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AMD e Intel acirram a competição em 2007

De olho nos bilhões de dólares do mercado de processadores, companhias protagonizam disputa cada vez mais equilibrada

Por Vinicius Cherobino, do COMPUTERWORLD

09/02/2007 às 16h08

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De olho nos bilhões de dólares do mercado de processadores, companhias protagonizam disputa cada vez mais equilibrada

O roteiro é dos mais complexos. De um lado, acusações de formação de monopólio, de competição desleal, de controle sobre os clientes. Do outro, críticas quanto à qualidade dos produtos e insinuações de esquizofrenia, de mania de perseguição. O resultado não poderia ser outro: uma competição feroz pela presença de mercado que desaguou em processos legais em cortes mundiais.

Esse pode ser o resumo da relação entre a Advanced Micro Devices (AMD) e a Intel. Ainda que o discurso oficial esteja, evidentemente, distante do que se sussurra longe dos gravadores e blocos de papel, poucas rivalidades corporativas são tão marcadas e agressivas como quanto a existente entre as duas organizações. Como dois times de futebol de uma mesma metrópole, os jogadores não se gostam e é melhor manter as torcidas e suas camisas azuis ou verdes a uma distância segura.

Até pouco tempo, verdade seja dita, a briga era desigual. Mas o cenário mudou bastante, especialmente em 2006. E o mercado foi um dos responsáveis. Exemplo foi a decisão da Dell, que encerrou uma parceria exclusiva de anos e anunciou que os processadores Intel não seriam mais os únicos em suas máquinas (Posteriormente, a empresa de Michael Dell foi acusada de receber 1 bilhão de dólares anuais para manter a exclusividade). Também no Brasil o movimento se repetiu, com a Itautec passando a produzir servidores com chip Opteron da AMD. Ainda que seja cedo para confirmar, existe no mercado a sensação que essas empresas conseguiram resultados positivos com a movimentação.++++

Outro front importante foi o jurídico. As batalhas legais sob acusações de comportamento anti-competitivo da Intel povoaram o noticiário especializado. Ainda sem resultados definitivos, a disputa está pendendo para o lado da AMD, já que investigadores da União Européia recomendaram à Comissão de Competição, em janeiro de 2007, que processasse a gigante azul. Além disso, a AMD recebeu permissão para coletar evidências de negócios realizados pela Intel fora dos Estados Unidos como resultado da ação antitruste.

O momento interno de cada uma das companhias também desempenhou papel fundamental no panorama. A Intel passou por um processo gigantesco de reestruturação, que culminou na demissão de mais de 15 mil funcionários, na venda de unidades de negócios e de diversos laboratórios de P&D espalhados pelo mundo. Na outra ponta, a AMD está em um momento de franca ascensão, colhendo os louros da fusão com a fabricante de placas gráficas ATI.

Tudo isso repercutiu nos resultados financeiros. A Intel conseguiu diminuir a queda esperada por analistas de mercado, mas a variação negativa de 39% em seu lucro no último trimestre de 2006 é sintomática. Na comparação ano a ano, o faturamento foi 5% menor do que o registrado em 2005, assim como a receita de 35,4 bilhões de dólares é 9% inferior. Para a consultoria Thomson First Call, o resultado ainda foi melhor do que o esperado, pois a empresa inflou seu lucro em um centavo de dólar por ação, reflexo das ações de reestruturação.++++

A AMD, no entanto, está vivendo no ponto mais alto do arco-íris. Ainda que tenha atrasado a divulgação dos seus resultados para 23 de janeiro (um dia após o fechamento desta edição – leia no COMPUTERWORLD Online os detalhes do anúncio), especula-se que a fabricante tenha um dos seus melhores anos. Oficialmente, a expectativa da companhia é crescer no quarto trimestre cerca de 3% sobre a receita do período anterior, que registrou 1,33 bilhões de dólares. Hector Ruiz, CEO da AMD, garantiu diversas vezes que a companhia vai crescer o dobro do mercado em 2007.

É preciso destacar, contudo, que os resultados alteram, mas não mudam significativamente, a dinâmica do mercado. Dados da Mercury Research sobre o segmento de processadores no terceiro trimestre de 2006 apontam que a Intel continua como líder, acumulando 76,1% de participação – no entanto, um ano antes essa fatia era de 80,7%. Já a AMD fechou o quarter com 23,3% do setor, crescendo sobre os seus 17,7% registrados em 2005.

Mercado em chamas
“A AMD passou de seguidora para desafiante. E desafia o status quo e o monopólio, se apoiando em inovações tecnológicas para ganhar mercado”, discursa José Roberto Scodiero, diretor-geral da subsidiária brasileira da AMD. Para o executivo, as quebras de paradigma registradas em 2006 foram a base para os bons resultados. “Esse foi um ano emblemático. ‘Caiu o muro de Berlim’ em um dos maiores fabricantes de computadores do mundo”, ironiza, referindo-se à Dell. Scodiero completa: “Mostramos que a competição é importante e saudável para qualquer indústria, especialmente em tecnologia, que vive com baixas margens e alto índice de mudança”.++++

Elber Mazaro, diretor de marketing da Intel Brasil, questiona os bons resultados alardeados pela adoção de outro fabricante de processadores pela Dell. “É importante diferenciar a percepção de Wall Street e o que é realmente relevante para o mercado”, critica. “Sempre que grandes fabricantes também trabalharam com a concorrência os nossos resultados foram melhores”, garante.

Para ele, o pior momento da Intel já passou. “A reestruturação é um processo longo, mas já melhorou nossos resultados, controlando os custos e nos dando competitividade”, afirma. E o executivo indica a lição aprendida: “Foi muito importante recuperarmos o foco”.

Scodiero, obviamente, não concorda. Ele pergunta: “Qual foi o motivo deles patinarem? Isso não foi exclusivo no ano passado, a origem está no modelo de negócios monopolista. A Intel parou de inovar e comprou coisas que fogem do núcleo do seu negócio”. O diretor-geral da AMD Brasil acredita que, graças a isso, a empresa encontrou espaço para crescer. “Há três ou quatro anos precisávamos ter produtos muito melhores para posicionar a marca. Hoje, a briga está cabeça a cabeça. Não tem sentido a AMD ter menos de 30% de mercado, esse é nosso objetivo para 2007.”

Mazaro define a acusação de monopólio como “alegação natural da empresa menor”.
Ele não acredita que exista uma competição cabeça a cabeça, tanto em tecnologia quanto em participação de mercado, e usa como exemplo o mercado brasileiro. “É um dos únicos países do mundo com um resultado assim, onde detemos cerca de 80% do mercado. Isso é fruto do trabalho desenvolvido nos últimos anos”.

Sobre o mercado nacional, Scodiero aponta a dificuldade de fazer negócios no País. “Tivemos de ir à Justiça para mudar especificações em licitações, foram mais de 15 ações apenas para poder competir”, afirma. E ataca: “Nunca é demais lembrar que é importante que a competição seja livre e aberta. Quando isso acontecer plenamente, os usuários verão o valor da AMD”, garante. Mazaro contra-ataca: “O usuário já tem a opção hoje e, se escolheu a Intel, é porque vê o valor da marca e por que estamos fazendo um bom trabalho. A competição está totalmente aberta”.

Farpas à parte, os próximos meses não indicam que a competição será menor – pelo contrário. Sem final previsto, a briga tem tudo para esquentar.

Mercado de processadores – Participação no mercado
AMD salta de 17,7% para 23,3%
Intel cai de 80,7% para 76,1%
Fonte: Mercury Research, sobre o terceiro trimestre de 2006

Mercado de semicondutores
Em 2006, o setor movimentou US$ 258,5 bi
Mesmo com uma queda de 11,6%, a Intel se mantém na liderança, com 12,1%
Já a AMD cresceu 90,7% e chegou à sétima colocação, com 2,9%*

*Dados incluem o resultado da fabricante de placas gráficas ATI, adquirida em julho
Fonte: iSuppli

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