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TV Digital é chance para o País desenvolver tecnologia

Alan Fischler, do departamento de telecomunicações do BNDES, fala da migração para o padrão digital e dos impactos no mercado

Por Luiza Dalmazo, especial para o Computerworld

19/03/2007 às 15h33

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Alan Fischler, do departamento de telecomunicações do BNDES, fala da migração para o padrão digital e dos impactos no mercado

O governo federal promenteu para o mês de abril os primeiros set up boxes prontos e para agosto a transmissão dos primeiros sinais de TV Digital. Mas, apesar dos trabalhos do Fórum Nacional de TV Digital, pouco tem se falado sobre o assunto. Confira o que o chefe do departamento de telecomunicações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Alan Fischler, tem a dizer sobre a questão.

O que você acha da escolha brasileira pelo padrão japonês de TV Digital?
O que está feito já foi, está definido e pronto. O padrão bom é aquele que vira padrão. O consenso não vai existir nunca, sempre vão existir os que discordam.

O padrão de transmissão é japonês, mas na verdade existem muitas partes que são brasileiras. Isso inclusive vai gerar a possibilidade de desenvolver grande parte da indústria local.

O Brasil vai ter a oportunidade de fabricar e usar tecnologias que vão partir do zero, porque o produto que vai ser criado para o nosso modelo de TV Digital ainda não existe. Vamos ter a chance de partir junto com o mundo para a fabricação.

Estamos desenvolvendo as tecnologias para criar o nosso padrão híbrido (brasileiro mais japonês). E teremos a chance não só de fabricar essas tecnologias, mas também de desenvolver projetos relacionados à inteligência ligada a ela.

O BNDES já aprovou um projeto do Ceitec que representa uma grande oportunidade para o Brasil entrar num mundo que antes não tínhamos acesso. É uma geração mais sofisticada.

O desenvolvimento dessas tecnologias é a parte mais importante, do ponto de vista do desenvolvimento do País, porque a fabricação é só uma fabrica automática. Tem a parte do chip e a parte dos software que rodam em cima do chip e essa parte do software é que é a oportunidade.

A parte do chip não é minha área. Mas sei que a intenção é fazer um chip multipadrão, para visar a exportação. Por isso, ele tem que suportar os três padrões (europeu, americano e japonês).

Que tipo de projetos vocês vão privilegiar para liberar financiamentos no BNDES?
Aqui existem sempre muitos projetos e o BNDES tem uma linha de inovação que incentiva muito a pesquisa e o desenvolvimento. Nesse caso, não tem um limitador de dinheiro. A parte inicial do desenvolvimento não tem tecnologia necessária para ter prioridade.

Você acredita que os prazos definidos pelo governo vão ser cumpridos?
A questão dos prazos depende da iniciativa privada. Acho que vamos, sim, ter TV Digital em funcionamento no segundo semestre de 2007. O ritmo de implantação é realmente possível e o positivo é que a iniciativa privada tem interesse nisso.

Sei que tem muitos trabalhando para entrar o mais rápido possível, pelo menos nas principais cidades, e acho que há o interesse em adiantar e criar condições de financiamento para isso. Quanto mais cedo começar, melhor. Mas os prazos foram lançados de acordo com as empresas.

O que as emissoras de TV ganham com a TV Digital?
Isso tem muita controvérsia. O mais importante nessa questão para as emissoras é a concorrência. E a concorrência não é só pela audiência e sim pelas mídias também. Porque hoje tem a TV a cabo, a TV via Internet, o You Tube e outras formas de televisão que prejudicam a TV aberta, que precisa se manter atualizada em relação à tecnologia para se manter disputando a audiência e o market share de verba de publicidade.

Se permanecer analógica, não conseguem disputar. A TV Digital é um cronograma que as empresas tem que cumprir, porque é uma forma de a TV aberta continuar competitiva. Terá um ganho direto com isso.

E as empresas de telefonia?
As empresas de telefonia diretamente, emum horizonte curto, não são afetadas. Mas se considerarmos a parte da televisão por internet (IPTV), em princípio não tem rede elétrica e poderiam se beneficiar.

Mas a TV aberta faz concorrência e a melhor qualidade dela diminui o interesse por produtos pagos. Sim, porque as empresas de telefonia querem mesmo entrar no ramo de TV paga. Quanto melhor for, diminui o interesse por pagar pela TV paga.

O que o Brasil pode ganhar com a experiência de outros países para garantir uma migração tranqüila?
É difícil comparar com os outros, porque as realidades são muito diferentes. Os casos de Europa e EUA foram diferentes, mas os dois foram de sucesso.

O modelo de negócios dos EUA não seria bom aqui, porque não teríamos verba. Porque o modelo de negócios norte-americano é apoiado na filosofia voltada para o publico com renda para comprar aparelhos de alta definição. Lá existe demanda de gente para comprar esses aparelhos. Aqui seria um desastre porque as pessoas não têm dinheiro para comprar televisão.

Na Europa quase não tem alta definição. O interesse maior é em acomodar mais a quantidade de canais, que também não é o caso do Brasil. O modelo de negócios deles não é o mais adequado para a gente.

O Japão também é voltado para  a alta definição e a mobilidade. Esse é um dos fatores que impulsionam a escolha no Brasil, porque é tecnologicamente mais robusto.

Como deverá acontecer a migração da TV analógica para a digital no Brasil?
O Brasil vai ficar durante cerca de 10 anos rodando simultaneamente em paralelo a TV analógica e a digital. As emissoras vão ter a possibilidade de abrir novos canais e transmitir a mesma programação simultaneamente. Ou também existe a opção de elas terem outro canal com programação diferente. O que é preciso ver é a cobertura e o lado para o consumidor.

O sucesso da TV Digital, no entanto, depende do posicionamento das pessoas, porque são elas que tem que comprar o s set up boxes. Essa caixinha (o set up boxes) tem que ter um preço relativamente baixo e espera-se que as pessoas tenham essa caixinha.

Portanto, o sucesso depende da cobertura e da questão dos set up boxes, que se tiverem um custo-benefício adequado para o consumidor, vai ser bom para a população.

A TV digital é compulsória, tem que cumprir o programa de cobertura e isso depende da parcela da população que adquirir o novo aparelho.

Sabemos que ainda precisa ser definido o modelo de negócio, mas, a princípio, o que muda para o consumidor?
A primeira percepção para o consumidor é a qualidade de imagem e som. Na maioria das televisões, entretanto, não vai fazer tanta diferença assim. O benefício vai ser que ninguém vai ter que ficar colocando bombril na antena.

Depois tem a questão dos diferentes conteúdos. Se conseguirem viabilizar a questão dos horários defasados, dá pra fazer a multiprogramação. Mas isso depende do modelo de negócio.

Como você acha que será o modelo de negócios aqui?
A televisão no Brasil hoje tem um modelo de publicidade, de ganhar dinheiro com propaganda. O que importa é se elas vão poder ganhar mais receita ou não com determinado conteúdo.

Como a programação é espalhada, pode dobrar a chance de anúncios. Se a emissora optar por repetir determinada programação em outro horário defasado, o anunciante vai ter a chance de atingir um público diferente em outro horário e pode aumentar seu interesse em anunciar. Teoricamente fica mais caro.

Abre-se um leque de opções e cada emissora vai buscar um nicho. De acordo com o decreto de TV Digital, cada emissora pode, sim, definir se vai querer ter vários canais ou se vai preferir a alta definição. Atualmente cada emissora tem a sua concessão e faz o que quiser com ela – dentro das questões regulatórias, claro.

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