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Software público promete novas oportunidades de negócio

Modelo de software livre idealizado pelo governo federal favorece empresas brasileiras de tecnologia

Por Camila Fusco, do COMPUTERWORLD*

13/04/2007 às 15h56

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Modelo de software livre idealizado pelo governo federal favorece empresas brasileiras de tecnologia

Diz o ditado que a necessidade é a mãe da criatividade. E, de fato, não são poucos os indícios de que ele pode ser aplicado na área corporativa: quantos negócios lucrativos já não surgiram em decorrência das necessidades pessoais de seus sócios ou idealizadores?

Na esfera brasileira de TI, especificamente entre empresas de software, o ditado acima vem sendo traduzido em oportunidade de negócios, mas em um formato um pouco diferente: quem teve a idéia inicial não necessariamente é o beneficiário de seus bons resultados. Aliás, ao contrário. O idealizador compartilha a galinha dos ovos de ouro com todos aqueles que quiserem aproveitar e explorá-la comercialmente.

O modelo em questão, na prática, é o que o governo federal tem chamado de programa brasileiro de software público. Trata-se de uma iniciativa em que órgãos públicos desenvolvem e liberam o código de determinado programa para download, em uma estratégia com princípios semelhantes aos seguidos pela comunidade de software livre – em termos de distribuição e capacidade de manipulação.

O mais popular deles, o Configurador Automático e Coletor de Informações Computacionais (Cacic), que detalha características do parque computacional em hardware e software, já tem mais de 200 downloads e tem gerado uma movimentação de serviços relacionados que surpreende até mesmo os próprios idealizadores.

A rede de serviços que foi gerada em torno do Cacic começou a ser identificada em meados do segundo semestre do ano passado, quando o governo decidiu oferecer um cadastro gratuito para as empresas que já prestavam serviços relacionados ao software, como suporte, manutenção, implantação, treinamento e personalização. Até o final de março, nada menos do que 360 prestadores de serviços autônomos e empresas – em sua maioria de pequeno porte – estavam listados.

A maioria das companhias tem visto esses códigos oferecidos pelo governo como uma forma de incrementar suas ofertas e aumentar as perspectivas de negócios, especialmente com serviços como suporte, manutenção, implantação, treinamento e personalização.

Esse é o caso, por exemplo, da catarinense OpenS, que atua na consultoria e implementação de software livre dentro de seus clientes. A empresa tem utilizado o Cacic como ponto de partida para coletar os dados das organizações a serem monitoradas e o integra para apoiar os seus serviços de consultoria.

Um dos contratos de grande porte no qual a OpenS está trabalhando com o Cacic é o do Grupo Moldurarte, indústria do ramo de molduras e rodapés com operações em três países. "Nesse cliente, chegamos a utilizar o sistema para mapear 500 máquinas com a ferramenta", ressalta Douglas Conrad, diretor de tecnologia da empresa.

Além disso, houve um impulso na demanda também por personalizações do software, área na qual a companhia tem visto grandes oportunidades de negócios. Hoje, 60% de seus projetos de infra-estrutura de TI envolvem o Cacic. "Já estamos com nove contatos para customização do software em vista", diz Conrad.

A Getcorp, do município de Bebedouro (SP) e incubada na Agência de Desenvolvimento do município, seguiu linhas semelhantes à da OpenS, com o uso inicial do Cacic de forma complementar à sua oferta de serviços. Com isso, viu suas oportunidades de negócio crescerem expressivamente. "Estamos mais competitivos e hoje 18 clientes já utilizam o software", comenta João Marcelo de Oliveira, responsável pela área de projetos e negócios da companhia.++++
Do outro lado balcão
Passar de usuário a prestador de serviços foi o destino da Cooperativa dos Profissionais de Sistemas de Meios de Pagamento e de Informação de Brasília (Coopersystem). Adepta das iniciativas de software livre há cerca de três anos, a companhia especializada no desenvolvimento de sistemas e alocação de mão-de-obra adotou em 2006 o Cacic como usuária, para mapear seu parque computacional.

Após treinar técnicos no sistema para testes e implantação, a cooperativa percebeu que também poderia oferecer sua experiência com a ferramenta ao mercado. "A idéia de prestar serviços relacionados ao Cacic surgiu da necessidade de usarmos internamente a ferramenta. Isso porque nossa própria mão-de-obra já adquiriu conhecimento do sistema e está habilitada para passar isso para fora", conta Marcos Sabatino, coordenador de infra-estrutura da companhia.

Até o momento, nenhum contrato específico para prestação de serviços está fechado para o Cacic, mas entre os contatos da Coopersystem está um banco de grande porte sediado no Rio de Janeiro que se mostrou interessado pelo modelo.

Para Corinto Meffe, coordenador do programa de Software Público e integrante do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, a surpresa está justamente na movimentação que o projeto de software público gerou no mercado de prestadores de serviços. Isso porque o objetivo principal não estava especificamente em movimentar a economia dessas companhias. "A intenção inicial era levar à comunidade de software livre algumas das contribuições que os órgãos públicos faziam sobre o código aberto. Mas acabou gerando mais oportunidades do que inicialmente imaginávamos", aponta.

Uma pesquisa feita sob o comando de Meffe em novembro de 2006 com 47 prestadores de serviço comprova as oportunidades. De acordo com o levantamento, para 21% da amostra o Cacic já gerou novas vendas ou contratos, ao passo em que houve geração de receita direta em 14% dos casos. Serviços de implantação e suporte eram os mais solicitados pelos clientes até a época da pesquisa.

A rede se tornou pública depois que o grupo destinado aos trabalhos do software público optou por publicar na internet a relação dos prestadores de serviços vinculados ao Cacic.

No site Guia Livre as listas detalham os nomes das empresas ou dos profissionais responsáveis pela prestação de serviços relacionados ao software, contatos e localidade. Um ponto de atenção, entretanto, é que o cadastro é feito pela própria companhia ou prestador interessado em divulgar seu trabalho e o governo não garante a qualidade dos serviços listados.++++
Expansão em vista
Embora até o momento as principais estatísticas e a rede de prestação de serviços tenham sido criadas principalmente em torno do Cacic, programa pioneiro do formato e mais conhecido até o momento, a idéia do governo federal é continuar liberando o código de outras soluções.

Na quinta-feira (12/04), por exemplo, foi liberado para download o Sistema de Gestão de Demandas (SGD), que transforma as demandas internas em projetos que são controlados pelo escritório de projetos. A ferramenta foi desenvolvida pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, autarquia vinculada ao Ministério da Educação. Outra novidade é o Controlador Centralizado do Ambiente de Rede (Cocar), software para capturar informações de redes, de criação também da Dataprev, idealizadora do Cacic.

De acordo com Meffe, a estratégia prevê a concentração de todas essas soluções disponíveis à comunidade no recém-lançado Portal do Software Público entre elas os já disponíveis OpenACS – framework de desenvolvimento web – e o Sisau-Saci-Contra, tripé para atendimento a usuários, gerenciamento de portais e controle de acesso. "Até o fim do ano a intenção é fazer um grande cadastro para prestadores de serviços de soluções públicas", explica.

Iniciativas à parte, um aspecto no qual a estratégia deixa a desejar é a própria divulgação do vem sendo feito. Meffe reconhece que ainda existe muito espaço potencial tanto para usuários quanto para prestadores de serviços relacionados ao software público. Por seu lado, o governo promete bastante Especial_Linux_selo_fimbarulho nos próximos meses no sentido da popularização da iniciativa. Se de fato for eficiente nessa comunicação, a tendência é que se vejam benefícios para todos os lados.

* de Porto Alegre (RS)

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