemplo, cumpram prazos assumidos para eliminar compostos tóxicos de seus equipamentos.

Enquanto notebooks, celulares, videogames e monitores tiverem produtos químicos tóxicos, Zeina alerta, não são apenas os menos favorecidos que correm riscos: medições do Greenpeace detectaram altos níveis de substâncias perigosas para os consumidores em casa, vindos principalmente de equipamentos eletrônicos.

Nessa entrevista, Zeina ainda enaltece a recuperação da Apple, detalha estratégias usadas para disfarçar o descarte de lixo eletrônico e prega que governos devem se responsabilizar também pela reciclagem.

O Greenpeace já fez 11 versões do ranking classificando as empresas com as melhores políticas ambientais. Nesse tempo, quais companhias evoluíram mais e quais não fizeram nada?
A que não apresentou qualquer tipo de evolução é fácil [de responder]: Nintendo. Não é que eles não liguem [para o Greenpeace], mas é a mentalidade japonesa que torna muito difícil entender as mudanças propostas e assumidas por outras empresas.

Se você olhar para os produtos da Nintendo, como o console Wii, eles não são piores que outros disponíveis no mercado, como os da Sony ou da Microsoft. Ao contrário: em eficiência energética, o Wii é muito melhor que ambos. Na composição química, todos têm o mesmo nível tóxico nos produtos.

O problema da Nintendo está em não possuir uma política ambiental conhecida, eles simplesmente não a tornam pública, não compartilham. Há apenas uma página no relatório financeiro anual que diz que a Nintendo apóia e promove a reciclagem em seus escritórios. O que é feito com um console de Wii que não se quer mais? A Nintendo não responde corretamente.

Por outro lado, todas as outras 17 empresas (o ranking contempla 18 companhias de tecnologia) vêm mostrando melhorias graduais em todas as suas políticas ambientais. A Nokia se destaca como a empresa que sempre se saiu melhor, exceto por duas edições do ranking.

Em uma vez, a Nokia empatou com outras e, em certa ocasião, aplicamos uma penalidade por funcionários da empresa na Argentina e na Rússia não terem ideia das políticas assumidas globalmente pela empresa para reciclagem de telefones celulares.

Vimos também uma mudança gigantesca da Apple, algo que foi impressionante para nós. A HP e a Dell já avançaram e retrocederam algumas vezes, algo nada respeitável para companhias dessa escala, o que representa falta de consistência nas políticas e justificou uma recente penalidade que demos às duas.

O quão importante foi a pressão do Greenpeace para fazer a Apple mudar suas políticas?
Bom, a Apple não se movimentava (no aspecto ambiental) até começarmos a campanha (Green My Apple). A primeira reação da Apple foi dizer que tinha uma política ambiental fantástica, que era “superverde”. O Greenpeace, então, analisava publicamente a política e concluía, provando tecnicamente, que a Apple ainda usava PVC ou BFR em aparelhos como MacBooks e iPhones.

O que moveu a Apple, porém, foi o fato de o Greenpeace se focar nos consumidores da marca. Quando a empresa e Steve Jobs viram que até mesmo fãs da marca questionavam porque a Apple não liderava o ranking de política ambiental como é líder em design, eles concluíram que poderiam descartar os componentes químicos [prejudiciais à saúde] e mudaram suas políticas.

A carta aberta de Jobs era uma resposta ao Greenpeace, certo?
Sim. Ele não falava nominalmente o nome do Greenpeace, mas citava “algum grupo ambiental”. Todos sabiam que éramos nós.

A Nokia é o líder histórico do ranking do Greenpeace, ainda que a empresa recicle apenas 5% de todos seus telefones celulares pelo planeta. Não é uma taxa muito baixa ainda?
A reciclagem não precisa, necessariamente, ser feita pela companhia que produziu o equipamento que está sendo descartado - isso pode ser tão complexo como a cadeia global de venda do mesmo equipamento.

Queremos assegurar que a companhia tenha responsabilidade financeira por sua participação de mercado. Se a Nokia tem 30% do mercado globalmente, deve se responsabilizar em contribuir financeiramente para reciclar 30% do lixo eletrônico global.

Um exemplo: na Europa, você tem um ótimo sistema de reciclagem já montado pelos governos. Por isso, criar uma nova camada em que cada companhia de eletrônicos precise ter seu próprio sistema de reciclagem é algo trabalhoso.

Em vez de criar um sistema paralelo físico para a indústria de tecnologia, a Nokia e outras empresas do setor devem contribuir financeiramente para que os descartes sejam manejados corretamente por esse sistema central.

É por isso que, em determinados casos, a estimativa de reciclagem da Nokia parece baixa. Eles mesmos não estão recolhendo os descartes, mas sim investindo nos sistemas centrais de reciclagem dos governos,  no lugar dos impostos do cidadão financiá-los.

Já que você citou um sistema central de reciclagem montado pela administração federal, qual a responsabilidade dos governos nessa questão do lixo eletrônico?
A responsabilidade governamental depende do esquema disponível para reciclagem de lixo eletrônico. Se não houver um modelo qualquer de reciclagem, deve haver um sistema que conecte o governo e empresas da indústria tecnológica para o descarte correto do lixo.

Para países em desenvolvimento deveria haver responsabilidade dupla [iniciativas privada e pública]. Mas a obrigação financeira não deveria ser nem do governo nem dos cidadãos, mas do fabricante.

É necessária legislação. Acreditamos que os governos deveriam criar leis que executassem o conceito de responsabilidade do fabricante, assim como se responsabilizar pelo sistema central.

A União Europeia, por exemplo, tem um órgão, chamado WEEE (Waste Electrical and Electronic Equipment), responsável por regras já aplicadas em muitos dos países membros do bloco.  Atualmente, os dois únicos países em desenvolvimento que vêm discutindo leis sobre lixo eletrônico são a Argentina (atualmente no Senado) e a Índia.

Existe uma legislação que foi aprovada na China que não evoca os elementos da responsabilidade dos fabricantes, se focando principalmente na quantidade e na definição do que a indústria pode produzir.

O Greenpeace rastreou recentemente a maneira como lixo eletrônico do Reino Unido era mandado ilegalmente para a Nigéria. Como funcionava o esquema?
Foram três anos de pesquisa. A razão pela qual os envios de lixo eletrônico da Europa para países ao sul são proibidos se chama Convenção de Basel.

Nota da redação: A convenção de Basel é um acordo assinado por 51 nações que bane a exportação de equipamentos tóxicos de países ricos para pobres.

Trabalhamos muito baseados nessa convenção já que muitos países ricos enviavam contêineres de lixo para nações pobres. Minha primeira campanha com o Greenpeace no Líbano foi enviar de volta descartes italianos e alemães.

E você devolveram?
Sim. Nós recebemos os três contêineres alemães e eles tiveram que voltar para a Alemanha. Com o lixo eletrônico, porém, muitos países começaram a driblar a Convenção de Basel alegando que enviavam aparelhos para “reuso” ou para “diminuir a exclusão digital”, principalmente na África.

“Os africanos precisam de celulares, laptops e televisões, por isso mandamos para eles”, argumentam as empresas. Mas, quando chega aos países, metade do equipamento não funciona e a outra já está pronta para ser desmontada.

Descobrimos na nossa pesquisa que eles mandam um contêiner por vez, para despistar, classificados sempre como “eletrônicos para reuso” ou “eletrônicos para doação”.

É muito difícil impedir, mesmo por parte da alfândega. Imagine um porto como o de Roterdã (Holanda), onde, a cada dia, milhões de novos contêineres chegam e saem. É impossível abrir e fechar todos eles. Existe uma máfia que opera por trás desses esquemas.

Os Estados Unidos, que não são signatários da Convenção de Basel, assim como não são da de Kyoto, enviam produtos diretamente para a China, com permissão do governo chinês, que quer derreter alguns componentes para revenda.

Tentamos rastrear essa movimentação e já conseguimos expor o esquema na Índia, na Tailândia, na China, no Vietnã. Na Nigéria (África) encontramos campos nos quais doações chegavam apenas para que habitantes retirassem e derretessem componentes.

E o que era feito com o resto?
Nesse exemplo na Nigéria, eles empilham e queimam. O plástico derrete com o calor e retiram o cobre das cinzas. Notebooks, por exemplo, são queimados com o case de plástico depois que alguns componentes são retirados.

É por isso, também, que lutamos para que os compostos tóxicos sejam eliminados da produção já que, vamos admitir, é impossível rastrear e bloquear todos os contêineres do mundo. Se pudermos controlar o que é posto no mercado para que não haja mais chumbo, cádmio, mercúrio, PVC e BFR, ótimo. Mas isso é algo que só a próxima geração verá.

Quem mais envia lixo eletrônico para o exterior?
Os Estados Unidos, por ser o país que mais fabrica equipamentos do tipo. A Europa é mais avançada por ter uma estrutura de reciclagem própria - a Europa manda [o lixo eletrônico] para fora quando não tem capacidade suficiente de reciclagem, enviando os mais tóxicos.

É fácil, por exemplo, reciclar cases e teclados. Os monitores, principalmente os de tubo (CRT), porém, vão para fora, já que 20% de seu peso é chumbo. Eles não querem tocar nisto. Simplesmente enviam, assim como os cabos plásticos.

Quem são os países que mais recebem?
A China, principalmente. Lá há um vilarejo chamado Guiyu com montanhas feitas de lixo eletrônico [retratada em um ensaio fotográfico da revista Time]. A geração interna da China também está crescendo, o que é preocupante. A Índia também, principalmente pelo aumento do consumo interno.

Vemos também muitos carregamentos chegando a Bangladesh, Vietnã e África, onde chegam supostamente para diminuírem a exclusão digital. A partir da Europa, já vimos contêineres de carros usados que chegam à África cheios de lixo eletrônico.

Que tipo de informação um consumidor preocupado com a questão do lixo eletrônico deve considerar antes de comprar um celular, um laptop ou videogame?
Um dos nossos conselhos é atentar para especificações ambientais que acompanham o produto, para que os consumidores saibam exatamente os componentes químicos presentes no aparelho.

Todos os produtos da Apple têm, por exemplo, essas instruções, assim como os celulares da Nokia. Antes de comprar, faça uma pequena pesquisa e prefira produtos aprovados por órgãos de proteção do ambiente ou de consumo energético responsável.

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