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A era do computador não acabou

Stephan Wozniak fala da amizade com Steve Jobs e de como criaram a Apple, e conta quais são as suas invenções preferidas

Por Peter Moon, especial para o IDG Now!

18/07/2007 às 18h24

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Stephan Wozniak fala da amizade com Steve Jobs e de como criaram a Apple, e conta quais são as suas invenções preferidas

wozniak200Entre os grandes responsáveis pela revolução do computador pessoal, um dos nomes menos conhecidos do grande público talvez seja o de Stephan Gary Wozniak. A exceção são os macmaníacos, para quem “Woz” é praticamente uma lenda.

Isso não se deve apenas pelo fato óbvio de que ele e o amigo Steve Jobs terem sido os responsáveis pela criação da Apple, em 1976. Se Steve Jobs é hoje o rosto conhecido do público no que se refere à marca da maçã, quem idealizou, projetou e construiu os computadores Apple I e II, aqueles que definiram o futuro da indústria, foi Woz. E ponto final.

Já milionário, Woz se afastou da Apple no início dos anos 1980 para, surpreendentemente, virar professor primário. Mas este californiano brincalhão de 56 anos jamais deixou de dar vazão ao seu espírito criativo.

Nos últimos 20 anos, ele não parou de criar novos produtos e invenções. Tudo isso ele conta na sua recente autobiografia, iWoz - From Computer Geek to Culture Icon, publicada em 2006.

Nesta entrevista exclusiva feita por telefone, Woz fala da amizade com Steve Jobs e de como criaram a Apple, conta quais são as suas invenções preferidas e porque não acredita que os robôs serão inteligentes nem no fim do PC.

Você acredita que a era do PC acabou?
Stephan Wozniak – Essa é uma boa pergunta. E minha resposta é: não, eu não acredito. Em termos simples, as pessoas querem realizar coisas por determinados motivos.

Se você deseja fazer uma análise financeira para a sua empresa, o que faz? Usa um computador para reunir informações. Ainda assim, continuamos usando nossas vozes e nossas mentes para nos comunicar.

Os computadores possuem um teclado para que se teclar e informar o que o computador deve fazer. E o teclado é operado pelos dedos. Por que isso deveria mudar?

Bom, desconsiderando o fato de que hoje se pode procurar instantaneamente uma informação ou encontrar qualquer pessoa no mundo através da internet, o computador continua sendo uma ferramenta versátil que fornece de fato aos seres humanos uma interface com o mundo.

Mas o computador possui outros propósitos. Ele serve para armazenar diversas coisas, música, fotografias, vídeos, e-mail. O computador é tão importante que simplesmente não se pode imaginar a vida sem ele.

Pode-se pensar em algumas coisas como aplicativos sendo usados na web, como o Google Calendar no lugar do programa iCalender do Macintosh.

As pessoas podem usar diferentes aplicativos, mas continuam fazendo basicamente as mesmas coisas com os seus teclados.

Uma visão ultrapassada é aquela que vê o computador pessoal dando lugar a dispositivos menores no celular. Eu também não compro essa, não acredito nisso.

Mas definitivamente não se pode fazer tudo num telefone.++++
Acredita que os criadores do Google, Larry Page e Sergey Brin, são os representantes atuais daquilo que você, Steve Jobs e Bill Gates representavam no final dos anos 70? Ou será que os próximos gênios da tecnologia serão chineses?
wozniak100Stephan Wozniak – Não estou a par do que está acontecendo na China, comparado, por exemplo, com o Google. Dito isso, eu diria que nesse exato instante o melhor equivalente seria o Google.

Não estou dizendo os seus criadores, mas a empresa Google. Ela conseguiu uma boa dianteira, mas quando algo novo aparece, pode surgir em qualquer lugar no planeta.

Seu sucesso se deve aos seus grandes aplicativos e ao modo como os combinam de forma brilhante. Fico imaginando como será que eles fazem para mantê-los funcionando. Eles têm feito um trabalho incrível.

Você se descreve como um inventor e um engenheiro. Quais são as suas invenções mais recentes?
A última minha invenção é uma chave programada para o Segway, que é um dispositivo de transporte sobre duas rodas. É um projeto modesto, mas eu o fiz usando os mesmos padrões que empregava nos velhos tempos.

Além disso, faz alguns anos tive uma start-up que desenvolveu um sistema de monitoramente via GPS. E no final dos anos 80 desenvolvi o primeiro controle remoto universal da história.

Quais dos seus inventos você mais se orgulha?
Acredite se quiser, o que eu mais adoro é a chave programada do Segway, ao lado do drive de disco flexível do Apple II – eu o fiz de modo incrivelmente rápido e totalmente diferente de qualquer um produzido antes dele. Eu o projetei do jeito mais perfeito que poderia ser.

O Apple II foi provavelmente a minha maior invenção. Tive um monte de idéias malucas sobre como transformar coisas que eram muito complicadas, tornando-as muito simples e com um custo muito baixo, reunindo tudo num único computador.

Havia muito mais coisas num único computador do que qualquer um poderia esperar. Ao fazê-lo, criei o padrão de como o computador pessoal seria daí por diante. O mundo mudou naquele dia e nunca mais foi o mesmo.

Também inventei o terminal de vídeo para o Apple I, com o qual podia acessar a antiga Arpanet, a ancestral do Internet de hoje em dia.

Desenvolvi ainda um vídeo game para o Atari num curtíssimo espaço de tempo e projetei um game para o meu celular.

Nos anos 70, antes da Apple, eu montava dispositivos para fazer ligações de graça para todo o mundo através de emissão de sinais sonoros pela linha telefônica. Desenhei um monte de chips para as calculadoras científicas da HP.

É difícil resumir. A lista é longa. Minha vida como engenheiro foi repleta de desafios, apesar de eu ter reduzido o ritmo lá pelos 30 anos.++++
Ouvi falar que você se interessa por robótica, é verdade?
wozniak100Stephan Wozniak – Sim, é verdade.

Pessoalmente, tenho visto surgir robôs assustadores, em especial aqueles desenvolvidos para o Pentágono. Eles se locomovem como se estivessem vivos de verdade. Você acha que a era do Exterminador do Futuro está próxima?
Ela está se aproximando, mas muito lentamente. Estas máquinas que parecem andar usam dispositivos especiais de balanceamento. O modo como o ser humano anda é praticamente impossível de copiar.

Então, essa aproximação acontecerá um pequeno passo de cada vez. Todos estes robôs irão fazer muito bem apenas uma única coisa, mas nunca iremos ver um robô fazer uma xícara de café, nunca!

Pense nos passos que um ser humano precisa dominar para fazer uma xícara de café e verá que eles cobrem basicamente uns dez, vinte anos de aprendizado.

Para um computador fazer a mesma coisa ele terá que passar pelo mesmo aprendizado. Não se podem programar essas coisas, é preciso aprendê-las, é preciso olhar como outras pessoas fazem café. É este o tipo de lógica que o cérebro humano realiza para fazer uma xícara de café.

Nunca veremos surgir a inteligência artificial. Pense no seu cachorro ou no seu gato. Eles são muito mais espertos do que qualquer computador.

Você conta na sua autobiografia que quando conheceu Steve Jobs notou que vocês possuíam personalidades complementares. Você era o técnico enquanto ele tinha a visão de negócios; você era tímido e ele, extrovertido. Quando e como se conheceram?
Foi no início dos anos 70, nos meus anos de faculdade, quando ele ainda estava no colegial. Eu já projetava computadores e um amigo me disse: você precisa conhecer o Steve Jobs, porque ele gosta de eletrônica e também gosta de fazer piadas. Então fomos apresentados.

Nós adorávamos eletrônica e também adorávamos tentar conectar chips. Muito pouca gente, especialmente naquela época, fazia qualquer idéia do que eram os chips, como operavam e o que podiam fazer.

Como eu tinha projetado diversos computadores, estava à frente dele nessa área, mas assim mesmo tínhamos interesses em comum.

Tínhamos uma atitude independente com relação às coisas do mundo, pensávamos por nós mesmos e éramos inteligentes o suficiente para não ir atrás das idéias que estavam na moda, como a contracultura. Steve tinha pouca ligação com a contracultura e eu era totalmente alheio a ela. ++++
Vocês ainda são amigos? Ainda trocam idéias sobre tecnologia?
wozniak100Stephan Wozniak – Sim, ainda somos amigos. Conversamos com freqüência, mas não tanto sobre tecnologia quanto antes.

Quando assisti ao filme Piratas do Vale do Silício, de 1999, fiquei com a impressão de que você era o único cara do bem no meio de um monte de gente do mau...
É claro que para alguns essa visão procede. Pode parecer assim, porque algumas vezes é preciso tomar certas decisões de negócios para fazer as coisas funcionarem.

Acontece que eu era apenas o único cara que não estava fazendo aquilo colocando o dinheiro em primeiro lugar. Eu queria fazer coisas legais, bons produtos para ajudar as pessoas.

Nunca deixei o dinheiro ditar o caminho para onde eu iria. 

Por que você saiu da Apple?
Sendo o tipo de engenheiro que sou, eu projetava coisas do meu próprio jeito, trabalhando sozinho. Mas a companhia havia crescido até o ponto de ter organizado um departamento de engenharia.

Ainda assim, eu podia circular pela empresa e fazer qualquer projeto que desejasse. Mas queria trabalhar com gente de fora, fazendo novos produtos, fazendo coisas para mudar o mundo. Na verdade eu jamais saí da Apple.

Apenas fui criar novas empresas e permaneci como empregado. Nunca deixei de ser empregado da Apple. Até hoje recebo um pequeno cheque todos os meses.

Estou errado quando penso que Steve Jobs voltou-se para o lado escuro da força, quando começou a exigir demais dos funcionários, usando para isso inclusive o artifício da humilhação?
Com freqüência ele agiu com muita inteligência para fazer prevalecer a sua visão no meio de um monte de pessoas muito qualificadas que trabalhavam na empresa quando criamos a Apple.

Fez isto porque muito poucos viam as coisas numa perspectiva tão ampla quanto ele. Ele simplesmente tinha que perseguir e alcançar grandes feitos dentro de um cronograma muito apertado.++++
Você ainda acredita que a Apple estava certa em não licenciar o sistema operacional do Macintosh?
wozniak100Stephan Wozniak – Isso é muito difícil de dizer, mesmo hoje. Pense no iPod e o que ele significa para a Apple em termos de dinheiro.

Para fazer da Apple uma companhia tão importante no setor de computadores, nós tínhamos que fazer muitas escolhas. Se a Apple tivesse licenciado o seu sistema operacional, ainda assim nós teríamos nos tornado tão grandes e tão bons na criação de grandes produtos?

Não se pode olhar para trás e decidir como teria sido o futuro da empresa. Teria dado certo? Não vale a pena perder tempo com isso.

O nosso maior patrimônio advém da lealdade dos nossos consumidores, e muito dessa lealdade deriva de pessoas que acreditam no que é a Apple: uma empresa faz tudo, o sistema operacional, o hardware, os aplicativos, os serviços.

Você possui algum sonho não realizado, como ter netos? Quais valores e virtudes passaria a eles?
Eu tenho três filhos e não procuro influenciá-los com os meus próprios valores. Eu os deixo agirem de forma bem parecida com o personagem do filme Forrest Gump, sendo gentis com as pessoas, fazendo amigos e escolhendo as suas próprias influências.

Vou auxiliá-los nesta direção. É assim que eu fui criado e acredito que é ótimo criar meus filhos do mesmo jeito. E tenho certeza de que serei avô dentro de pouco tempo. Essa é uma das vantagens principais em se ter filhos.

Mas você possui algum sonho não realizado?
Fazer 750.000 pontos no Tetris do Gameboy (risos). Também sonho construir uma casa que seja muito eficiente do ponto de vista de consumo de energia.

Isso acontecerá muito em breve. Ela usará o tipo certo de madeira, montada do modo correto para fazer a casa aquecer no inverno e resfriar no verão. Quando ficar pronta, não será preciso gastar com energia de calefação ou condicionamento de ar.

Adoro este projeto. Ele lembra o modo como eu fazia computadores. E quero construí-la eu mesmo. O projeto deve estar terminado no ano que vem, ou no outro, mas não muito além disso.

Eu li que você está treinando para um concurso de comedores de cachorro quente. É verdade?
Não, nunca ouvi nada sobre disso. Quase sempre quando me entrevistam alguém faz alguma pergunta muito estranha, e eu, às vezes, respondo “Sim”, só para fazer graça.

Mas é uma brincadeira, minha ou de outra pessoa.

Mas está na sua biografia da Wikipedia.
É verdade? Alguém colocou lá. Eu jamais tiraria isso de lá. É muito engraçado! Adorei! Sabe o que mais? Eu adoro cachorro quente desde os tempos de faculdade. (Observação: desde que esta entrevista foi feita, a referência ao concurso foi retirada da página na Wikipedia)

Por fim, uma curiosidade: No seu livro existe uma foto muito estranha com você e Steve Jobs em 1971, mostrando um enorme lençol com o desenho de um dedo médio em riste simbolizando F... Vocês pretendiam estendê-lo na entrada da escola de Jobs no primeiro dia de aula. O que me deixou curioso é que o lençol trazia a frase “Saudações do Brasil”. Por que isso?
(Gargalhando) Escolhemos o nome de um país que os americanos conheciam. Eles poderiam acreditar que aquele sinal realmente significava uma saudação naquele país. Então, simplesmente dissemos: Brasil! Mas era brincadeira. Só brincadeira.

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