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O Big Brother está entre nós

Existência de computadores que vigiam e avaliam comportamentos “inaceitáveis” aumenta cada vez mais e remete a regimes totalitários

Por Mike Elgan, do Computerworld/EUA

27/06/2007 às 12h43

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Existência de computadores que vigiam e avaliam comportamentos “inaceitáveis” aumenta cada vez mais e remete a regimes totalitários

bigbrother_150Ativistas de privacidade têm lamentado o crescimento da vigilância através de câmeras e alertam sobre o abuso das autoridades que possuem acesso a elas. Mas duas tendências prevêem um alarmante futuro.

A primeira tendência é que as câmeras estão cada vez mais monitorando não criminosos engajados em atividades com comportamento tecnicamente legal. A segunda é que um novo software de inteligência artificial está analisando vídeos em busca de comportamentos inaceitáveis.

Além de nos observarem, as máquinas estão julgando o que fazemos.

Outra forma de observar estas tendências com as quais nos deparamos é que estamos começando a direcionar a capacidade humana de ética, moral e bom comportamento como cidadão a sistemas de computador.

Questão de honra

A Troy University, que fica no Alabama e possui aproximadamente 11 mil estudantes online pelo mundo, planeja revelar um novo software que detectará alunos colando durante testes online. O sistema é feito pela empresa Software Secure de Cambridge, Massachussets e custa 125 dólares.

A autenticação através de impressão digital assegura que apenas o estudante registrado fará o teste. O software permite que a escola trave o computador do aluno para que ele não busque respostas localmente ou online. Um dispositivo periférico contém um microfone e uma câmera apontados a uma bola com uma superfície espelhada, que dá uma visão de 360º ao dispositivo. O áudio e o vídeo são enviados pela internet para “processamento” - aí as coisas começam a ficar realmente interessantes.

O software 'escuta' o áudio e 'assiste' ao vídeo e flagra quaisquer barulhos ou movimentos suspeitos. As autoridades da escola ou os instrutores podem checar os resultados e decidir se houve cola.

O Software Secure está divulgando o sistema a muitas escolas e testando as organizações que administram testes.

O que está acontecendo?

Câmeras de vigilância para pegar pessoas desonestas existem há décadas em bancos
lojas de jóias, lojas de bebidas e outros locais sujeitos a assaltos. Geralmente, o material gravado é visto apenas quando houve algum crime. Nos últimos anos, câmeras de “luz vermelha” foram desenvolvidas para testemunhar violações no trânsito.

Em algumas cidades, a polícia colocou câmeras nas ruas, para que, se um crime for reportado, eles possam checar as gravações. Alguns locais públicos, como áreas de segurança em aeroportos, cassinos em Las Vegas e estádios com certeza possuem câmeras para flagrar criminosos.

O sistema anticola da Software Secure poderia ser simplesmente interessante se não fosse parte de uma tendência crescente onde softwares passam a vigiar cidadãos comuns - que não cometeram crimes - para forçar comportamentos éticos e morais.

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E não pára por aí.

O Weymouth and Portland Borough Council em Dorset, na Inglaterra, planeja esconder câmeras de vigilância em cestos de lixo para ter certeza que os residentes colocaram os resíduos no lugar certo e na hora certa. Estas “TrashCams” permitirão que as autoridades municipais elaborem multas de mais de 10 mil libras a residentes que coloquem o lixo no cesto errado ou fora dos horários agendados.

Uma escola em Illinois, em Chicago, nos Estados Unidos, demitiu um segurança por exceder seu tempo de pausa no trabalho. A demissão foi baseada em evidências obtidas através de uma câmera de vídeo escondida na área dos professores.

Cada vez mais, as escolas estão instalando câmeras para espionar estudantes. As justificativas incluem a ação de crimes como vandalismo e roubo, mas as câmeras também podem ser utilizadas para reforçar regras como atraso e ausência.

O funcionamento deste ciclo vicioso

Colocar câmeras por todas as partes para punir comportamento não criminoso é uma boa idéia? Muitos diriam que não.

Mas então, como isto acontece? Geralmente, a ação começa justificando a necessidade de vigilância e a decisão é reforçada na seguinte sequência:

1. Os medos são utilizados para justificativa. Terrorismo e crimes violentos - como os ocorridos em Columbine e Virginia Tech - são usados como exemplo para mostrar a necessidade de ter câmeras espalhadas por todos os lados.

2. O custo é outra justificativa. Colégios e outras organizações acham que as câmeras são econômicas. É mais barato instalar 20 câmeras e contratar um segurança do que contratar 20 seguranças.

3. Quando grandes eventos acontecem no vídeo, viram notícia. Nós ficamos sabendo sobre a maioria dos crimes ou eventos com finais felizes com a ajuda de uma câmera. Estas histórias constroem nossa tranquilidade com relação à segurança e fortalece o ponto de vista de quem quer câmeras vigiando a todos o tempo inteiro.

4. A maior parte das atividades registradas nas câmeras não envolve crime. Uma vez que os aparelhos estão instalados, grandes eventos quase nunca acontecem - mas as câmeras gravam tudo.

5. Os registros estão lá: pessoas fazendo coisas indelicadas, burlando pequenas regras, abusando de privilégios, colando, perturbando alguém, amaldiçoado, cuspindo, gesticulando profanamente, entre outros.

6. Chega o momento da verdade: o que fazer a respeito? A informação que você possui é que as organizações começam a agir a cada violação, mesmo quando a lei sequer foi quebrada.

Por um lado, não há nada errado sobre as pessoas serem pegas por grosserias, atitudes anti éticas, passando cola na sala de aula, jogando lixo na rua ou outras ações insignificantes e desagradáveis.

Por outro lado, nós queremos viver em um mundo onde câmeras e computadores assistem a cada movimento que fazemos e reportam cada mínima violação? Estamos conduzindo um sistema onde multas são aplicadas em casos de profanação, como no filme “O Demolidor”, de Sylvester Stallone?

Não estamos migrando para uma sociedade onde o certo e errado são sinônimos de “pegos no vídeo” ou “não pegos no vídeo”? Alguém chegou a perceber que estamos entrando em um ciclo vicioso de vigilância?

É preciso vigiar os vigias

As novas tecnologias de vigilância são impressionantes e podem auxiliar a localizar muitos crimes e atos terroristas, além de salvar vidas. Mas menos impressionantes são nossas regras, manuais e restrições a respeito do crescente uso de câmeras e inteligência artificial para monitorar pequenos crimes e atividades não criminosas.

Cada caso individual pode ser justificado, mas não há justificativa para nossa cega negligência em relação a uma “sociedade Orwellian”. A expressão é inspirada na obra “1984”, de George Orwell, que discute questões de privacidade e segurança, baseadas no regime totalitário do “Big Brother”. Atualmente, os softwares de computadores são empregados para vigiar e julgar a todos - além de expor, gravar e punir cada pequena violação.

Nós não deveríamos tentar ensinar etiqueta, boas maneiras, ética pessoal e moral através de policiamento digital. Os controles sociais ultrapassados não são perfeitos - não tanto quanto o aumento dos controles digitais pode ser. E é precisamente por esta razão que podemos viver com eles.

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