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Jobs ataca o Android, que deve ameaçar o iPad

Depois de combater o iPhone, sistema da Google quer o mercado de tablets

Ricardo Zeef Berezin, do IDG Now!

21/10/2010 às 16h33

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Surpreendentemente, na última segunda-feira (19/10), durante a conferência da Apple para a apresentação de seus resultados financeiros do quarto trimestre fiscal, o CEO da empresa, Steve Jobs, resolveu dar seu parecer – algo que não acontecia há dois anos. A justificativa? “Não poderia deixar de comparecer: é a primeira vez que arrecadamos 20 bilhões de dólares em apenas quatro meses”, afirmou.

Steve Jobs falou por cinco minutos e atacou seus principais rivais. Não, nada de Microsoft. A Apple, aparentemente, dava muito mais atenção a seus produtos para o mercado móvel – setor no qual a participação do Windows é ínfima – do que aos Macs, ou seja, seus olhos estavam voltados para a Research In Motion (RIM), com o BlackBerry, e, principalmente, para a Google, empresa por trás do Android. 

Não foi à toa que o todo poderoso CEO da Apple resolveu comparecer ao encontro; os resultados da empresa, apesar de ótimos, ficaram abaixo das expectativas dos investidores – haja visto que, na última segunda-feira, as ações da Apple fecharam o dia em queda de 6%. Foram dois os motivos principais: primeiro, foram comercializadas “apenas” 4,19 milhões de unidades do iPad, quando a projeção era de cinco milhões. Segundo, justamente os produtos de maior destaque da companhia, o tablet e o iPhone, são os de menor margem de lucro – não que elas sejam ruins. Não é nenhuma coincidência, portanto, que eles, principalmente o primeiro, tenham ocupado a maior parte do discurso de Jobs.

A seguir, os melhores momentos, ou, se preferir, as maiores críticas.

Smartphones
RIM.
“Passamos a RIM, e eu não os vejo se aproximando de nós em um futuro próximo. Eles têm de sair da zona de conforto, explorar territórios que não conhecem direito, se tornar uma companhia de software. Penso que o grande desafio deles será criar uma plataforma competitiva e convencer os desenvolvedores a criar aplicativos para ela, isso depois da popularidade que o Android e o iOS (SO do iPhone) conseguiram. A App Store (loja virtual da Apple) conta com 300 mil programas; a RIM tem uma grande caminhada pela frente”.

Nokia. “Nós queremos ter os melhores dispositivos do mundo, não os que mais vendem. Vocês sabem, a Nokia é a maior - e nós a admiramos por conseguir comercializar e fabricar tantos celulares. No entanto, não queremos ser como eles: eles são bons no que fazem, e nós somos bons no que fazemos. Queremos ter os melhores”.

Android. “A Google adora caracterizar o seu Android como ‘aberto’ e o iOS como ‘fechado’. Nós vemos nisso um pouco de hipocrisia, além de deturpar a real diferença entre as plataformas. A primeira coisa que vem a cabeça das pessoas ao ouvir a palavra “aberto” é Windows, sistema que está disponível para uma grande variedade de aparelhos. Ao contrário do que ocorre com o software da Microsoft, no entanto, que tem a mesma interface em todos os computadores e roda os mesmo programas, o Android é muito fragmentado. A maioria das fabricantes, inclusive a HTC e a Motorola, as duas maiores, alteram o SO para que suas versões se diferenciem da experiência original. Cabe ao usuário descobrir como mexer em cada modelo. Bem, agora compare com o iPhone: todos funcionam da mesma maneira”.

“Na realidade, pensamos que o confronto ‘aberto’ contra ‘fechado’ é só uma cortina de fumaça que tenta esconder a questão principal, que é essa: “O que é melhor para o cliente – fragmentado ou integrado?” Para nós, o Android é demasiadamente fragmentado, e está ficando cada vez mais. Como vocês sabem, a Apple investe no modelo integrado, de modo que o usuário não é obrigado a ser, digamos, o integrador dos sistemas. Nós somos os integradores, e damos valor a isso. Essa é a nossa vantagem contra a Google: ao vendermos para aqueles usuário que querem, apenas, que seus dispositivos funcionem, estamos mostrando que o modelo integrado triunfará sobre o fragmentado”.

Tablets
Tela.
“Quase todos eles (os concorrentes) oferecerão tablets de sete polegadas, em vez das dez polegadas do iPad (...) A medição é feita diagonalmente, ou seja, uma tela de sete polegadas é 45% menor que uma de dez. Vocês me ouviram bem: 45% menor”.

“A Apple já promoveu inúmeros testes em relação à interface ideal, e nós realmente entendemos sobre o assunto. Há limites claros de quão próximo você pode colocar fisicamente os elementos em uma tela sensível ao toque para que isto não comece a atrapalhar a experiência do usuário. Achamos que uma tela de dez polegadas é o mínimo necessário para um bom tablet”.

Tamanho. “Todo usuário de tablet possui também um smartphone; e nenhum tablet pode concorrer com a mobilidade dos celulares (...) Os tablets de sete polegadas, portanto, não são nem uma coisa nem outra: são grandes demais para competir com os smartphones e pequenos demais para competir com o iPad”.

Android. “Quase todos esses novos tablets usam o Android como plataforma, mas a própria Google está dizendo aos fabricantes para não usar a última versão do software – a 2.2 – pois uma atualização especial para eles estará disponível no ano que vem. O que isso quer dizer? Qual é o resultado esperado quando a desenvolvedora do SO avisa que ele não deve ser instalado em tablets e, mesmo assim, as fabricantes a ignoram?

Aplicativos. “O iPad já conta com mais de 35 mil aplicativos na App Store. Esse novos aparelhos aparecerão com nenhum”.

Preço. “Por último, nossos potenciais competidores estão tendo dificuldades em igualar o nosso preço, mesmo com seus tablets tendo uma tela menor e mais barata (...) Nós criamos o nosso próprio chip, o A4, nosso próprio software, nossa própria bateria; tudo é nosso. Como resultado, temos um produto incrível com um ótimo preço”.

Morte antecipada. “Essas são algumas das razões que nos fazem pensar que a safra de tablets de sete polegadas morrerá ao chegar (DoA, na sigla em inglês). Seus fabricantes aprenderão a difícil lição de que seus aparelhos são pequenos demais, e os melhorarão no próximo ano, deixando os primeiros consumidores e desenvolvedores na mão. O futuro nos reserva muita diversão”.

Mercado dividido
A Apple e, principalmente, Jobs, não são nada bobos. Sabiam de antemão que as ações da empresa cairiam vertiginosamente no momento em que anunciassem os resultados do trimestre. No fim das contas, a companhia é vítima de seu próprio sucesso: há um ano e meio, suas ações valiam 80 dólares, hoje valem mais de 310; alta de quase 400%.

Para crescer tanto em tão pouco tempo, a Apple precisou dominar alguns mercados – depois de praticamente criá-los. O iPhone, lançado em junho de 2007, foi o primeiro smartphone a se popularizar entre os usuários finais, pois, antes, esses aparelhos eram voltados principalmente ao setor corporativo – vide o sucesso do BlackBerry. Durante um ano, ele reinou absoluto, até que, em outubro de 2008, o primeiro celular com Android, o G1, foi lançado. Hoje em dia, essa plataforma da Google vende mais, nos Estados Unidos, que o iPhone, e a tendência é que, globalmente, continue crescendo em ritmo acelerado.A Apple não perdeu o mercado – afinal, tem um ótimo aparelho – mas percebeu que terá de dividi-lo. Com a chegada do Windows Phone 7, então, sabe que a competição aumentará ainda mais; não se deve desprezar uma gigante como a Microsoft.

Agora, é a vez de o Android invadir os tablets, outro setor no qual a Apple foi pioneira. Tal qual o iPhone, o iPad, por um bom tempo, aproveitou seu protagonismo solitário, e, assim como ele, deverá ter o mesmo futuro: repartirá o mercado que dominava. Por mais que Steve Jobs tenha feito de tudo para convencer os acionistas que tanto o Galaxy Tab, da Samsung, quanto o Folio 100, da Toshiba, serão um fracasso, ele sabe que em breve os tablets com Android conquistarão muitos consumidores. O que fazer, portanto, para que a Apple continue como a empresa de tecnologia mais valiosa do mundo?

A estratégia de Jobs
A resposta veio com o evento da última quarta-feira (20/10), chamado de “Back to the Mac” (De volta par o Mac). Nele, Steve Jobs anunciou o novo Mac Book Air – fino, lindo e caro - mas essa não foi a principal notícia. O que pode alterar o mercado de notebooks e desktops é que a App Store, a loja virtual da Apple para dispositivos móveis, que em pouco mais de dois anos atingiu a marca de 6,5 bilhões de downloads, estará disponível, também, para qualquer computador com Mac OS X.

Ora, há uma grande quantidade de usuários que não troca o PC por um Apple por causa do baixo número de programas desenvolvidos para ele. A App Store, no entanto, é um tipo de serviço que o Windows não oferece e que já provou ser muito popular. Ela tem potencial para alterar essa dinâmica. Os consumidores, atraídos pela facilidade com que poderão baixar e comprar programas, poderão migrar para computadores Apple, e as empresas, ao observar o movimento, correrão para adaptar seus softwares para o Mac e a App Store.

As vendas de MacBooks e iMac continuam crescendo. Em 2010, já foram comercializados 3,89 milhões, alta de 27% em relação ao ano passado. Aparentemente, atraído pelas maiores margens de lucro, Jobs decidiu investir neles, e acelerar ainda mais esse crescimento. O raciocínio é simples: a Apple perderá um pouco de um lado – mercado de dispositivos móveis – mas ganhará muito mais de outro – mercado de computadores. Se der certo, quem sabe a empresa não se anima, e diminui o preço do Mac Mini no ano que vem?

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