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Duro de matar

Com quase meio século de existência, o Cobol permanece mais vivo do que nunca. E o mercado paga até 12 mil reais para quem conhece a linguagem a fundo

Por Nando Rodrigues, da PC WORLD

14/05/2007 às 15h42

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Com quase meio século de existência, o Cobol permanece mais vivo do que nunca. E o mercado paga até 12 mil reais para quem conhece a linguagem a fundo

linguag_fd_bau_100x120Em 2009 ela completa meio século de vida e, ao que tudo indica, com a saúde em dia. Ainda mais quando se leva em conta que a maior parte das coisas relacionadas à Tecnologia da Informação tem vida muito curta. Não se trata de um equipamento nem de uma aplicação específica e sim de uma linguagem de programação, o Cobol.

Essa longevidade se deve, em grande parte, ao grande número de aplicações escritas nas mais diferentes (ou nem tão diferentes assim) versões da linguagem, que representam uma porção significativa do legado existente nas grandes empresas.

Um estudo da DTS Latin America Technology mostra que programas em Cobol ainda são usados por cerca de 60% das grandes empresas no mundo, percentual que sobe para 90% se pensarmos apenas no segmento financeiro nacional.

Celso Cardoso, diretor da C&C Microinformática, trabalha há 20 anos com a linguagem e resume em três as principais razões dessa longevidade. “Trata-se de uma plataforma extremamente segura, que proporciona enorme legibilidade e, acima de tudo, se documenta sozinha”.

O gerente de produto da DTS, Alexssandro Tolomei, reforça esses conceitos lembrando que o mercado de Cobol está “muito interessante”. Segundo ele, só no segmento de software, 70% da receita da DTS provêm de sistemas em Cobol. “Trata-se de uma das raras linguagens que conseguiram ultrapassar as barreiras da evolução tecnológica. Ela evoluiu, está mais moderna e manteve seu nome forte”, diz.

Carência de profissionais
Apesar desse relativo sucesso, é raro encontrar profissionais jovens e que conheçam ou dominem a linguagem. “Mais de 80% dos profissionais Cobol, hoje, têm mais de 15 anos de experiência”, ressalta Gilberto Faes Jr., presidente da Associação Brasileira de Profissionais Cobol (ABPC). A entidade foi criada em 1998 por profissionais que buscavam trocar experiências. Faes conta que a ABPC tem 2,8 mil associados, a maior parte trabalhando como free lancer.

Ferrenho defensor do Cobol, o professor Renato Fernandez, do Centro Federal de Educação Tecnológica de São Paulo (Cefet-SP), explica que a forma atual como se ministram cursos de linguagens de programação não permite que os alunos adquiram conhecimento aprofundados.

“É impossível dar um curso de lógica ou ensinar uma linguagem de programação como se deve em apenas quatro meses”, diz Fernandez. Ele lembra que, até a década de 1990, essas disciplinas levavam quatro semestres para serem ministradas, possibilitando que os alunos do curso Técnico em Processamento de Dados tivessem uma formação sólida “Por isso, quem conhece Cobol a fundo é a ‘velha guarda’”, reforça.

Dentre as diversas razões que previam a morte do Cobol, estava o fato de ser uma linguagem que ‘parou no tempo’. Ledo engano, segundo Cardoso, da C&C Microinformática. “Existem perto de 50 empresas comercializando compiladores Cobol atualmente. Isto permite que as novas aplicações sejam compatíveis não só com os sistemas legados que rodam em mainframes, mas, principalmente, com tecnologias como Java, .Net etc., tudo orientado a objeto”.

Como o Cefet-SP, algumas universidades mantém o Cobol na grade curricular dos cursos de tecnologia e Ciência da Computação. É o caso do Mackenzie, da Fasp e de algumas Fatecs, como a de Americana e a de Botucatu, ambas de São Paulo, mas são exceções.

Para complementar os cursos de formação técnica (em nível médio ou superior) e também permitir que as novas tecnologias possam ser utilizadas adequadamente, os fornecedores de compiladores Cobol e consultoria oferecem treinamento.

“Para manter-se atualizado, o profissional deve se reciclar, e nesse momento, o papel do fabricante é fundamental”, frisa Faes Jr, da ABPC. Ele explica que esse contato é uma via de mão dupla: ao mesmo tempo em que promove capacitação de programadores, os fabricantes constroem uma relação de fidelidade à sua versão do Cobol.

Em outubro de 2006, a T-Systems, empresa de tecnologia da informação e comunicação que pertence ao grupo Deutsche Telekom, inaugurou um centro Offshore na cidade de Blumenau (SC), onde mantém pessoas treinadas em Cobol.  “Devido a uma necessidade de mercado, decidimos capacitar alguns de nossos profissionais na linguagem. Alguns clientes têm sistemas legados que necessitam de atualizações e melhorias constantes”, explica Ingo Feslau, diretor de Systems Integration da empresa.

Segundo ele, como as universidades não estão capacitando profissionais na linguagem Cobol (mainframe), a T-Systems resolveu investir, ela mesma, nesse treinamento. Além disso, o centro trabalha com o objetivo de dar oportunidade a jovens carentes a ingressarem no mercado de trabalho.

“Apoiamos socialmente o ‘Programa Social Entra 21’, projeto social promovido pela Blusoft (entidade para desenvolvimento do pólo tecnológico de Blumenau), que visa capacitar jovens entre 16 e 25 anos para o mercado de trabalho, custeando cursos no setor de tecnologia”, diz o diretor. No ano passado, 20 dos jovens treinados pela empresa foram efetivados. A T-Systems possui, hoje, 150 profissionais habilitados a trabalhar com Cobol e outros 40 em treinamento.

A DTS, que distribui a versão Cobol da Microfocus na América Latina, também criou um centro de treinamento para Cobol. Localizado no bairro de Alphaville, na Grande São Paulo (SP), o centro promove cursos de Cobol Mainframe com duração de 18 a 27 semanas.

“Fomos praticamente obrigado a tomar essa medida”, conta Alessandro Buonopane, da DTS. A idéia, acrescenta, é ajudar os parceiros corporativos da empresa na formação de mão-de-obra especializada. “Mas também absorvemos parte dos formando. Os melhores alunos de cada turma, com aproveitamento acima de 70%, receberão oferta de contratação imediata”, diz Buonopane.

Salários em alta
A carência de profissionais habilitados leva a uma alta na bolsa de salários. “Um profissional atualizado vale ouro. Caso contrário, ele não vale nada”, frisa Fernandez, do Cefet-SP.

Segundo dados da ABPC, um profissional habilitado em início de carreira tem um salário médio de 1,5 mil reais. “Profissionais de elite podem ganhar muito mais. O mercado financeiro, por exemplo, chega a pagar salários que variam entre 8 mil e 12 mil reais, de acordo com a experiência do profissional”, afirma Faes Jr., da ABPC.

Clipper, quem diria...
É difícil precisar a quantidade de aplicativos escritos em Clipper e que ainda rodem por aí. A linguagem é dos anos 1980 e foi criada pela Nantucket (depois adquirida pela CA) para trabalhar com o dBase, banco de dados da Ashton-Tate.

A Hidrolago, de Cristiano Meira Magalhães, é uma das empresas que ainda têm aplicações escritas na linguagem. Com recursos limitados para investir em TI e tendo que migrar do ambiente Windows – para o qual não possui licenças – para o Linux, Magalhães conta que o aplicativo – um sistema de automação criado para rodar no ambiente DOS – precisou ser portado para a plataforma do pingüim.

“Não foi fácil, mas consegui preservar meu investimento anterior”, diz. Para saber mais sobre este projeto, leia a matéria “Empresa movida a software livre”, na edição de maio da PC WORLD, nas bancas.

O professor de Informática da Universidade Guarulhos, Wagner Tufano, desenvolveu um pequeno programa de computador, também escrito em Clipper, para testar a capacidade de gerenciamento de seus alunos do curso de Administração.

“Como os laboratórios de informática das universidades não costumam permitir que se instale programas no HD dos PCs, eu continuo a aplicar o ‘Jogo das Empresas’ na versão original, que roda em disquetes”, afirma Tufano. No jogo, os alunos aplicam técnicas de gestão em uma empresa fictícia. Ao final do semestre, o professor avalia quem obteve os melhores resultados.

Recentemente, Tufano passou por uma saia justa quando precisou fazer uma alteração no programa. “Acontece que o código fonte estava em disquete e nenhum dos PCs que eu tenho em casa tinha um drive apropriado. Tive de pedir ajuda a uma moradora do meu prédio, que tinha um micro mais antigo e com drive de disquete. Só assim pude transferir o programa para um CD e poder fazer a alteração necessária”, lembra.

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