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A banda larga agora também é móvel. Qual será a conseqüência?

Operadoras de telefonia fixa correm o risco de perder licença

Por Taís Fuoco, do COMPUTERWORLD

25/10/2007 às 12h01

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O Brasil tem hoje cerca de 111 milhões de assinantes de telefonia móvel, mas apenas 40 milhões de linhas fixas em funcionamento. A disparidade pode se repetir em outra arena, a banda larga, diante da proximidade de opções de acesso que garantam a mobilidade aos clientes.

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Atualmente, o País tem cerca de 6,5 milhões de usuários de banda larga, mas todos atrelados a uma conexão física: ADSL, em sua maioria, e cabo. Diante da necessidade de cobrir uma área maior e de dar conveniência ao usuário, as tecnologias que ganham terreno com cada vez maior rapidez poderão trazer a mobilidade – seja o padrão móvel do WiMax, seja a terceira geração de celular.

Com isso, pode-se esperar um novo embate à vista entre empresas de telefonia fixa e móvel? Como reagirá a Anatel diante desse movimento? O leilão das freqüências de 3,5 GHz e 10 GHz, que as companhias esperam há mais de um ano para levar banda larga a outras regiões do País – hoje cerca de 2 mil cidades das 5.565 do Brasil não têm nenhuma rede de alta velocidade – não prevê a mobilidade, mas, enquanto ele não sai, aproxima-se a versão móvel da tecnologia.

Esperam por esse leilão tanto operadoras que ainda não atuam com banda larga e vêem no WiMax a possibilidade de implantar uma rede mais rapidamente e a menores custos que as tradicionais via cabo e ADSL, como as próprias concessionárias, que esperam ampliar suas atuais coberturas com menores gastos.

O ministro das Comunicações, Hélio Costa, afirmou na Futurecom 2007 que “a próxima prioridade da pasta será o WiMax”, mas acrescentou que, “se a mobilidade já está disponível nessa tecnologia, deve ser incorporada à oferta”. Segundo o ministro, é preciso sempre “buscar a opção que garanta a melhor escolha ao usuário”.

Apesar de ser afeito a uma polêmica, Costa sugeriu que a Anatel refaça o edital, mas evitou opinar sobre o debate que envolve uma possível participação das concessionárias, proibidas pela agência de apresentar propostas, mas autorizadas por força de liminares a disputar as freqüências.

O presidente da Anatel, Ronaldo Mota Sardenberg, afirmou no mesmo evento que o leilão de WiMax “terá de minha parte todo o empenho para ser retomado com a maior brevidade possível”. Segundo ele, com as freqüências, vai se intensificar ainda mais a competição pela banda larga no País.

A agência regulatória, no entanto, não previu a mobilidade para o WiMax. De acordo Sardenberg, não havia nenhuma “mensagem nesse sentido” quando da preparação do edital, no ano passado. “Estávamos trabalhando com mobilidade restrita”, reconheceu.

Para Sardenberg, o debate acerca de mobilidade em WiMax terá de, necessariamente, levar em conta novas regras para o leilão. “Se incluir a mobilidade, o modelo de negócios [do WiMax] passa a ser outro. O preço e as contrapartidas serão outros”, avisa.

É de olho nisso que a Anatel está trabalhando junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) para chegar a um consenso na questão dos preços mínimos praticados e, ao mesmo tempo, “está discutindo internamente como buscar um entendimento” no que se refere às liminares obtidas pelas concessionárias.

As operadoras de celulares comemoram
Não é de hoje que as operadoras de telefonia móvel apregoam que será a terceira geração quem fará, na verdade, a universalização da banda larga no Brasil. Mesmo porque elas já partem de uma base muito maior de clientes.

A TIM, por exemplo, foi a primeira a lançar um serviço de dados que atende mesmo aos usuários que não são seus assinantes no serviço de voz e pode ser acoplado tanto a desktops como a notebooks. Mas apenas o chip do celular, na terceira geração, poderá levar conexões de alta velocidade a qualquer cliente.

Duas companhias já têm suas redes prontas para essa inovação, antes mesmo do leilão, previsto para 18 dezembro deste ano: Telemig Celular e Claro. Ambas utilizaram brechas de freqüências liberadas pelos antigos usuários de TDMA (que migraram para o GSM) e adaptaram sua estrutura para que os clientes possam se conectar a velocidades de até 5 Mbps.

No estado de São Paulo, para efeito de comparação, apenas 10% dos clientes da Telefônica têm hoje banda larga com velocidade acima de 1 Mbps, índice que a operadora prometeu elevar para 90% até o final deste ano, com investimentos em sua rede.

A Anatel, entretanto, não parece disposta a permitir que as companhias passem na frente do seu cronograma. Por isso, não deu o sinal verde para as duas operadoras, sob o argumento que a resolução da terceira geração não previu o uso de freqüências como a de 850 MHz, que Claro e Telemig têm disponíveis. O assunto está sendo analisado pela procuradoria e é possível que o leilão aconteça antes que ele tenha uma solução.

O fato é que, antes ou depois do leilão, as empresas de telefonia móvel acreditam que “a terceira geração de celular vai ser mais competitiva que ADSL e cabo no serviço de banda larga”, como afirma João Cox, presidente da Claro.

Segundo ele, a terceira geração tende a baratear tanto o uso da voz como de dados. “Não será preciso quebrar parede e passar fios, a instalação é muito mais barata”, justifica.

Para Cox, “a terceira geração vai oferecer quase o triplo da velocidade média hoje fornecida pela telefonia fixa, com a conveniência da mobilidade”. Em sua avaliação, o total de usuários de banda larga do Brasil hoje – cerca de 6,5 milhões – “é um absurdo de pouco”.

Mobilidade já
A Brasil Telecom também aposta na mobilidade da banda larga e, por isso, anunciou em Florianópolis a oferta do primeiro celular WiFi do mercado, que estará à venda até o final deste ano.

“Hoje o uso pode ser pequeno, mas esse é um benefício que vai crescer com o tempo”, acredita Ricardo Couto, diretor de marketing da companhia.

A empresa ainda não definiu o preço da novidade, que estará disponível com uma gama de pelo menos quatro aparelhos de celular. Couto, entretanto, ressalta que “o cliente vai querer um benefício financeiro para aderir” à oferta.

Como tem freqüências que lhe permitem oferecer WiMax graças à aquisição da Vant, em 2002, a operadora já implantou redes de banda larga sem fio nas cidades de São Paulo, Curitiba e Porto Alegre.

A estratégia, segundo Couto, é ampliar a rede de cobre onde ela esteja congestionada e, nas novas regiões (como São Paulo), oferecer serviços diferenciados para o mercado corporativo.

Hoje, a Brasil Telecom faz testes com o WiMax nomádico (com mobilidade restrita), mas assim que tiver a homologação da Anatel, avisa que partirá para a versão móvel da tecnologia.

Na avaliação de José Fernandes Pauletti, presidente da Abrafix, entidade que reúne as operadoras de telefonia fixa, ainda que a banda larga móvel avance, “cada um terá seu espaço, sua função”.

O representante das operadoras fixas admite que pode acontecer uma disparada no número de assinantes de banda larga móvel, assim como aconteceu com o de celulares – em relação ao número de linhas fixas –, mas lembra que “o terminal não é tão pequeno como o celular”, já que para a conexão o usuário precisaria de um handheld ou notebook.

Ciente da oportunidade – e do risco para os negócios de sua empresa – da chegada da banda larga móvel, o presidente da Telefônica, Antonio Carlos Valente, admite que “o WiMax é uma janela de esperança para a expansão da banda larga no País”.

Por isso, a companhia quer participar do leilão das freqüências. Em relação à terceira geração, ele reconhece que será uma “nova janela que se abrirá em alguns meses no Brasil”, com a possibilidade de levar as conexões velozes a um número cada vez maior de brasileiros.

“A Telefônica não tem telefonia móvel, mas participa do capital da Vivo, que com certeza deve se preparar para a oferta desses serviços”, ressalta o executivo.
Um fator crucial, entretanto, ainda permanece sem definição: o preço da oferta de serviços de banda larga. Mario Dias Ripper, da F&R Engenheiros Consultores, ressalta que hoje 74,5% dos domicílios brasileiros têm algum tipo de telefone – fixo ou móvel –, mas 27,7% desses só possuem o móvel.

Nas classes D e E, onde ainda há muito espaço para a internet crescer, a renda disponível para telecomunicações é de 6% da receita mensal, ou 48 reais por mês. “Hoje o preço de uma conexão de banda larga ainda está muito acima disso”, pondera o consultor, já que o patamar do acesso com provedor começa em 80 a 90 reais mensais.

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