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Redes sociais: de registro de amigos a sistema operacional online

OpenSocial começa a viabilizar serviços parecidos com sistemas operacionais online

Por Guilherme Felitti, repórter do IDG Now!

08/11/2007 às 10h55

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Em uma romântica mesa de jantar, uma ovelha de costas diz melancolicamente que sua relação com um leão não vai bem, o que faz com que o grande felino esboce uma reação bastante triste à sua frente.

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A justificativa não é a evidente incompatibilidade biológica de ambas as espécies - “eu estou no Facebook, você está no MySpace”, explica ela.

Altamente popular entre geeks, a tira de quadrinhos Blaugh! ainda manteve seu humor mesmo após a chacoalhada que o Google deu no setor de rede sociais com o lançamento da plataforma OpenSocial, oficializada na última semana.

Pela direção que aplicações online vêm tomando, lideradas pelas redes sociais, porém, a ovelha e o leão poderão voltar a desfrutar de seu amor normalmente, independente dos serviços onde cada um deles é cadastrado.

Se o Facebook foi o responsável por provar que abrir o código de um serviço é prova de sucesso, o rival Google se apresenta como apto a usar exponencialmente a idéia a ponto de não mais apenas usar uma rede social para reunir seus amigos.

A premissa é bastante simples: a partir do momento em que houver um padrão para que desenvolvedores consigam criar um aplicativo que rode nas mais diferentes redes sociais, qual é o ponto de se locomover virtualmente quando você concentra tudo o que precisa em apenas uma interface?

Uma amostra da possibilidade já está disponível no Facebook. Após abrir sua API para desenvolvedores em agosto de 2006, o serviço criado por Mark Zuckerberg já conta com mais de 6.700 aplicativos que permitem que seus usuários publiquem recados no Twitter, consultem notícias no Google News, salvem links no del.icio.us e até mesmo gerenciem seu perfil no rival Orkut.

A partir do momento em que sua rede social pode ser usada para acessar outros serviços (serviços rivais, inclusive), ela se transforma na sua interface padrão a partir da qual você balizará sua navegação online. Pense em um desktop - o programa que faz papel equivalente na máquina é seu sistema operacional.

A introdução do OpenSocial é também um potencial veículo para uma idéia debatida constantemente pela blogosfera desde que foi ironicamente apresentada por Zuckerberg - a das pessoas possuírem seus dados pessoais e levarem seus mapeamentos sociais para onde bem entenderem, algo travestido da buzzword “social graph”.

A tecnologia dos Microformatos, por exemplo, que pretende criar uma persona online do usuário por meio da interconexão entre diferentes bancos de dados, pode ser encarada como uma versão primária do que o “social graph” propõe.

Parafraseando Drummond em sua “Quadrilha”, você era amigo de Teresa que conhecia Raimundo que trabalhou com Maria que passou semanas na Europa com Joaquim, tudo devidamente registrado na rede social que você usa atualmente. E, mais importante de tudo, caso o conceito de “social graph” vingue pelo OpenSocial, tudo será facilmente transportável para outros serviços.

“Uma comunidade online é como um bar - o usuário não vai pela cerveja nem pela comida.Vai pelas pessoas que estão ali”, explica Luli Radfahrer, professor de comunicação digital da Escola de Comunicação e Artes (ECA), da USP, destacando ainda a inclusão de funcionalidades extras às amizades.

A própria experiência de Radfaher é exemplo da tendência: dono de uma conta no serviço de customização online Netvibes com 12 abas, o professor afirma que a transição para internet não o deixaria tão triste caso perdesse seu disco rígido.

É a partir apenas do serviço que Radfaher atualiza sua conta no microblogging Twitter ou gerencia modificações na rede Facebook. Isso coloca serviços como Netvibes, Newsgator e PageFlakes como pontos intermediários entre a navegação desvairada e o suposto sistema operacional online das futuras redes sociais.

A principal diferença entre um serviço de customização de conteúdo e o Facebook está na presença dos seus amigos e é aí que pesa em favor das redes sociais a escolha da comunidade - afinal, a rede é o bar popular, e não um restaurante longínquo com um bom prato.

É por este motivo que, na rabeira da fila deste cenário, ficam serviços vendidos como sistemas operacionais online, que, após um cadastro, abrem uma janela para que o usuário interaja da mesma maneira que faz com o software instalado no disco rígido. Além da falta de contatos pessoais, a customização de um sistema fechado é mínima.

“Não temos dúvida de que o OpenSocial pode ser um ótimo veículo para que usuários transitem seus dados pessoais por diferentes redes sociais sem que tenham que se preocupar com padrões”, afirma Zachary John, gerente de produto do Orkut para América Latina.

Até que a previsão de John se concretize nas sete redes sociais atreladas à iniciativa, o OpenSocial tem como primeiro desafio atingir uma massa crítica de aplicativos que faça com que usuários do serviço se sintam atraídos pela novidade.

Esta não parece ser a ameaça para uma plataforma que, além de nascer liderada pelo Google, reunirá mais de 210 milhões de usuários em sete diferentes serviços - uma deles, o MySpace, considerada a rede social mais popular dos Estados Unidos.

Por mais que tenha tido sucesso ao divulgar a API do Google Maps (algo que deu fôlego à moda de mahsups), o buscador esperou que o modelo proposto pelo Facebook, no segundo semestre de 2006, vingasse para apostar na sua comunidade.

No mercado de tecnologia, esta aposta no produto criado pela comunidade atende pelo nome de “crowdsourcing” e apresenta como principal vantagem o fato de ser um serviço de atendimento ao consumidor regido pela ação pregada no movimento punk.

Se você quer um aplicativo que atenda determinada oportunidade, a rede social oferece as ferramentas básicas. Quando o aplicativo fica pronto, além de você aproveitá-la, a comunidade tem acesso a um widget que pode potencialmente corresponder a uma necessidade sua que o administrador do serviço ignorava anteriormente.

A aposta do Google, porém, é muito mais ousada do que simplesmente dar as ferramentas que usuários utilizarão. Seja no OpenSocial ou na recém-lançada Open Handset Alliance, que oferecerá a plataforma Android para celulares, o buscador pretende usar seu poder de barganha com empresas do setor para criar um padrão online aberto a ser usado daqui pra frente.

Nos celulares, o Android é um conjunto de sistema operacional, aplicativos e middleware abertos que poderão ser usados por grandes fabricantes ou desenvolvedores amadores para criar aplicações que possam ser trocadas entre celulares de diferentes marcas.

A movimentação em redes sociais e celulares é uma tendência para a internet como um todo? Para Radfaher, sim. “É uma revolução violenta. Quando houver um grande mashup online rodando, empresas como a Adobe não precisarão mais se preocupar se o Photoshop roda no Windows ou no Mac. O conhecimento experimenta um crescimento exponencial.”

E é exatamente pelo compartilhamento de conhecimento que a internet nasceu e foi sendo desenvolvida, originalmente. O caminho para uma plataforma aberta, apoiada pela justa participação de usuários, que cruze serviços diferentes a partir de uma mesma interface é prova, segundo o professor, da maturidade do mercado de internet. O amor da ovelhinha e do leão agradece.

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