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Big Brother da rede

Seu chefe sabe o que você está teclando. Mau uso do e-mail e da internet podem custar o seu emprego

Por Kim Zetter, da PC World/EUA

26/09/2006 às 12h47

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Seu chefe sabe o que você está teclando. Mau uso do e-mail e da internet podem custar o seu emprego

Big Brother 150 100Tasha Newitt sabia que no Departamento de Trabalho e Indústria do Estado de Washington, onde trabalhava, havia uma política que restringia o uso dos computadores para interesses particulares, mas acreditava que a regra valia somente para o acesso à internet, não para consulta a sua caixa de e-mails. Cuidadosa, Tasha se preocupou em usar o e-mail de trabalho quase exclusivamente para assuntos profissionais. Quase. Depois de encontrarem 418 mensagens particulares recebidas durante o período de cinco meses – ou seja, cinco e-mails por dia de trabalho –, a funcionária foi demitida.

O caso de Tasha não é único. Cada vez mais, gerentes fazem vista grossa em relação às atividades de seus empregados na rede e, em contrapartida, tornam obrigatória a instalação de programas que monitoram a navegação, examinam e-mails e restringem os sites que podem ser acessados.

Depois de oitos anos de trabalho, Tasha afirma que recebeu grandes elogios pelo seu desempenho, além de certificados que atestavam a excelência de seus serviços em seu cargo de gerente.

A maioria dos e-mails pessoais que recebeu era inocente, como cumprimentos de aniversário e convites de almoços com colegas de trabalho, diz ela. Mas nada disso foi considerado para que o departamento examinasse seu e-mail de escritório depois que um colega de trabalho preencheu uma queixa por abuso sexual contra um supervisor. O departamento demitiu recentemente oito empregados (incluindo Tasha) e penalizou outros dezesseis por uso impróprio dos equipamentos da agência.

O funcionário do Departamento de Assistência aos Negócios da Virgínia, Will Vehrs, foi suspenso por dez dias, sob alegação de uso excessivo da internet para fins não-relacionados ao trabalho. Os superiores hierárquicos de Will sabiam que ele blogava freqüentemente sobre questões de estado, no blog dos princípios políticos da Nação Conservadora da Virgínia.

Na verdade, o governador do estado da Virgínia leu e, algumas vezes, respondeu seus comentários; mas Will foi punido após dar títulos engraçadinhos para fotografias de um concurso promovido por um jornal local, o que gerou muitas gargalhadas e incomodou um político local. 

Flagras de alguém que esteja assistindo um vídeo que congestione as conexões de rede da empresa, ou caso um dos empregados acesse conteúdo adulto e exponha a companhia a uma acusação de abuso sexual, são alguns dos bons motivos para limitar o acesso dos empregados e suas atividades na internet.

Uma pesquisa de 2005 com empresas e organizações, realizada pelo Instituto ePolicy e pela Associação Americana de Gerenciamento, descobriu que 76% das entrevistadas monitora os sites visitados pelos empregados e 65% bloqueiam algumas páginas. Ao menos 55% revisam e retêm e-mails e 36% rastreiam o conteúdo dos PCs dos funcionários, as teclas pressionadas e o tempo gasto no teclado.

Perda de produtividade é a maior preocupação: no segundo trimestre deste ano, algumas empresas bloquearam vídeos contínuos na época em que acontecia um torneio de basquete universitário masculino da National Collegiate Athletic Association (NCAA). Considerando que mais de 14 milhões de fãs acessaram vídeos do site da NCAA durante as primeiras três rodadas do torneio, de acordo com a CBS SportLine, e levando em conta a hora de início dos jogos, muitos dos acessos aconteceram durante o expediente.

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Localizada em Massachusetts, a Networks Unlimited avalia as atividades dos funcionários de seus clientes na internet e vende equipamentos para medir e bloquear o uso da rede mundial. É instalada uma caixa de monitoramento na rede dos clientes por uma semana e, a partir daí, determinam padrões de longos períodos de uso desses dados para estimar quantas horas por ano os empregados gastam navegando em sites da rede.

A fornecedora descobriu, por exemplo, que pouco menos de 100 empregados na Balls Food (rede de supermercados e farmácias de Kansas City) tinham acesso à rede do trabalho, mas eles gastavam um total de 686 horas por ano usando e-mails públicos, como o Hotmail e o Yahoo. Por outro lado, 120 empregados numa empresa de software em Nova Iorque gastaram estimadamente 7700 horas em um ano com acessos de e-mails, 2400 horas em sites esportivos e de compras, e 250 horas com sites pornográficos. No total, mais de 17 000 horas, em um ano, foram despendidas em navegação recreativa (aproximadamente 3 horas por funcionário por semana). Isso representa uma perda de produtividade estimada em 867 mil dólares, segundo a Networks Unlimited.

Medo de vírus, spyware e outras brechas de segurança devido ao uso não-adequado da web é outro incentivo para que empregadores limitem a atividade na internet. Tais ataques podem interromper o trabalho da empresa e arriscar a confidencialidade das informações. Nancy Flynn, diretora do Instituto ePolicy e autora de diversos livros sobre políticas tecnológicas no ambiente corporativo, afirma que a maior preocupação está relacionada a possíveis processos judiciais.

Responsabilidade da internet

Material sexualmente ofensivo acessado em computadores no local de trabalho pode levar a acusações por abuso sexual ou, em casos extremos, trazer coerções legais. Um dos empregados do Departamento do Trabalho do município de Nevada foi preso depois de baixar mais de 400 imagens de pornografia infantil no computador da instituição, que descobriu o caso após rastrear um vírus que invadiu a rede de trabalho regional.

A mais recente pesquisa do ePolicy mostra que 24 % das empresas pesquisadas admitiram que têm recebido pelo menos uma intimação devido a e-mail e mensagens instântaneas de empregados. “Quando as empresas sofrem litígios por causa de e-mails, além de constrangedor, isso pode sair muito caro”, afirma Flynn, que coordena seminários sobre como estabelecer políticas e treinar empregados para uso apropriado de tecnologia.

A questão pode ser especialmente problemática para indústrias com muitas regulamentações, como a de saúde, na qual trabalhadores devem aderir a leis que protegem a privacidade dos registros e informações dos pacientes. Durante uma auditoria nos computadores de um centro médico, a Networks Unlimited apurou que spywares estavam suspeitamente enviando informações da rede de trabalho para a Gator (uma empresa de adware e spyware) cerca de 2 mil vezes ao dia.  A auditoria também descobriu um cavalo-de-tróia (mecanismo virtual que induz o usuário a fornecer informações sigilosas como senhas ou dados bancários) em uma das estações de trabalho da central.

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A web sem-limites

O bloqueio de atividades na web pode se tornar um jogo político se os trabalhadores sentirem que o Big Brother está observando. Algumas vezes você tem a administração sênior numa extremidade tendo a atitude de bloquear tudo, e na outra ponta aquele que diz eu não quero pôr os meus pés lá.

A Ball Food é o exemplo de quem bloqueou completamente a internet, e libera o acesso individualmente, analisando cada caso. O administrador da rede da empresa, Lance Fisher, afirma que não têm escutado reclamações sobre as restrições, porque eles nunca tiveram acesso irrestrito. “Eles não podem sentir falta do que nunca tiveram”.  Ele admite que pode ser difícil para uma empresa que nunca teve acesso bloqueado, repentinamente, instituir uma política restritiva.

Bob Edwards, diretor executivo do escritório de advocacia Wolf Greenberg, localizado em Boston, diz que sua empresa reconheceu essa possibilidade quando fez uma auditoria na rede e estabeleceu a nova política. Agora, é proibido o uso de mensagens instantâneas e o acesso a sites hackers e páginas de jogos e apostas está interrompido.

Caso queiram evitar processos relacionados a propriedade intelectual, também devem bloquear redes P2P (peer to peer), para evitar escândalos envolvendo seus próprios empregados, que baixam música ou vídeo com direitos protegidos, precavê-se Edward. Sites com conteúdo adulto também são bloqueados “para ter certeza de que não estávamos dizendo uma coisa sobre políticas de abuso sexual e, contraditoriamente, permitindo livre acesso a páginas adultas”, afirmou o executivo.

Contudo, a Wolf Greeenberg teve o cuidado de não ofender os empregados com sua nova política. A auditoria da empresa analisou o uso de internet como um todo, ao invés de focar individualmente, e os dados recolhidos foram mantidos em sigilo para proteger a privacidade dos empregados. “Nós realmente não temos a intenção de saber cada site que os funcionários acessaram e queremos administrar a rede com a cooperação de todos”, coloca Edward.

O escritório de advocacia também projetou cuidadosamente uma política que equilibra suas necessidades com a dos empregados. Por exemplo, foi decidido não bloquear o eBay e outros sites de compras “Desejávamos ser razoáveis”, aponta Edward. “A internet está lá para eles usarem, mas também queremos que eles sejam sensíveis ao nível do uso”.

Flynn, do ePolicy, insiste que as empresas devem tomar o cuidado de explicar sua política de internet claramente aos empregados e ser consistente ao reforçá-la. “Tenho visto casos nos quais as organizações não cumprem as regras que impõem”, diz ela. “E existem empresas que tomam decisões e aplicam regras somente a algumas pessoas. Isso confunde os empregados”, conclui Fynn.

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