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Netbooks contra o iPad: uma batalha que pode nem vir a ocorrer

Há quem diga que com a chegada dos tablets os netbooks caminham para a extinção. Mas uma análise do mercado sugere que pode não ser bem assim.

Computerworld/EUA

09/09/2010 às 21h43

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O termo “disruptivo”, bastante comum no jornalismo de
tecnologia, é usado tipicamente na descrição de algo que faz as pessoas mudarem
seus hábitos, fornecendo a elas novas formas de fazer coisas antigas e também
permitindo novas tarefas.

Além de resistir bem ao tempo, a expressão se encaixa
perfeitamente quando tratamos de dois produtos arrebatadores da computação
pessoal: o iPad e o netbook.

Tem havido muito debate sobre se o iPad tomará o lugar do
netbook – ou se, por sua vez, ambos continuarão comendo fatias de mercado dos
desktops e laptops convencionais.

Os netbooks já formam um mercado próprio, separado dos
outros PCs. Mas o iPad tem uma longo caminho a percorrer antes que se torne um
matador de netbooks – e tal caminho passa necessariamente por criar um espaço
próprio para si.

O velho, de novo
De certa forma, nem os netbooks nem os iPads são novos.
Laptops pequenos e tablets já estavam disponíveis bem antes do lançamento
desses novos aparelhos. Mas o que fez toda a diferença foi o grau de adequação
e o polimento aplicado a esses produtos.

Por exemplo, a tecnologia atual tornou possível oferecer
recursos de comunicação muito melhores que os de antes. A popularização das
redes sem fio de alta velocidade, tanto por Wi-Fi como por redes de celular,
tornou muito mais fácil levar esses aparelhos por aí sem ser limitado pelo que
está realmente no disco rígido.

Além disso, para muitos usuários, os PCs desktop estão
perdendo o lugar para laptops de alto desempenho. A cada ano que passa, o
abismo de desempenho entre uma máquina “pequena” e uma “grande” diminui mais e
mais. E, como a força bruta tem cada vez menos importância, a conveniência e a
conectividade importam bem mais.

Ascensão e queda dos netbooks
Quando os netbooks apareceram no fim de 2007 – um mercado
nascido a partir do lançamento do Eee PC 701, da Asus -, as vendas desses
aparelhos cresceram 872%, de acordo com o analista Mikako Kitagawa, da Gartner.
Por um tempo, pareceu que as vendas de PCs comuns iriam se diluir em netbooks e
que o primeiro sairia perdendo.

Mas as coisas ficaram mais mornas desde então. No primeiro
trimestre de 2010, os netbooks e minilaptops representaram 18,4% das vendas
globais de PCs. Pouco antes do lançamento do iPad, Cliff Edwards, da Bloomberg
Businessweek, escreveu que a explosão das vendas de netbooks em 2008 havia sido
alimentada pela recessão, mas que os consumidores “se desapontaram com teclados
pequenos, sistemas operacionais desconhecidos e a pouca variedade de programas
que poderiam ser executados nessas máquinas”. (Este comentário foi
provavelmente dirigido aos muitos exemplares da primeira geração de netbooks
que vinham com Linux.) “Depois de uma ascensão admirável”, continuou, “a
popularidade dos netbooks podem já ter atingido seu pico”.

E surge o iPad
Não há como negar que o iPad tem, mais que qualquer outro, o
poder de chamar a atenção. É um definidor de tendências. Mesmo antes que o iPad
fosse lançado, surgiram especulações de que produtos concorrentes pudessem
estar a caminho.

Em contraste com os netbooks, o iPad parece passar por um
crescimento estável e constante em sua popularidade, da mesma forma que muitos
outros aparelhos da Apple – que se tornaram líderes em seus segmentos com tal
força que parece impossível desbancá-los.

O iPhone e o iPod podem não ser os maiores em venda em seus
respectivos mercados, mas contam com uma lealdade de marca incrível. Fãs de
qualquer versão de um desses aparelhos quase sempre compram a próxima – uma
tendência que parece continuar quando uma nova edição do iPad for lançada.

Embora as vendas iniciais tenham sido impressionantes, não
está claro quantos usuários não-Apple escolherão o iPad. Um ponto de referência
possível é quantos produtos auxiliares da Apple – o iPhone e o iPod – foram
usados por pessoas que não eram usuários de Mac.

No Household Penetration Study 2009 do NPD Group, 36% dos
domicílios que tinham um PC tinham um iPod – o que, dada a porcentagem geral de
Macs em comparação com computadores de outras marcas, significa que há grandes
chances de existirem um bom número de usuários de PCs Windows com iPods.

Além disso, de acordo com a analista Ezra Gottheil, da
Technology Business Research, o número de aparelhos Apple que não são Macs
supera em 5,6 vezes o número de Macs – mesmo levando em consideração aqueles
usuários de Mac que podem possuir mais que um aparelho não-Mac, esse dado
inclui um bom número de usuários de PC.

Dito isso, aqueles com um investimento existente em um PC
com Windows e seus softwares podem não optar pelo iPad quando podem ter um
laptop completo pelo mesmo preço ou até por menos. Ou podem. Como Gottheil
afirma, “a escolha de um aparelho depende mais do uso que do usuário”.

Em outras palavras, não é sempre possível prever qual uso
terá um segundo computador com base no que eles já usam.

Se os usuários de Windows escolherão ou não o iPad, será
ainda mais complicado pela introdução iminente de tablets equipados com
sistemas Android e Windows 7. É difícil dizer que impacto terão, especialmente
porque não está claro como eles enfrentarão seu maior rival comum, mas há poucas
dúvidas de que o iPad definiu um exemplo a seguir, e possivelmente superar.

Os iPads vão substituir os netbooks?
Poucos analistas acreditam que o iPad vai canibalizar as
vendas de netbooks, laptops e desktops de forma significativa. “O iPod Touch
foi provavelmente a maior vítima das vendas do iPad”, diz Gottheil. “A
canibalização de outros aparelhos, incluindo smartphones e netbooks, aumentará
à medida que o mercado migre dos early adopters, que tendem a comprar tudo que
é lançado, para os compradores que buscam preencher necessidades específicas. À
medida que tablets novos e mais baratos cheguem ao mercado, eles darão uma
mordida maior no mercado de netbooks.”

O analista Paul Thurrott, que acompanha há tempos o mercado
Windows, chegou a uma conclusão parecida em seu blog, em maio. Ele citou um
artigo do Wall Street Journal que afirmou que os netbooks perderam um pouco de
seu impulso no ano passado por causa de laptops mais poderosos e leves, que são
frequentemente utilizados como auxiliares e substitutos de máquinas desktop.

Em resumo, as mudanças no mercado de netbooks não podem ser
atribuídas totalmente ao iPad. Há sintomas das limitações naturais de mercado
para esses aparelhos. Poucas pessoas esperavam que o crescimento original dos
netbooks fosse se sustentar (como, de fato, não ocorreu).

Da mesma forma, ninguém espera que o mercado de laptops e
desktops seja subjugado nem pelos netbooks, nem por tablets.

Resta a possibilidade de que as vendas futuras (não as
atuais) de netbooks estejam em risco. Se no fim do ano as vendas do iPad
atingirem 6 milhões (as vendas estão atualmente superando 3 milhões, e
subindo), isso significaria um décimo das vendas projetadas para netbooks no
ano.

De novo, não está claro que tais vendas ocorreriam às custas
dos netbooks; independentemente dos hábitos de compra do usuário, o mercado de
netbook permanece com uma maior ordem de magnitude. Mas a Apple está menos
preocupada em liderar todo um mercado; o que ela quer mesmo é vender uma marca
ardentemente desejada.

Complementares, não substitutos
Os netbooks e o iPad têm sido descritos tipicamente como
aparelhos “complementares”. Eles geralmente não substituem um computador
principal, mas são um adjunto. Eles permitem às pessoas efetuaram tarefas
básicas de computação e conectividade quando estão fora de casa ou do trabalho,
sem carregar peso desnecessário.

Contudo, a capacidade média dos netbooks tem aumentado
dramaticamente desde sua introdução – e, com ela, a forma com que netbooks
complementam seus parceiros desktops (ou notebooks maiores).

Com os netbooks, a principal restrição não está no poder de
processamento ou no armazenamento, mas no tamanho da tela. Muitas pessoas não
os usam para trabalhos que exigem uma tela maior ou várias telas. O fato é que,
enquanto estão longe de seus computadores principais, eles têm acesso à ampla
maioria de programas que eles normalmente usam mais que compensa.

O mix de aplicações para o iPad também reflete sua natureza
complementar. Enquanto muitos dos top apps do iPad são games ou leitores e
tocadores de um tipo ou outro – Netflix, iBooks, USA Today – três dos apps mais
baixados para o iPad, em abril de 2010, foram apps de produtividade: Pages,
Keynote e Numbers, todos da suíte iWork da Apple.

É provável que os usuários do iPad não estejam baixando
esses programas para criar conteúdo tanto quanto para acessar e editar conteúdo
existente – por exemplo, para levar uma apresentação para viagem.

Dito isso, quando as pessoas têm um laptop como seu PC
primário – algo que tem ocorrido com frequência – eles podem optar por pular um
aparelho auxiliar inteiramente, especialmente se o que eles já têm é portátil o
suficiente para suas necessidades.

Criar e consumir
“Forma segue função” é um velho ditado sobre design. Mas o
inverso também é verdadeiro: função segue forma. Isso se aplica especialmente
ao iPad, de acordo com alguns. “O iPad não é projetado para criação de
conteúdo, mas sim para consumo de conteúdo”, alega Kitagawa.

Mas será que os “consumidores” optariam pelo iPad e os
“produtores” por netbooks, por causa de seus respectivos designs? É uma teoria
tentadora, já que seria bem fácil prever quem iria querer o que.

O problema dessa ideia é que “produtores” e “consumidores”
não são categorias estáticas. As pessoas trafegam livremente entre os dois
papéis todo o tempo, mesmo no curso de suas atividades.

Um programador com uma Workstation de duas ou três telas
pode optar pelo iPad como seu aparelho secundário porque ele não quer mastigar
código quando está distante de seu PC. Da mesma forma, alguém que lê e-books
fora de casa pode optar por um netbook porque o teclado permite fazer anotações
ou escrever críticas do livro.

E, apesar de o iPad não permitir criação de conteúdo da
mesma forma que um netbook, ela está fazendo novos tipos de criação de
conteúdos possível. Pense no SketchBook Pro da Autodesk, um app de desenho que
permite aos usuários criar arte com qualidade admirável apenas com os dedos –
algo que só é possível na tela touch screen do iPad.

Em outras palavras, o argumento “produtor versus consumidor”
que tem sido tão popular não deixa de ser um tipo de previsão falha.

Todos os apps, alguns apps
Um grande contraste entre o iPad e os netbooks geralmente
tem a ver com onde eles conseguem seus apps. Os netbooks com Windows podem
rodar quase todas as aplicações Windows; eles são abertos. O iPad, com sua App
Store, é fechado em nome da criação de uma experiência de uso altamente
gerenciada e mais leve.

Como os usuários reagem a isso parece envolver como eles
veem o aparelho de modo geral. Se eles veem o iPad como uma versão maior do,
digamos, iPhone (que sempre contou com sua própria coleção de app
proprietário), isso é menos sujeito a críticas. Se eles o veem como um
equivalente ao laptop e consequentemente esperam algum acesso a seus apps
existentes, será mais fácil se aborrecer.

Baseado na rota que o iPad tomou até agora, parece provável
que, em vez de imitar os netbooks, laptops ou desktops, ele continuará a existir
em sua própria categoria e será moldado pelos tipos de aplicações que estão
sendo desenvolvidas especificamente para ele.

Para onde iremos?
Agora que os netbooks encontraram seu nicho como aparelhos
de viagem em vez de substitutos de PC, e que o iPad já é um definidor de
tendências, o que virá a seguir?

Por um lado, as vendas de desktops não estão sendo afetadas
por quaisquer dessas tendências. O mais provável é que as vendas de netbooks e
de iPads possam ajudar o mercado de PCs primários no longo prazo.

Gottheil descreve dessa forma: “Os netbooks afetam algumas
vendas de PCs mais baratos para compradores sensíveis a preço, especialmente em
mercados emergentes. Mas eles também expandem o mercado de PCs de baixo custo por
reduzir os preços de entrada, assim o efeito liquido nos PCs primários é
positivo. O mesmo será verdade quando os tablets mais baratos entrarem no
mercado. Aparelhos portáteis úteis não-PC irão melhorar as vendas de desktops,
à medida que os compradores escolham colocar lado a lado um aparelho
estacionário maior e um portátil.”

Pode levar dois ou mais anos para que o mercado de tablet
alcance um preço competitivo, mas o efeito nos preços de PC já é claro. Eles
forçarão a baixar ainda mais. O que é mais difícil de prever é como os modelos
de dois ou mais aparelhos irão superar aqueles que compram um aparelho portátil
como sua única máquina, relegando o desktop completo – o fator de forma PC
padrão – a um nicho entre muitos.

A ameaça mais disruptiva provocada pelo iPad é que ele ainda
está no processo de descobrir e cultivar seu nicho. A presença estabelecida de
netbooks – e a introdução de pranchetas no estilo do iPad – não permitirá que
essa disrupção continue sem mudanças.

O que realmente tem chacoalhado o mercado de computadores – e
que inclui a presença continuada de netbooks – é como a diversidade de
computadores que há lá fora se tornou tão ampla que nenhum fator de forma é o
padrão. Netbooks não serão os bestsellers de outrora, mas só porque eles serão
um fator de forma entre vários – com cada tipo carregando potencialmente o
título de computador primário para uma diferente classe de usuário. Um tamanho
único não tem mais que vestir a todos.

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