Home > Notícias

Terceira parte: segurança no desktop e supercomputadores para leigos

Na terceira e última parte de sua entrevista a PC WORLD, Jon Maddog Hall fala sobre diferenças essenciais entre o Linux e o Windows e revela seu próximo projeto: escrever um livro sobre supercomputadores para iniciantes.

Luís Fernando Tinoco

04/10/2005 às 12h06

Foto:

Na terceira e última parte de sua entrevista a PC WORLD, Jon Maddog Hall fala sobre diferenças essenciais entre o Linux e o Windows e revela seu próximo projeto: escrever um livro sobre supercomputadores para iniciantes.

O especialista em segurança digital e CEO da Barracuda Networks, Dean Drako, afirmou recentemente que o Windows se tornou tão complicado que nem a Microsoft o entende. O senhor concorda?

Francamente, isso acontece muito com vários sistemas operacionais. Quando eu trabalhava na Digital Equipment, havia pessoas trabalhando no núcleo do Unix da empresa que não entediam completamente outras partes do sistema, eram especialistas na parte deles. Um sistema operacional é algo bastante complexo. Quando você leva em conta o núcleo, as bibliotecas, a interface gráfica, os dispositivos de rede e tudo o mais, poucas pessoas entendem o todo. O sistema da Microsoft passou por muitas mudanças diferentes e as tentativas de manter compatibilidade nem sempre foram bem sucedidas. Ele é bastante complexo e acho que é uma das razões pelas quais eles têm tantos problemas com vírus e coisas assim. Acho também que eles tentam ser muitos amigáveis para o usuário permitindo que mais coisas aconteçam mais ou menos automaticamente. O problema com isso é que haverá pessoas que tomarão vantagem disso para introduzir vírus. Não é sempre a melhor coisa do mundo tornar um sistema operacional muito amigável.

Esta questão influencia muito no desenvolvimento do Linux?

O pessoal do Unix e do Linux sempre foi um pouco paranóico. Sempre nos perguntamos como tal mudança afeta a segurança. E continuamos pensando assim. Queremos que o sistema seja fácil de usar, mas sentimos que a segurança é parte dessa facilidade de uso. Não queremos abrir mão de segurança e estabilidade para tornar o sistema fácil de usar. Tendemos a ser um pouco mais preocupados. Por exemplo, quando estou lendo meus e-mails e um deles tem um arquivo anexo, o sistema não vai abrir o anexo enquanto eu não der uma ordem para isso. Ele não abre um popup pedindo para iniciar a execução do arquivo. Não. Eu olho, tomo uma decisão e abro o arquivo.

O senhor escreveu a primeira edição do livro Linux para leigos há quase dez anos. Pretende continuar escrevendo?

Estou pensando em escrever outros livros. A razão pela qual escrevi o primeiro livro é que queria provar que até um leigo pode usar Linux. Tendo feito isso, não preciso escrever mais. Quero escrever Supercomputadores para leigos. Tento encontrar o tempo para isso. É um pouco mais difícil porque, no caso do Linux, podia escrever apenas utilizando o Linux instalado no meu notebook, mas no caso dos supercomputadores eu precisaria ter dois, três ou até quatro supercomputadores disponíveis para testes. E isso é difícil fazer porque não tenho conseguido ficar em casa ultimamente.

Por que Supercomputadores para leigos?

Porque há diversos problemas que exigem imensas quantidades de poder de processamento e para realmente resolvê-los não é só questão de encontrar a solução, mas de quão rápido se pode encontrá-la. A velocidade tem uma influência em quanto custa resolver o problema e também na qualidade da solução. Um exemplo: sabemos há algum tempo como tirar uma foto de satélite de um território, analisá-la e dizer onde é mais provável haver uma fonte de petróleo ou gás natural. Então começamos a cavar poços para encontrá-la. Então abrimos vários buracos e não encontramos nada ou cavamos muitos e muitos e finalmente achamos petróleo. Se você aumenta o poder de computação da análise, talvez reduza o espaço onde os buracos devem ser cavados, aumentando a probabilidade de encontrar poços. Você faz menos perfurações, reduz o prejuízo ao meio ambiente e economiza dinheiro. Isso é apenas um exemplo.

Testes de destruição para acidentes de carro é outro. Torna-se caro fazer vários veículos colidirem contra um muro para analisar o que acontece, mas com um supercomputador é possível fazer essa análise virtualmente e economizar muito tempo e dinheiro. Se leva três meses para que os testes apontem a solução de um problema, o engenheiro está lá sentado três meses esperando para saber o que vai acontecer. Se você reduz isso para uma semana, ele tem muito mais recursos para resolver o problema. Se você reduz para um dia, para uma hora, ainda mais.
 
A idéia então é tornar acessíveis estas possibilidades envolvidas na supercomputação?

Isso. As pessoas comuns pensam que vai ser muito caro ou muito complicado. A questão da supercomputação envolve também a forma de trabalho de um supercomputador. Ele pega um problema e o divide em múltiplos ramos. Há pouquíssimas pessoas que sabem como fazer esse tipo de programação e muitas delas fazem apenas a quebra em poucos ramos. Ensinar as pessoas a como fazer isso permitirá que mais aplicativos sejam criados e mais pessoas possam usar supercomputadores.

É importante dizer que usar supercomputação não necessariamente requer um supercomputador. Se você pegar uma sala de aula com cinco computadores ligados em rede e colocar o software certo nessa rede, ela se torna um supercomputador de cinco nós. Se você tem uma sala com vinte computadores, ela se torna um supercomputador de vinte nós. Não é necessário sair e investir milhões na compra de um supercomputador. Ao ir para casa à noite, com vários computadores parados na sua empresa, você pode colocar todas essas máquinas para resolver em um dia um problema que levaria três semanas para ser resolvido por um único computador.

Em hospitais, é freqüente haver muitos computadores inativos. O médico está ao telefone, a enfermeira tirando a temperatura de um paciente e os computadores lá parados. Que tal pegar um mamograma, inseri-lo na rede e fazer todos esses computadores trabalharem ao mesmo tempo nele. O que levaria 20 horas de processamento cai para 10 minutos. As pessoas precisam entender o conceito para depois criar aplicativos certos para isso.

Junte-se a nós e receba nossas melhores histórias de tecnologia. Newsletter por e-mail Newsletter por e-mail