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RFID? Sim, mas quando?

Como as pequenas e médias empresas devem encarar a tecnologia das etiquetas inteligentes

Andreza Emília

15/12/2005 às 11h55

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RFIPImagine o dia em que você irá ao supermercado, encherá o carrinho e sairá tranqüilamente do estabelecimento. Caixa? Para quê? Assim que você transpuser uma determinada barreira, sua compra será totalizada e o valor, debitado automaticamente da sua conta. Se, para você, essa cena mais parece parte do roteiro de um filme futurista, espere até conhecer o Código Eletrônico de Produto (Electronic Product Code ou EPC, em inglês) ou, simplesmente, etiqueta inteligente.

A tecnologia, na realidade, não é tão nova assim. Ela surgiu na década de 90 e usa radiofreqüência, um sistema de transmissão de dados explorado desde a década de 30. Daí também o outro nome pela qual a tecnologia é conhecida – RFID, na sigla em inglês para identificação por radiofreqüência.

Prós e contras

Conheça as vantagens e as desvantagens
das etiquetas inteligentes
PONTOS POSITIVOS:
• Maior detalhamento do produto
• Possibilidade de reutilização
• Alta durabilidade
• Itens podem ser rastreados individualmente
na cadeia de suprimentos
• Possibilidade de criptografar dados
contidos no microchip

PONTOS NEGATIVOS:
• Custo muito elevado em relação ao
código de barras
• Regulamentações ainda são incompatíveis
• Leitura dificultada em ambientes com
obstáculos
• Necessidade de um banco de dados
muito grande

O desafio atualmente é aplicar as etiquetas inteligentes, em grande escala, às cadeias de varejo. Mas como a tecnologia trabalha? Quais são seus benefícios? O funcionamento é relativamente simples. Um microchip capaz de armazenar dados e de se comunicar com um aparelho de leitura por ondas de rádio é implantado em um adesivo. Com essa etiqueta, cada item ganha um DNA. É como se deixasse de ser um produto a mais para ser único. Isso permite às empresas não apenas rastrear cada produto como também controlar melhor seus estoques e alinhar o reabastecimento com informações em tempo real.

De forma simplificada, as etiquetas inteligentes são a evolução do código de barras. Enquanto este identifica o produto de forma genérica, exige razoável envolvimento de mão-de-obra e implica a perda de tempo na verificação das informações, a etiqueta inteligente inclui várias informações sobre os itens, elimina a necessidade de manipulação de mercadorias e agiliza o processo com a eliminação das conferências dos códigos.

Diante de tantas vantagens, você deve estar perguntando se sua empresa deve aderir à nova onda, certo? A resposta não é sim nem não. As pequenas empresas devem ficar atentas à movimentação para saber exatamente como as etiquetas inteligentes funcionam e quando deverão apostar nelas.

Segundo o superintendente da Associação ECR Brasil, Cláudio Czapski, apesar dos benefícios, existem muitos entraves à implantação da tecnologia, que devem retardar a disponibilidade para os pequenos negócios em até dez anos. “Como está concebida hoje, a tecnologia é inviável”, explica. A principal dificuldade para a disseminação das etiquetas inteligentes é a deficiência de comunicação entre os componentes desenvolvidos pelas várias empresas envolvidas no processo. “Estamos falando de uma tecnologia em mutação. Quem quiser usar agora terá de adotar uma solução proprietária, mas seu parceiro pode ter implantado outra solução e, nesse caso, não haverá compatibilidade entre elas”, detalha Czapski.

Os obstáculos tecnológicos não param na questão da padronização. Segundo o superintendente da ECR Brasil, como cada item etiquetado trará uma série de informações, será necessário um banco de dados muito grande para dar conta desse volume.

Para Cláudio Czapski, o preço é outro vilão. “Atualmente, cada chip e sua antena saem por 1 real, sem falar em software e equipamento para leitura. Esse custo torna as etiquetas viáveis apenas para embalagens logísticas, que entram pela porta de trás do supermercado, ou para itens de alto valor agregado”, explica. Ou seja, em um caixa de fósforos, o investimento não compensa.

dicas
 O que fazer e o que levar em conta
na hora de avaliar a nova tecnologia

• Entender a tecnologia, suas vantagens e
limitações (as etiquetas terão uma boa
aplicação no seu negócio?)
• Medir custos e benefícios e analisar a
viabilidade econômica
• Agir com enorme prudência e cuidado
antes de apostar na tecnologia
• Pensar a longo prazo (não usar pode,
eventualmente, tirá-lo da competição
do mercado?)
• Ponderar a aceitação dos clientes
(adianta implantar se eles vão
continuar com códigos de barras?)
• Verificar se todas as possibilidades
de aplicação do código de barras
já foram esgotadas (o código de
barras não supre mais suas
necessidades?)

Mas a opinião do superintendente da ECR quanto ao custo não é unânime. Para Adriano Bronzatto, assessor de soluções de negócios da GS1, entidade responsável pela padronização e implantação das etiquetas no País, o preço já não assusta mais. “É possível comprar etiquetas por 13 centavos de dólar, nos Estados Unidos, e trazê-las.” Segundo Bronzatto, a mudança como um todo é o complicador. “Toda tecnologia demora para ganhar escala”, analisa. Paulo Riskalla, executivo de vendas de software OEM da Sun Microsystems no Brasil, por sua vez, reitera a necessidade da renegociação entre fornecedores para que a implantação tenha êxito. “Do ponto de vista tecnológico, é perfeitamente viável e muito interessante por questões de segurança e diminuição de custos, como aconteceu no aeroporto de Narita, no Japão” (veja quadro “De mãos livres no aeroporto”).

Em outras aplicações, no entanto, a implantação é mais delicada e precisa ser feita em etapas.
A rede de supermercados Wal-Mart, por exemplo, estabeleceu que alguns fornecedores do Texas deverão dispor da tecnologia de radiofreqüência para fins de identificação até o fim deste ano. O poder de persuasão da gigante do varejo é enorme, mas como exigir que os fornecedores adotem as etiquetas sem aumentar os preços? Segundo Riskalla, essa pergunta não tem resposta. “Se o fornecedor não adota, está fora. Se aplica, terá de diminuir a margem de lucro ou repassar os custos para o preço final do produto”, pondera.

O Brasil está de olho na identificação por radiofreqüência, mas ainda não deu nenhum passo decisivo em sua direção. “Existe muito interesse da indústria automobilística, mas ninguém quer ser o pioneiro”, conta Riskalla, da Sun. Bronzatto, da GS1, confirma. “Alguns anos atrás, houve um grande interesse porque as empresas começaram a ouvir falar da tecnologia e de suas aplicações. Agora, todo mundo observa e analisa”, avalia.
Em princípio, as etiquetas identificarão paletes, aquelas plataformas de madeira sobre as quais se empilham produtos para transporte de grandes volumes.

Ao desembarcar nos centros de distribuição, os dados serão lidos por radiofreqüência. Em médio prazo, as caixas serão etiquetadas e, num futuro um pouco mais distante, cada produto ganhará sua identificação. Somente então poderemos transformar em realidade a cena do supermercado sem caixa.
2005

De mãos livres no aeroporto
A administração do aeroporto de Narita, em Tóquio, e diversas companhias aéreas formaram um consórcio para estudar tecnologias que garantissem segurança e fossem economicamente viáveis para o manuseio de bagagens. A solução adotada foi o Hands Free Travel System. Como o próprio nome sugere, os passageiros não levam as malas para o aeroporto. Eles ligam antes para a companhia aérea e solicitam a retirada de seus pertences. Nesse processo, cada mala ganha uma etiqueta inteligente, com informações sobre o passageiro e o destino. Assim que o viajante chega ao aeroporto e faz o check in, a mala é despachada.

De acordo com Paulo Riskalla, executivo de vendas de software OEM da Sun Microsystems, uma das empresas que participou desse projeto, a tecnologia aumentou a segurança, diminuiu o quadro de funcionários e reduziu o número de perdas e extravios e os erros de leitura. “Toda falha pode ser evitada”, diz. E, o melhor, não houve aumento do preço das passagens aéreas por conta disso.

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