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Linux no desktop é um sonho que acabou

Se fosse para o Linux conquistar de uma vez por todas o seu lugar ao sol, essa época teria sido em 2008; mas isso não estava nos planos do astral.

PC World/EUA

19/10/2010 às 10h27

Foto:

Estamos aqui reunidos para dar adeus às intenções do Linux de
se tornar um sistema operacional para desktops competitivo.

Ele deixa para trás segurança, estabilidade e grandes
avanços de usabilidade, de performance e de compatibilidade. Deixará, também,
saudades e uma legião de fãs que, simplesmente, não vê mais porque usar o
sistema, filho de Linus Torvalds e do Minix, do Unix e de outros queridos
membros da família *x.

Os últimos anos do Linux foram repletos de alegrias. Entre estas
as transformações proporcionadas por seu filho Ubuntu, responsável por
transformar a área de trabalho e por proporcionar uma agradável experiência aos
usuários. Ubuntu, 10.10, também ultrapassou aos primos Mac OS e Windows nos
quesitos de segurança. Já em seu leito de morte, o Linux foi agraciado pela
total e completa falha do Windows Vista e pelo surgimento dos Netbooks. Ainda assim
essa transfusão de poderes não foi suficiente para elevar a participação do
sistema além dos 1% no mercado de sistemas operacionais.

Mas o Linux não morreu completamente. Apesar das versões
voltadas para desktop estarem vagando no limbo, ele permanecerá vivo na memória
dos servidores, que, segundo um levantamento realizado pela Linux Foundation
devem seguir consumindo o software livre mais que os seus primos ricos. Também continuará
vivo em plataformas móveis, como é o caso do Android e em impressoras, em TVs e
tablets.

Aqueles que esperavam ver no Linux uma saída das amarras
comerciais impostas por companhias como a Apple e a Microsoft, queiram se
sentar, pois vamos precipitar uma pá-de-cal sobre a mortalha do sistema
operacional que podia ser encontrado até dentro de caixas de cereal CucrilhuX.

O Linux vacilou

Há alguns anos, tomado pela emoção, declarei que finalmente
havia chegado a hora de o Linux ganhar seu merecido espaço, afinal de contas, o
Ubuntu havia desenvolvido um ambiente desktop à prova de imbecis e de fácil
instalação. Tão fácil de instalar quanto o dos concorrentes Mac OS e Windows. Até
o crítico suporte a hardware, por anos um entrave no caminho de quem queria
rodar o sistema do pingüim, havia chegado a um estágio avançado e assim,
importantes empresas fabricantes de PCs, como a Dell, começariam a oferecer o
Linux pré instalado em suas máquinas.

Ao mesmo tempo, o apreço dos usuários pelo Windows Vista
havia chegado ao fundo do abismo. Para adoçar ainda mais a vida do Linux,
estavam surgindo os netbooks, plataforma ideal para a dominância do SO. Então,
se fosse para o Linux conquistar de uma vez por todas o seu lugar ao sol, essa
época teria sido em 2008. Mas isso não estava nos planos do astral.

A Asus até que tentou, ao inundar o mercado com uma série de netbooks de baixo custo que traziam instalado o sistema Xandros, distribuição
Linux que deixava muito a desejar. Para sorte da Microsoft e do Windows XP,
outros fornecedores de PCs portáteis fizeram a mesma escolha infeliz quando
chegada a hora de decidir qual distribuição Linux viria nas partições /dev/hda1
dos netbooks. Essa seleção pouco inteligente de distribuições Linux é um dos
principais fatores que convenceram os usuários a migrar de volta para o XP ou
abandonar essa esfera e entregar-se ao Mac OS.

Assim que o Windows 7 beta chegou aos balcões virtuais, em
janeiro de 2009, o Linux não passava mais de uma lembrança.

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Por que logo nas distribuições desktop?

Que o Linux perdeu o embalo e deixou de alçar vôo é de
domínio público. Todavia é necessário esclarecer o porquê disso, pois reina a
confusão nos esclarecimentos providenciados por especialistas no assunto. O
sistema não morreu porque era difícil de usar ou por ser obscuro, como bradam aos
quatro ventos os analistas e autoridades de fóruns na Internet. O Ubuntu, aliás,
é prova disso. Ele foi o principal responsável por trazer o Linux das trevas
para a luz com recursos de usabilidade que o colocavam na mesma raia,
lado-a-lado com o Mac Os.

O Linux para desktops está condenado em função de uma
pobreza crítica de conteúdo. Essa escassez encontra seus fundamentos em outros
dois motivos: a fragmentação dos sistemas Linux e a ideologia feroz  que reina entre os membros das comunidades
defensoras da plataforma livre.

As expectativas dos usuários de computador mudaram
dramaticamente nos últimos anos. Ninguém mais se dá por contente com players de
vídeo e de áudio que não executam os arquivos sem reclamar disso ou daquilo. DVDs
e suporte a streaming de vídeo a partir de provedores como a Netfix são
completamente indispensáveis a qualquer computador. Infelizmente as políticas
de código aberto afundaram esses planos para a plataforma Linux.

“Eu sonho com o dia em que o software de código aberto
atendas às expectativas de entrega de conteúdo dos usuários”, confessa o
desenvolvedor de longa data e vice-presidente de marketing da empresa
especializada em streaming de vídeo Brightcove, Jeff Whatcott. “Mas parece que
esse sonho não vai se realizar”, diz.

“Fato é que a gestão de direitos digitais não permeia a
planilha de intenções da comunidade de código aberto”, diz Whatcott. Se essa
questão não for abordada com seriedade por parte do Linux e de seus usuários, a
indústria não tem a menor intenção de incluir o Linux na lista de amigos. E,
mesmo que a comunidade dê o braço a torcer, é vital que se entenda o
comprometimento para lá de mafioso que reina na arena das patentes e que faz “das
alternativas de código aberto uma plataforma pouco provável de receber atenção”,  afirma Whatcott.

Algo parecido acontece com conteúdo Flash. Whatcott foi um
dos responsáveis por trazer os formatos da então Macromedia, de que foi gerente
de produtos, para o Linux. Ainda assim a qualidade da experiência dos usuários
Linux é baixa.

A irrelevância dos sistemas Desktop

“A batalha entre aplicativos instalados em desktops e
aqueles disponíveis na nuvem já tem um vencedor”, afirma o CEO da Particle
Code, empresa voltada ao fornecimento de plataformas cruzadas para desenvolvedores
de soluções mobile, Guy Ben-Artzi. “Tudo se move em direção da web. Se eu for
escolher um rumo para o desenvolvimento do Linux, diria que o negócio é esquecer
os aplicativos para desktop e procurar soluções off-premise (que rodam a partir
da nuvem)”.

O CTO da Lookout, fornecedora de soluções como o antivírus para
smartphones Android, Kevin Mahaffey, concorda com a opinião de Artzi. “O
sucesso do Linux como sistema operacional desktop depende da experiência do
usuário no ambiente virtual”, diz. No vácuo dessa alegação, Mahaffey emenda que
“o HTML5 e sua expansão devem proporcionar aos usuários experiências sem
igual outras plataformas”.

De acordo com todos os presentes (minhas fontes) no velório
do moribundo Linux, o HTML5 é a única esperança para o sistema. Mas isso, só se
a questão de gestão de direitos digitais for solucionada assim, em um passe de
mágica.

Whatcott tem uma perspectiva para lá de inovadora. Segundo
ele “o iOS pode salvar o Linux...indiretamente”. “A Brightcove (empresa de Whatcott)
investe pesado no desenvolvimento de produtos voltados ao código HTML5, com  foco voltado ao iOS”.

O futuro é mobile

“Esqueça o desktop”, adverte o diretor do departamento de
código aberto da HP, Phil Robb, aos desenvolvedores Linux. “Se existe algum lugar
para concentrar esforços, ele se chama plataforma móvel”.

Para Robb, os desenvolvedores deveriam se concentrar em áreas
em que o Linux é realmente forte. “Ele já mostrou seu poder para dispositivos
pequenos e móveis e é nesse segmento que deviam (os programadores) se
concentrar. No mobile, a vitória é certa”.

A opinião de Robb tem fundamento. Muito antes de o Android
surgir, a LG e outras companhias se voltaram ao Linux para equipar seus
smartphones.

Ao mesmo tempo, o Linux surge como saída para dispositivos
como as Web-TVs. Mas a relação do Linux com essas plataformas se distancia do
modelo de código aberto, pelo qual é famoso. A customização dos sistemas nesses
dispositivos não ultrapassa a configuração de menus.

Será o fim da linha?

Desde que Linus Torvalds escreveu o primeiro Kernel em 1992, muita
água passou por debaixo da ponte. O sistema melhorou e as distribuições ficaram
mais abrangentes.

Mas chegamos a um ponto na trajetória do sistema
operacional, em que as evidências contra a permanência do Linux em nosso meio são
fortes. Mercado estagnado e falta de conteúdo jogam a favor dos rivais Mac OS e
Windows, contra os quais o Linux não terá a menor chance.

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