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Entrevista: entenda os testes com os laptops de 100 dólares

Pedagoga responsável pelos primeiros testes com o XO, Léa Fagundes detalha uso do portátil dentro de colégio gaúcho

Por Guilherme Felitti, repórter do IDG Now!

03/05/2007 às 15h43

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Pedagoga responsável pelos primeiros testes com o XO, Léa Fagundes detalha uso do portátil dentro de colégio gaúcho

Responsável por coordenar os primeiros testes com os laptops educacionais XO, do projeto Um Laptop por Criança (OLPC, da sigla em inglês), no Brasil, a gaúcha Léa Fagundes é formada em psicologia.

Coordenadora do Laboratório de Estudos Cognitivos (LEC), ligado à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ela não esconde o otimismo em oferecer equipamentos sofisticados para alunos de baixo poder aquisitivo.

Na entrevista, Fagundes também explica como foram os testes do laptop educacional em colégio gaúcho. Leia:

Quais as mudanças que a adoção em massa de tecnologia, como propõem idealizadores de laptops educacionais, provocará na educação?
Léa Fagundes: Análises feitas a partir de dados do MEC indicam que turmas que tiveram PCs na sala de aula não têm uma mudança significativa de aprendizado em comparação às que não tiveram.

A tecnologia permite estudarmos a comunicação do adolescente em detalhes por que fica tudo impresso em ambiente digital. Assim como estudar, programar é levantar dúvidas, equacionar com clareza, partir de hipóteses e tentar provar se elas fazem sentido.

Como é o dia-a-dia das crianças com os laptops educacionais?
Não podemos deixar crianças sozinhas com laptops, porque o professor não sabe manejar a máquina sozinho e, enquanto ele aprende, alunos podem ir para sites pornográficos, acessar joguinhos ou copiar e colar conteúdo livremente.

É necessário um acompanhamento técnico. Por isto, temos docentes, que são alunos de diversas áreas (matemática, psicologia, tecnologia) da UFRGS, que acompanham a interação de crianças com laptops.

As crianças também podem levar os portáteis para os intervalos para continuar mexendo nas atividades. Aliás, com a introdução do XO, ocorreu algo que nunca tinha visto em escolas: mesmo dispensadas da aula, as crianças preferiram ficar no colégio para mexer com o XO a ir para casa.

As aulas continuam a ser as mesmas de antes da introdução de portáteis?
Não, a professora planeja sua aula na sala, mas nós entramos juntos para ajudar a manejar o equipamento. Antes, fazemos o planejamento com a professora ter um diagnóstico da criança. Ela sugere como pode conduzir o ensino em casos individuais e daí adaptamos para o computador portátil.

Mas temos outras ferramentas além do XO, como o ambiente virtual Amadi de desenvolvimento de projetos. Os alunos definem o que querem estudar e começam a construir seus projetinhos.

Cada um publica o que já sabe na tela do computador dentro do ambiente e nós direcionamos para quais as questões que faltam saber. A professora orienta porque fica tudo armazenado na função Journal do XO, que registra tudo o que a criança fez.

Quais séries estão trabalhando com o XO?
Como só tínhamos 100 máquinas, demos para duas salas onde, no período da manhã, estão alunos da 6ª série e, no período da tarde, alunos da 4ª série .

Porém, estamos pedindo mais 300 laptops porque o colégio tem 400 alunos e queremos dá-lo para todos os alunos e professores, da 1ª à 8ª série.

As crianças levam os laptops para casa?
É para levar, mas reunimos os pais e eles ainda não quiseram. Como não são todas as turmas que têm, é perigoso que os coleguinhas que ainda não têm possam tirar uns dos outros.

Por isto, temos instruído os alunos que têm a chegar nos amiguinhos e nos vizinhos e oferecer o próprio laptop para que todos conheçam.

Na visão do LEC, que é pioneiro nesta integração entre sala de aula e tecnologia, o que é mas importante: dar laptops ou capacitar professores?
Não se pode dissociar. Para entregar o laptop, a formação continuada é indispensável, por que é natural que o professor se assuste. O que ele vai fazer com aquilo que ainda não sabe manejar, ainda mais com a mudança no cronograma de aulas?

Ele vai ter que mudar o projeto político e pedagógico do colégio. No colégio, já estamos experimentando isto. Tivemos reunião com a coordenação, que assumiu que está refazendo o plano pedagógico da escola para mudar a vida de todos. A visão mudou.

Qual o tipo de capacitação dada aos professores para os testes com laptops?

Não fazemos cursos para professores, mas tentamos organizar um ambiente de exploração continuada para que o professor viva aquela situação e depois a ofereça ao aluno. Em janeiro (antes dos 100 laptops chegar ao colégio), recebemos 10 laptops e convidamos professores e algumas crianças junto com eles para debater como deveria ser incluído o XO nas aulas.

É verdade que no início dos testes alunos ajudaram professores com dificuldade de mexer no laptop a conduzir aulas?
Aconteceu com uma professora de matemática. Ela contou que chegou à aula e disse estar muito ansiosa por ter que passar as próximas quatro horas com a máquina sem saber exatamente como encaixar o XO dentro da sua aula tradicional. Aí um aluno pediu que ela não ficasse nervosa por que os alunos a ajudariam.

A história exemplifica o novo papel do professor como parceiro. Quanto mais o educador respeitar a criança, ouvi-la, deixá-la falar ou dá-la a oportunidade de escolher o que vai querer estudar, mais a criança o respeitará.

Os laptops servem então para libertar não apenas o aluno, mas também o professor?
Para libertar a cabeça de todo mundo, de alunos, professores, administradores e jornalistas também (risos).

:: Leia mais sobre a atualização tecnológica da educação pública brasileira no especial do site IDGNow!

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