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Em time que está ganhando não se mexe

Conheça o caso da empresa que resolveu fazer um 'upgrade' no software que funcionava perfeitamente

Artigo enviado por leitor que quer se manter anônimo

04/06/2007 às 18h57

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Conheça o caso da empresa que resolveu fazer um 'upgrade' no software que funcionava perfeitamente

palestra200Há dez anos eu era gerente de TI em uma bem-sucedida empresa de software cujo principal produto era uma ferramenta DOS, voltada para grandes seguradoras.

A aplicação rodava em modo batch, sendo capaz de tratar milhares de registros por minuto. Os dados recebiam algum tipo de processamento e eram, então, enviados para outras aplicações de baixo nível. Tudo de forma precisa e rápida. Éramos líderes nesse segmento da indústria.

Como se esquecessem do ditado que diz que “em time que está ganhando não se mexe”, alguns gerentes começaram a lamentar o fato de não termos uma boa (e bonita) interface gráfica da aplicação para o material comercial.

E mais: sem uma versão Windows do software, a concorrência iria nos devorar. Além disso, o produto precisava ser interativo. Este último me pareceu o mais estranho dos pedidos. Até onde me lembro, nenhum dos clientes tinha tentado usar o produto dessa maneira ou sequer mostrado interesse em uma versão Windows dele.

Argumentei isso com meu chefe, mas ele estava convencido de que a nova versão seria o passaporte para a conquista da liderança mundial. E dediciu que teríamos uma, a todo custo.

Sem equipe própria de desenvolvimento, meu chefe contratou um grupo externo de desenvolvedores de software. Fui designado responsável por esse time, apesar de todos saberem minha opinião sobre a questão.

Ao tabular os custos de reescrever o aplicativo desde o início, meu chefe constatou que seria muito caro e demorado. Mas até para isso os consultores tinham uma solução. A proposta: criar um front-end Windows para manipular o velho e confiável aplicativo DOS, que ficaria em segundo plano.

Comentei que a gambiarra ou quebra galho - que é como os profissionais de TI chamam esse tipo de solução - deixaria o aplicativo muito lento. Mas comparada ao preço inicial, a "solução" era barata, meu chefe adorou (e aprovou) e a equipe trabalhou no desenvolvimento da "solução" por seis meses.

Nosso marketing ainda insistiu para que redesenhássemos os menus, para torná-los mais atraentes no material de vendas. Já havíamos estourado o prazo e o orçamento, e algumas das mudanças tornariam o aplicativo ainda mais difícil de usar.

Novamente, meu chefe concordou. Ao final, o time de vendas e a alta gerência da empresa adoraram a “nova” versão do aplicativo, que, até então, não havia sido mostrada a nenhum de nossos usuários.

Aparentemente, eu era a única pessoa em toda a empresa preocupada com isso. Estávamos prontos e iríamos apresentar o novo aplicativo no maior evento de seguros do ano. E todo um time de vendas estava a postos, pronto para fechar gordos contratos.

Ao mostrar a ferramenta para nossos maiores clientes, que gostaram da interface e do material de vendas, todos apresentaram as mesmas duas dúvidas: “Ele pode rodar mais rápido? Como ativamos o modo batch?”

Ninguém sabia o que responder. Eu quase deixei escapar: “Continuem com a versão antiga!”. Era óbvio que dizer isso não seria exatamente a melhor forma de ascender profissionalmente. Então, resolvi ficar calado e guardei a dica para mim mesmo.

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