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“Nós amamos o código aberto”, diz Microsoft

Aos poucos, dona do Windows constrói sua imagem de amiga e colaboradora do open source. Por que?

Network World/EUA

23/08/2010 às 18h56

Foto:

Todos do mundo Linux lembram-se do famoso comentário do CEO
da Microsoft, Steve Ballmer, de que o Linux era um “câncer” que ameaçava a
propriedade intelectual da Microsoft.

Ballmer ainda é o CEO da Microsoft, mas o comentário ocorreu
em 2001 – tempo que, em termos de tecnologia, equivale a décadas. A empresa não
voltou atrás em sua declaração de que o Linux viola suas patentes – não
oficialmente -, mas pelo menos um executivo da Microsoft admite que a posição
beligerante assumida no passado pela empresa foi um erro.

A Microsoft quer que o mundo entenda que, sejam quais forem
suas rusgas em relação ao Linux, ela não tem mais qualquer implicância com o
código aberto.

Principais marcos
Em 2010 a Microsoft empenha-se em não ser o inimigo público
número um dos defensores do código aberto. Em alguns casos, ela contribui
ativamente com código aberto; em outros, ela promove a integração entre os
produtos da Microsoft e o software open source.

“Nós amamos open source (código aberto)”, disse Jean Paoli, da Microsoft, em
uma entrevista recente à Network World. “Nós temos trabalhado com código aberto
por um bom tempo.”

O erro de tornar todas as tecnologias de código aberto
equivalentes com o Linux foi “cometido realmente muito cedo”, disse Paoli. “Isso
ocorreu, de fato, há um bom tempo. Nós entendemos nosso engano.”

Paoli é o gerente geral da equipe de estratégias de
interoperabilidade da Microsoft – cabe a essa equipe lidar com questões de
código aberto. Veterano que trabalha há 14 anos na Microsoft, Paoli também é
cocriador da especificação XML.

O mais recente trabalho de Paoli envolve uma nova iniciativa
da Microsoft de promover a interoperabilidade entre os componentes fundamentais
das redes de nuvens. A iniciativa, detalhada em julho na O’Reilly Open Source
Convention, tenta promover a portabilidade de dados; o uso de tecnologias
baseadas em padrões; a facilidade de migração e de instalação em redes de
nuvens; e a oferta de opções para o desenvolvedor.

A iniciativa não é estritamente um projeto de código aberto,
mas ilustra a evolução do relacionamento da Microsoft com tecnologias abertas.
A Microsoft parece conduzir um esforço concentrado para agradar a parcelas da
comunidade de código aberto, e a empresa poderia se beneficiar desse jogo de
relações públicas em contraste com posições impopulares como as da Oracle, que
encerrou o projeto OpenSolaris e processa a Google pelo uso de Java de código
aberto no Android.

Ainda há críticas para a atitude da Microsoft em relação ao
código aberto, e a Microsoft golpeou-se a si mesma em 2007 quando alegou que o
Linux e outros softwares de código aberto violam uma impressionante lista de
235 patentes da Microsoft. E, em 2008, segundo algumas fontes, Bill Gates
afirmou que as licenças de código aberto foram feitas para assegurar que “ninguém
possa melhorar o software”.

A Microsoft também entrou no ano passado com um processo de
patentes contra a Tom Tom, fabricante de produtos de GPS, forçando-a a pagar
taxas de licenciamento, e foi capaz de forçar a HTC a pagar royalties sobre o
uso do Android.

Microsoft e a “TI mista”
Mas Paoli diz que a Microsoft reconhece que seus clientes
usam uma mistura de tecnologias proprietárias e de código aberto.

A Microsoft liberou algumas tecnologias sob sua própria
licença de código aberto (a “Microsoft Public License”), como a IronRuby, que
integra código .Net com a linguagem de programação Ruby.

“Hoje, realmente, o mundo gira em torno de uma TI mista”,
diz Paoli. “Hoje a realidade é que muitos clientes, se não a maioria deles com
quem tenho contato, usam Oracle e Red Hat e Microsoft e IBM e VMware e Google,
etc. Tudo isso aponta para o que chamamos de TI mista. Você tem, juntos, software
comercial e de código aberto, em muitos, muitos casos.”

A disputa de patentes iniciada em 2007 pela Microsoft não pesa
muito. Ela sugeria a definição de uma posição mais dura em questões de licenciamento
e propriedade intelectual, mas depois de seu revés público a Microsoft
tornou-se mais sábia sobre como abordar questões que envolvem o Linux e código
aberto, diz o analista Jay Lyman, do 451 Group.

“Penso que seria difícil, se não impossível para a
Microsoft, seguir adiante”, diz Lyman. “Solicitaram à empresa que citasse quais
patentes foram violadas e eles nunca levaram isso muito longe.”

Com o aumento da popularidade do Linux, a Microsoft
voltou-se diretamente à comunidade Linux em busca de reconciliação. Ela
submeteu o código fonte de drivers para inclusão no kernel do Linux, com a
intenção de oferecer “os ganchos para qualquer distribuição de Linux rodar no
Windows Server 2008 e sua tecnologia de hipervisor Hyper-V”, como informou, na
época, a Network World. A submissão de código tinha de ocorrer sob a mesma
licença GPL, a mesma que havia sido criticada por Bill Gates.

Dois meses depois dessa decisão, a Microsoft foi criticada
por Greg Kroah-Hartman, líder do projeto de driver Linux que aceitou o código
da Microsoft. Kroah-Hartman informou que “os desenvolvedores da Microsoft
parecem ter desaparecido, e ninguém responde aos meus e-mails”.

Mas a Microsoft apareceu e tudo parece estar bem agora.

“Do meu ponto de vista, tem sido ótimo”, disse Kroah-Hartman
em à Network World, por e-mail. “O código está na principal árvore do kernel, a
Microsoft continua a enviar correções, alguns novos recursos foram incluídos por
outros desenvolvedores e tem havido um número de patches da comunidade para
consertar alguns dos problemas mais óbvios do código”.

Apesar dos problemas iniciais, Kroah-Hartman diz agora que “não
posso me lembrar de nada negativo sobre este projeto”.

Olhando para o futuro, Kroah-Hartman diz esperar “mais do
mesmo. Correções continuam a ocorrer, o código torna-se mais depurado e, com o
tempo, será movido da árvore de estágio para seu próprio subdiretório na porção
principal do kernel. Tudo isso enquanto as pessoas usam o código diariamente.”

Ao ouvir o comentário de Paoli, de que a Microsoft ama o
código aberto, Kroah-Hartman disse: “É uma bela frase, gosto dela.”

Mas, enquanto o projeto de driver Linux parece ser um
sucesso, isso não significa que toda a “comunidade open source” esteja pronta
para considerar a Microsoft uma amiga. O código aberto é uma concepção de
desenvolvimento de tecnologia e, para alguns, uma filosofia. Por sua natureza,
o código aberto não pode ser representado por uma única voz.

“Você precisa ter cuidado com o termo ‘comunidade open
source’”, diz Kroah-Hartman. “É um grupo grande, que opera de forma
independente e tem suas próprias visões e objetivos. Tudo que posso representar
é minha própria visão como membro da equipe de kernel do Linux e como um
desenvolvedor que cria diferentes distribuições de Linux. Assim, nesse ponto de
vista, é bacana ver a Microsoft tornando-se parte da equipe de desenvolvimento
do kernel Linux. Eles têm respondido a relatórios de bugs enviados por usuários
e outros desenvolvedores e interagem bem com eles, o que caracteriza, sob meu
ponto de vista, um ‘relacionamento’ muito bom.”

Relacionamento ampliado
A relação da Microsoft com o código aberto é apenas
superficial, argumenta Matt Asay, principal executivo de operações (COO) da
Canonical, distribuidora do Ubuntu Linux, em uma coluna para o site The
Register.

“Uma grande aposta que a Microsoft deveria fazer é em código
aberto; essa é a ferramenta dos despossuídos, e este é um rótulo que começa a
colar na gigante de Redmond”, diz Asay.

A Microsoft “precisa ir mais fundo no Linux”, não pela troca
do Windows pelo Linux mas pela “aquisição do negócio SUSE Linux da Novell e
pelo foco total em mobilidade”, acrescenta Asay (embora talvez ele queira
simplesmente que a Microsoft tire do mapa um de seus competidores).

“O código aberto oferece à companhia um modo de manter seus
bilhões em Windows e Office ao mesmo tempo que abre caminho para seus próximos
negócios de um bilhão de dólares ou mais. É uma grande aposta, mas se
considerarmos as falhas com o KIN e com o Zune, será questão de tempo para a
Microsoft assumir um risco muito maior em código aberto”, conclui Asay.

Se a Microsoft mergulhará mais fundo em código aberto é uma questão
em aberto, mas uma voz proeminente em software diz que a guerra entre a
Microsoft e o código aberto é coisa do passado, em parte porque a Microsoft não
poderia destruir o código aberto - mesmo se quisesse.

“A batalha está perdida”, disse ao jornal Guardian Mitch Kapor,
que fundou a Lotus Software, a Electronic Frontier Foundation, a Open Source
Applications Foundation, e ajudou a criar a Mozilla Foundation.

“No nível dos detalhes, há um milhão de questões a serem
trabalhadas – mas o código aberto vai matar o software? Ninguém está dizendo
isso”, afirmou Kapor à época.

Ganhar com erros
A Microsoft tem uma oportunidade de melhorar sua reputação entre
os defensores do código aberto em parte por causa dos erros de relações
públicas da Oracle - que, como foi dito, está encerrando o projeto OpenSolaris
e processa a Google pelo uso de Java.

O mais grave em relação à Oracle é que a empresa já tinha
abraçado a causa Linux associando-se a organizações de código aberto,
contribuindo para o código Linux e oferecendo apoio ao Linux nas empresas, diz
Lyman.

No caso do processo sobre Java, a Oracle aparece
publicamente atacando a comunidade de código aberto em geral, mesmo que seu
alvo específico seja a Google.

Pelas suas ações, a Oracle faz a Microsoft parecer boa, diz
Lyman.

“É bom, para a Microsoft, que a Oracle seja vista como
inimiga do software open source”, diz. “Muitos observadores veem no comportamento
da Oracle o tipo de situação que deixou a Microsoft com problemas. A Oracle
provavelmente teria feito um trabalho melhor se cuidasse para que ninguém
pensasse em atacar o código aberto”.

Olhando para o futuro, a Microsoft ainda terá de lutar para
equilibrar as necessidades de seu negócio de licenciamento com o risco de
parecer muito litigiosa. “Eu penso que a Microsoft sabe que uma ação legal
errada poderia levar a uma resposta mais ampla”, diz Lyman.

A Microsoft não tem um funcionário que supervisione, de
forma centralizada, todas suas iniciativas de código aberto (a menos que você
leve em conta o CEO Ballmer). “A iniciativa de código aberto da Microsoft é uma
responsabilidade compartilhada por várias áreas da organização, e mais de 150
pessoas dentro da companhia assumem um papel crítico de esforços de colaboração
entre a comunidade de código aberto”, diz um porta-voz da Microsoft.

Mas a Microsoft tem múltiplos projetos que abraçam o código
aberto e até um site dedicado, que detalha seus projetos e objetivos em código
aberto.

No front da virtualização, a Microsoft tem tido embates com
a VMware, produtora de software proprietário de virtualização, mas tem feito
parcerias com Citrix, que vende tecnologia baseada no hipervisor Xen, de código
aberto.

Paoli ressalta diversas iniciativas que ilustram o
compromisso da Microsoft com código e padrões abertos. A Microsoft ajudou a
criar OData, o Open Data Protocol, que usa as tecnologias da web para “liberar”
dados de aplicações que, de outra forma, seriam mantidos ocultos. A Microsoft
também expandiu recentemente a CodePlex Foundation para encorajar
desenvolvimento de código aberto.

A equipe Windows Azure da Microsoft também tem fornecido
kits de desenvolvimento de software para desenvolvedores que usam PHP e Java,
não apenas para sua tecnologia proprietária .Net Framework.

No fim, o apoio da Microsoft aos princípios do código aberto
vão no máximo até aqui. É altamente improvável que o Windows um dia se torne um
sistema de código aberto. A Microsoft tem feito jogadas precisas que aumentam
sua reputação em código aberto como resposta a demandas reais de mercado. Se a
Microsoft continuasse a evitar código aberto completamente, teria perdido
clientes atuais e potencialmente novas oportunidades de crescimento.

Numa época em que a Microsoft não é mais a empresa de
tecnologia mais valiosa do mundo – esse título, medido pelo desempenho em bolsa
de valores, é da Apple – Steve Ballmer não pode se dar ao luxo de ignorar uma
força de mercado tão grande como a representada pelo código aberto.

Interoperabilidade entre muitas tecnologias, que frequentemente
envolvem integração com software de código aberto, é o que os clientes estão
pedindo, diz Paoli. Essas demandas apenas ficarão mais fortes por causa da
proliferação da cloud computing e das preocupações com soluções fechadas que a
cloud computing criou e amplificou.

“Sabemos que as organizações têm funcionado com um ambiente
misto de TI”, Paoli diz. “Eles todos têm Windows e Linux e IBM. Todos eles
dizem que conectividade e interoperabilidade são fundamentais, e flexibilidade
para escolher o que querem usar e quando querem usar.”

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