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Mercado de TI com um toque feminino

No Dia Internacional da Mulher, executivas de TI mostram como contribuem para o setor

Por Luiza Dalmazo, especial para o Computerworld, e Thais Cerioni, repórter da CIO

08/03/2007 às 10h23

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No Dia Internacional da Mulher, executivas de TI mostram como contribuem para o setor

Médicas, advogadas, psicólogas, jornalistas, publicitárias, cientistas, artistas... São incontáveis as áreas em que as mulheres já conquistaram respeito e marcaram seu espaço como profissionais de destaque.

Entretanto, quando o assunto é tecnologia, a situação ainda não é tão igualitária. No Brasil, os dedos de duas mãos são quase suficientes para contar os principais nomes femininos no mercado de TI – tanto na indústria quanto na liderança da área de tecnologia das corporações. A experiência mostra que este quadro deve-se menos a uma possível falta de aptidão e mais a um vício cultural que torna senso comum a percepção de que, se as mulheres não sabem sequer programar o DVD player, jamais poderiam ser a principal executiva de TI de uma grande corporação.

Preconceitos são fracos exatamente por serem construídos sobre imagens facilmente destruídas pela realidade. E é assim que as mulheres vêm conquistando cada vez mais cargos de liderança no setor de tecnologia da informação – a exemplo do que acontece nas demais posições executivas.

Levantamento realizado pela consultoria de recursos humanos Catho com mais de 95 mil companhias mostra que, atualmente, 20,2% das empresas brasileiras têm mulheres na presidência ou em cargo equivalente. O número representa um aumento significativo em relação a 2001, quando eram 13,9% as corporações comandadas por elas.

“Estatisticamente, o número de mulheres em diretorias ou gerências era mínimo ou quase zero há alguns anos, em qualquer profissão”, aponta Fátima Zorzato, presidente da empresa de executive search Russel Reynolds. Em sua visão, além das questões culturais, o crescimento deve-se à maior valorização de algumas características – notadamente femininas – em posições gerenciais. No mercado de TI, soma-se a isto a valorização de profissionais com perfis menos técnicos.

“Entre os CIOs, a necessidade de se relacionar com os usuários, por exemplo, torna a sensibilidade um fator mais valorizado”, destaca.
Fátima, assim como diversas executivas do segmento, acredita que o avanço das mulheres no mercado de TI é uma questão de tempo. Com presença cada vez mais expressiva no setor e boa parte dos CIOs próximos à aposentadoria, são grandes as chances da próxima geração de líderes de tecnologia ser mais feminina. Se as executivas que vêm por aí seguirem os passos das que já se firmaram no setor, a tecnologia só tem a ganhar com esta tendência.

A participação das mulheres no mercado e suas características particulares motivaram a consultoria Gartner há quatro anos promover encontros apenas com as CIOs mulheres. “No começo achávamos que seriam poucas interessadas, mas percebemos que algumas especificações diferenciadas fez o número crescer de 20 para 80 participantes entre a primeira e a oitava edição [que acontece entre hoje, 8 de março, e amanhã]”, explica a vice-presidente do Executive Program do Gartner, Ione Coco.

A executiva afirma ainda que o estilo de liderança é diferente, assim como o nível de estresse e a credibilidade. “Elas querem se reunir para discutir os assuntos do seu jeito e inclusive pedem para que eu não leve analistas homens aos encontros”, revela.

Confira a seguir as experiências de CIOs, analistas e outras executivas do mercado fornecedor de TI, que conviveram ao longo da carreira com preconceitos e outras questões inerentes à realidade feminina.

Sandra Vaz, vice-presidente de alianças e canais para a América Latina da Oracle

Ao longo dos 20 anos em que atua em TI, Sandra Vaz afirma que soube somar ao seus esforços de busca de conhecimento as características positivas das mulheres. “É do perfil feminino ter facilidade para trabalhar em equipe porque ela tem habilidades que favorecem as relações interpessoais”, garante.

Casada, Sandra revela que conseguiu construir uma vida pessoal e que, para fazer isso, sempre teve metas claras e soube onde queria chegar. “Construir uma rede de relacionamentos forte também é fundamental”, aponta.

Mas, além de tudo isso, Sandra teve de tomar decisões importantes, que superam as questões de discriminação – que segundo ela é comum na AL, principalmente no México – e desafios como mudança de área. “Logo que voltei da licença-maternidade, apareceu uma oportunidade incrível para ficar alguns meses na França. A principio, meu chefe me descartou da seleção, dizendo ‘queria te convidar, mas entendo que o momento impede’. Mas eu logo disse a ele que estava disposta a ir e mesmo tendo que deixar por quatro meses meu filho de apenas seis meses de vida, encarei. E o melhor é que eu sei que isso me abriu portas, pois se eu não tivesse aceitado essa oportunidade não teria sido convidada para outras”, relata.

A executiva também acredita que é importante a mulher aproveitar sua sensibilidade para avaliar se tem um bom gestor. “Isso é importante, pois sem um bom chefe não se pode crescer. Acredito, inclusive, que esse superior deva considerar igualmente mulheres e homens”, sugere.

O aumento da atuação feminina no mercado de TI também foi testemunhado por Sandra, que conta que quando começou a carreira havia poucas diretoras e, hoje, existem inclusive donas de empresas de TI. “As mulheres têm algo interessante que é a capacidade de ser multitarefas. São capazes de entender o cenário do mercado, ser inovadoras, se adaptar às mudanças e processos e ainda cuidar da família”, enumera.

O segredo para isso, segundo ela, é ter uma boa infra-estrutura em casa, como um marido que garanta tranqüilidade para que se possa trabalhar bem. O depoimento, inclusive, faz pensar no contrário do ditado popular “Por trás de um grande homem tem sempre uma grande mulher”...

Manzar Gomes Feres, sócia da divisão de GBS da IBM

A experiência com consultoria fez a executiva Manzar ter uma visão não só da atuação das mulheres na IBM, mas também em todo o mercado de TI. A conclusão é de que ainda é difícil para as mulheres conquistar espaço, mas, mesmo assim, a participação feminina está aumentando. “A impressão que fica para mim, no entanto, é que o crescimento está mesmo no nível técnico. Nas áreas executivas não há uma grande atuação”, acredita.

O que ajuda no sucesso das que chegam ao topo da pirâmide, entretanto, é a capacidade de contar com a percepção intuitiva, sendo que os homens ficam fixados nas análises e números. “Além disso, as mulheres são capazes de fazer várias coisas ao mesmo tempo”, diz. Um destaque, segundo ela, é que atualmente os homens estão se assemelhando às mulheres em alguns aspectos, como o fato de que em alguns casos preferem crescer profissionalmente de forma mais lenta para poder manter uma proximidade maior com a família.

Vale destacar que a IBM tem uma cultura forte de respeito ao que a empresa chama de minorias - mulheres, negros e homossexuais. Tanto que a companhia foi eleita a Melhor Empresa para as Mulheres Trabalharem na pesquisa realizada pelo COMPUTERWORLD em parceria com o Great Place to Work Institute.

Lucia Bulhões – gerente regional de vendas

O começo da carreira foi como secretária executiva, mas as promoções apareceram e depois de 13 anos em uma mesma empresa, Lúcia começou a atuar na Dell. “Não fez diferença para mim ser mulher, mas um fato é que muitas vezes temos de provar ainda mais nossas capacidades, porque o universo de TI é tipicamente masculino e com um pouco de machismo também”, afirma.

Lúcia explica ainda que na sua avaliação as mulheres tiveram dificuldade de ganhar espaço também pela questão da formação, já que nas faculdades de engenharia e técnicas a presença é predominantemente masculina. “Quando o perfil do profissional de TI mudou, o espaço para pessoas com outras formações também se alterou, o que fez aumentar a presença de mulheres”, pondera.

Para obter destaque e superar as dificuldades das tarefas exclusivamente femininas – como alguns cuidados com os filhos e a casa – a executiva conta que se apóia nas habilidades de relacionamento com pessoas e no poder de usar a intuição em paralelo às análises para tomada de decisão.

Ione Coco, vice-presidente do Executive Program do Gartner

A executiva do Gartner afirma que é de outra geração e que hoje é mais fácil para as profissionais conquistarem espaço. “Eu tive duas experiências muito negativas e relacionadas diretamente ao fato de eu ser mulher. A primeira foi quando um chefe do departamento do Universidade de São Paulo, onde eu trabalhava, me demitiu porque eu havia acabado de ter um filho e a segunda foi quando, antes da contratação, um executivo me perguntou se eu tinha feito ligadura de trompas [que impede a mulher de ter filho]”, revela.

Na opinião da Ione, as mulheres precisam, sim, mostrar persistência, porque se houver uma disputa entre pessoas do mesmo sexo que tenham o mesmo nível profissional, a maioria escolhe o homem. “As mulheres têm de enfrentar os rótulos de que no período pré-menstrual são desequilibradas”, exemplifica.

Além disso, a analista explica que empresas nacionais preferem contratar homens e que as multinacionais, no entanto, só admitem mulheres em cargos executivos porque têm cotas a cumprir. Apesar das adversidades, a categoria feminina conta com habilidades de olhar múltiplas tarefas ao mesmo tempo, assim como a intuição, acredita.

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