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Terceira idade também acessa a internet

Segundo o Ibope, 1,2 milhão de pessoas acima dos 55 anos acessaram a web de casa, mostrando que há um potencial inexplorado na internet

Por Daniela Braun, editora do IDG Now!

24/08/2007 às 15h38

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Segundo o Ibope, 1,2 milhão de pessoas acima dos 55 anos acessaram a web de casa, mostrando que há um potencial inexplorado na internet

vovo150Aos 60 anos, Diva Legnaioli decidiu navegar pelo mundo. Ingressou em curso para a terceira idade, comprou um notebook há cinco meses e mergulhou de cabeça na internet. Veneza, Buenos Aires e o Museu do Louvre estão entre os destinos visitados recentemente pela funcionária aposentada da Prefeitura de São Paulo.

“Não tenho condições de viajar, mas entrei no site de Veneza e fiquei encantada com a música”, conta a internauta que já chegou a ficar das 13h às 19h conectada. “Mas ainda sou meio medrosa e não sei onde vou chegar”, afirma a internauta.

Assim como Diva, muitos brasileiros com idade acima de 55 anos precisam vencer o medo, a desconfiança ou a aversão ao PC para se incluírem digitalmente. Embora a idéia de exclusão digital seja geralmente aliada às crianças, os idosos possuem uma representatividade muito baixa na internet brasileira.

Somente 4% dos brasileiros com mais de 60 anos de idade acessam a web, revela pesquisa do Datafolha, encomendada pelo OldNet - projeto de inclusão digital de idosos da ONG Cidade Escola Aprendiz – no final de junho.

Na internet residencial, segundo dados do Ibope//NetRatings, do total de 18,5 milhões de brasileiros que se conectaram em casa, no mês de julho, 6,5% tinham mais de 55 anos (1,2 milhão de pessoas), sendo apenas 1,4% com idade superior a 64 anos.

Em julho de 2006, a participação dos internautas com mais de 55 anos na internet residencial era de 7,2%, enquanto a faixa etária superior a 64 anos se manteve estável.

Comunicação e informações
Entre a pequena parcela de idosos, que se conectam logo cedo – na média, entre 7 e 10 da manhã -, em suas residências, a internet é mais usada como ferramenta de comunicação e busca de informações.

“Os conteúdos que mais têm afinidade com o público de 55 anos ou mais são comunicação por telefonia IP, bancos, sites oficias como o da Receita Federal, comércio eletrônico e notícias”, observa José Calazans, analista de Internet do Ibope.

O uso da voz na internet ainda reflete o hábito de comunicação vindo da telefonia tradicional. “Os jovens preferem escrever na internet, enquanto os mais velhos buscam a comunicação por voz”, compara Calazans.++++
Salvador Sierra, de 82 anos, usa o e-mail para se comunicar com os netos e fez até um perfil na comunidade Orkut com a ajuda deles. “Mas não é minha praia. Sinto que não é para a minha idade”, confessa.

vovo_tab01Medo de usar a tecnologia nunca foi problema para Salvador. Na década de 80, quando era diretor financeiro de uma construtora, usava o Telex para coordenar projetos internacionais. Pouco depois, como empresário, fazia transferências bancárias ao exterior pelo mesmo sistema de fitas magnéticas.

“Já era um certo tipo de internet”, avalia o morador de Resende, no Rio de Janeiro, que comprou um desktop há quatro anos entusiasmado com um programa de controle de caixa.

O entusiasmo com o computador passou com o tempo. Quando se trata de futebol, por exemplo, o torcedor ainda prefere acompanhar a últimas notícias na TV. “É difícil mudar certos costumes”, confessa.

O Internet Banking é usado apenas para consultas, e quanto se fala em comprar na internet, Sierra revela certo temor. “A internet é um veículo muito interessante, mas o número de problemas e golpes dos quais ouvimos falar é assustador”, afirma.

O receio de fazer compras online é compartilhado por Diva Legnaioli, aluna do OldNet há pouco menos de um ano “Entro no Google e vou metendo bala! Adoro jogos – de trocar a roupa da Barbie até jogar de cartas - mas essa parte de compras ainda não aprendi. Sou meio medrosa. Se aparece alguma coisa que eu não sei, fecho e pronto!”++++
vovo150Medo de compras
Se para os internautas mais jovens, o hábito de comprar online começou a ser construído em 2001, para quem não “nasceu com a mão no mouse”, segundo Pedro Guasti, diretor da consultoria e-bit, ainda há muito medo de inserir dados bancários em um computador e de receber o produto no prazo.

William Keller, de 72 anos, trocou a máquina de escrever pelo computador há dez anos para aprimorar o trabalho da empresa de traduções, que mantém com a esposa. Na hora de comprar um automóvel, entretanto, não troca a avaliação presencial de um especialista pelos cliques.

“Outro dia compramos um purificador de água na internet e não tive receio, mas se vou comprar um carro, gosto de falar com o mecânico. Se vou comprar uma TV quero uma opinião mais requintada e isso não vejo na internet”, compara Keller.

No primeiro semestre de 2007, os consumidores com idade de 55 a 64 anos representam 7% do total de 8,1 milhões de brasileiros que fizeram compras na rede. A parcela com idade acima de 64 anos representa 2% dos e-consumidores.

Em cinco anos, essa mesma faixa etária representava 1% do e-commerce brasileiro, segundo a pesquisa da e-bit.

Para um público que possui tempo e dinheiro – segundo os dados do Ibope, a maioria dos internautas com mais de 55 anos pertence às classes A e B, tem formação superior e pós-graduação – a internet ainda é “excelente opção não se desgastar com trânsito ou problemas de segurança”, ressalta Guasti.++++
O perfil de destes potenciais e-consumidores, no entanto, revela que as lojas online devem trabalhar mais para eliminar o medo dos cliques.

A categoria de Informática representou 30% dos pedidos de internautas com 55 anos de idade ou mais, no primeiro semestre de 2007. Há um ano, representava 21% das compras deste público.

vovo_tab02A segunda categoria favorita dos idosos, Livros, Revistas e Jornais, registrou 28%  dos pedidos desta faixa etária na internet, enquanto a terceira, de Eletrônicos – vídeos, aparelhos de som e televisores – ganhou um ponto de participação destes consumidores, atingindo 23%  dos pedidos no primeiro semestre deste ano.

“É um público com participação de valor mais elevado no e-commerce, mas ainda suscetível à questão da segurança”, observa Guasti. “As lojas online devem continuar trabalhando o mix de produtos para esse segmento”, sugere.

Empurrãozinho
Acessar a internet é o sonho de 41% dos idosos entrevistados pela pesquisa do Datafolha e da OldNet, entre 309 moradores de cidade de São Paulo. Eliminar a fantasia de que o computador é um “objeto do mal” é uma das formas de conectá-los à realidade tecnológica.

Izabel Marques, coordenadora do projeto OldNet, que já formou mais de 200 idosos desde 1998, acredita que, muitas vezes, basta um empurrãozinho.

“Eles vivem um mito de que não são capazes e muitos chegam aqui quase que empurrados pelos filhos. A maioria tem certeza de que é impossível aprender a lidar com o computador”, conta.

Em um ano de aulas semanais, ministradas por adolescentes voluntários de escolas do bairro da Vila Madalena, em São Paulo, os novos internautas da terceira idade ganham mais do que coragem de se conectar.

“Eles aprimoram funções cognitivas, deixam de assinar os jornais para ler as notícias online, fazem turmas, vão buscar velhos amigos e até recebem propostas para voltar ao mercado de trabalho”, lembra Marques citando a história de uma senhora que recebeu duas propostas de emprego após o término do curso. Mais uma amostra de que nunca é tarde para aprender a navegar.

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