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Internet sem barreiras

Como no mundo real, os deficientes enfrentam inúmeras dificuldades para navegar na web

Fernanda K. Ângelo

12/07/2005 às 17h16

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Assim como acontece no mundo real, as páginas da internet estão repletas de obstáculos que dificultam o acesso de deficientes. A infinidade de sites visualmente poluídos, que abrem vários pop-ups e dificultam a navegação até mesmo para o usuário comum, atrapalha ainda mais os internautas com problemas visuais. Esses usuários navegam com a ajuda de softwares especiais de leitura de tela que interpretam e lêem cada código por trás da página. Por isso, é importante que os desenvolvedores tomem alguns cuidados na hora de criar websites, evitando o uso de códigos desnecessários. 

“As normas tradicionais de programação ensinadas em livros técnicos ou que os programadores aprendem no dia-a-dia geram sujeiras no código. E esses ruídos são interpretados pelo software de leitura de tela”, explica Marcelo Bergasse, diretor de criação da Eyedea, empresa especializada na criação de sites acessíveis a portadores de deficiência visual. Segundo o profissional, o número desses internautas no Brasil gira em torno de 10 mil. Bergasse explica que os programas utilizados por esses usuários especiais lêem, por exemplo, tags de tabelas, e dá a primeira – e mais importante –dica: “As páginas que estão em construção devem ser testadas constantemente, à medida que cada novo código é inserido”. 
Para fazer os testes, o ideal é que o programador tenha algum software leitor de telas. No Brasil, um dos programas da categoria mais utilizados é o nacional Virtual Vision, da empresa MicroPower. O software custa aproximadamente 1.500 reais. Outras opções são o Jaws for Windows, da Freedom Scientific, e o DOS Vox, desenvolvido pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). O Jaws for Windows é vendido por aproximadamente 4.000 reais, enquanto o DOS Vox pode ser baixado gratuitamente do site da UFRJ. O Serpro desenvolve uma versão do DOS Vox para usuários do sistema operacional Linux, com lançamento programado para março. 

O especialista da Eyedea afirma que uma boa saída é usar programação baseada em CSSs (Cascade Style Sheets). Os CSSs são arquivos nos quais o programador define padrões para o site. Por exemplo, a cor das fontes ou o tamanho de uma tabela. A página HTML busca essas propriedades nesse arquivo e as reproduz no browser, dispensando o emprego de códigos excessivos. Além disso, evita alterações desnecessárias nas páginas de um site. “Caso você queira mudar a cor da fonte utilizada, basta alterar esse arquivo em vez de mexer em todas as páginas”, explica Bergasse. Segundo ele, os sites adaptados para deficientes visuais ficam idênticos aos dedicados aos internautas em geral. A diferença está apenas nos códigos.

As páginas podem até conter conteúdo em Flash, desde que as montagens sejam específicas.  O Flash conta com recursos nativos de acessibilidade. Quando o programador constrói a cena, pode determinar o nível de acesso de cada objeto em Propriedades. Outro recurso bastante simples, e que funciona muito bem em HTML, é o chamado “Out”. O internauta que enxerga vê, por exemplo, a foto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva hasteando a bandeira do Brasil. Já o deficiente visual ouve a descrição da foto. Essa legenda é o Out, já que está traduzida em código de programação e, portanto, fica invisível para o usuário comum. 
“Qualquer imagem precisa ter uma descrição, seja ela uma foto ou um botão de download”, afirma o deficiente visual Laercio Sant’Anna, analista de sistemas há 17 anos e webmaster do site sobre acessibilidade da Prodam (www.prodam.sp.gov.  br/acessibilidade). Para ele, o grande problema dos sites não está na falta de testes, e sim no escasso conhecimento de quem os desenvolve. “Não é preciso programas especiais, mas um bom desenvolvedor que conheça as dificuldades dos deficientes visuais”, diz.

Sant’Anna alerta programadores para detalhes que facilitam a navegação não apenas daqueles que não têm nenhuma visão, mas também dos que enxergam pouco ou apresentam outras dificuldades, como a incapacidade de diferenciar algumas cores. “Os sites precisam usar fontes de tamanho grande e deve ser levado em conta o contraste entre o fundo da página e a cor do texto. As cores selecionadas também podem ser um problema para daltônicos”, explica Sant’Anna.

Os deficientes físicos ou auditivos também demandam atenção dos desenvolvedores de sites. Sant’Anna acredita que os itens sonoros não podem ser a única fonte de transmissão de informações. Caso contrário, essa informação poderá passar despercebida a um deficiente auditivo.  E há a necessidade da redundância de acesso.  Não se pode chegar a um dado apenas com o uso do mouse, por exemplo, sob o risco de restringir o acesso de pessoas com dificuldades motoras ou desprovidas de mãos.

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