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“O Linux não é coisa do PT”

Em entrevista exclusiva a PC WORLD, Jon “Maddog” Hall aponta vantagens econômicas e tecnológicas do software livre e vê usuários cansados do ambiente Windows

Luís Fernando Tinoco

04/10/2005 às 10h04

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Jon Maddog HallO presidente da Linux International, Jon “Maddog” Hall, passa 70% de seu tempo viajando pelo mundo para debater a adoção de software de código aberto. Em uma dessas peregrinações, no início de setembro, passou por São Paulo, participou de conferências e contou suas histórias a jovens de uma comunidade carente na zona sul da cidade. Disse ter aprendido a conter a alma revoltada que lhe rendeu o apelido de cachorro louco e, com voz mansa, deu suas razões para a defesa do software livre. A seguir, a íntegra da entrevista.

O uso do Linux em servidores cresce rapidamente. Qual a expectativa para o mercado de desktops?

Eu não antecipo alguma mudança enorme para os próximos cinco anos, como se o Linux fosse chutar a Microsoft para fora do mercado. Mas há boa esperança de que, em alguns anos, o Linux ocupe 30%, 40% ou 50% do mercado de desktops. Não posso prever quando, mas poderia acontecer em uma noite. Imagine se cada consumidor dissesse: quero ver o código, quero poder mudá-lo, não quero uma licença de uso, quero ser o dono do software.

O Windows tem 95% do mercado de desktops. Que razões o levam a acreditar em mudança?

As pessoas estão cansadas de ter de lidar com licenças de uso de software e dos ataques de vírus. Estão cansadas de ter de fazer upgrade de hardware toda vez que a Microsoft lança uma nova versão de software. Em países em desenvolvimento, as pessoas não podem comprar software e têm medo que a repressão à pirataria aumente. China, Tailândia e Malásia buscam software livre não só porque o custo das licenças destruiria suas economias, mas porque podem alimentar uma indústria própria.

O governo brasileiro vem adotando o Linux e isso gerou um debate no País. Qual a contribuição do senhor a essa discussão?

Vejo um crescimento mundial do uso governamental do Linux. Gostaria que todos pudessem separar em suas mentes a questão ideológica e percebessem que o software livre não está, de forma alguma, relacionado ao Partido dos Trabalhadores do (presidente) Lula. Não é uma questão política. Está ligado à economia e à criação de empregos. Quer dizer reduzir a quantidade de remessas de dinheiro para fora do país e negócios capazes de oferecer soluções melhores, por um custo mais baixo.

Não é uma questão ideológica.

Não. Não tem nada de comunismo. Quando faço palestras sobre software livre, lembro que, nos anos iniciais do software, todo software era entregue na forma de código aberto. As pessoas tinham softwares escritos para elas, pagavam por eles e eles pertenciam a elas. Elas não compravam o direito de usar um software que pertence a outros. Essa forma só começou entre 1977 e 80 e vem até hoje. Começou no mesmo período em que surgiram as lojas de computadores. Foi aí que as empresas começaram a empacotar software e colocá-los na prateleiras. Antes disso, se você queria um software, você achava alguém para criá-lo para você, assinava um contrato, pagava essa pessoa para escrevê-lo e, no fim, o software pertencia a você. No máximo, para ficar um pouco menos caro, você permitia que a pessoa também o vendesse a mais alguém. Mas o conceito de que a empresa que criou o software detém os direitos sobre ele e apenas permite que os clientes o utilizem não aconteceu antes deste período, de 1977 a 80.

A Microsoft ostenta estudos de custo total de propriedade, afirmando que o Linux, contados os gastos com consultoria, sai mais caro que o Windows.

O custo é importante. Se não pode pagar por uma solução, nunca poderá possuí-la. Mas deveriam se concentrar no valor do software, no que ele faz por você depois que o instalou. O código aberto permite que você modifique o programa para adequá-lo exatamente às suas necessidades. Tenho de acreditar que isso é mais valioso do que um software que você não possa modificar.

Leia a íntegra da entrevista:

Parte 2: 10 anos de Linux International e a criação do LMI

Parte 3: segurança no desktop e supercomputadores para leigos

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