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O impacto de uma sociedade sem “dinheiro” na segurança e na privacidade

Estamos indo rumo a um futuro sem dinheiro? E se estamos, o que acontece quando cada transação pode expor nossa identidade?

Sarah Jacobsson Purewal, PCWorld EUA

18/12/2012 às 16h27

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Responda rápido: quando foi a última vez em que você usou “dinheiro vivo” para pagar por alguma coisa? Se você é como muitos norte-americanos, e até brasileiros nos grandes centros, hoje em dia, usa dinheiro com muito menos frequência do que antes.

E talvez você use ainda menos no futuro, graças ao surgimento de serviços como o Square, Google Wallet e o Apple Passbook, que são apenas alguns dos convenientes serviços de pagamentos móveis disponíveis atualmente. Mas à medida em que estes sistemas nos levam para um futuro supostamente “sem dinheiro” (ou “papel moeda”, para ser mais exato), onde todas as transações são eletrônicas, restam algumas questões: esse futuro significa o fim da privacidade nas transações? E será que esses serviços sofrem com problemas de segurança?

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O Passbook, da Apple, é um dos muitos sistemas atuais de pagamentos móveis

Privacidade

Em uma sociedade sem dinheiro a privacidade, no que se refere a pagamentos, é praticamente inexistente. Mas isso não significa que as suas informações - especialmente aquelas sobre as suas transações - serão vendidas a quem pagar mais.

“Resguardar a identidade do consumidor é importante para proteger suas informações financeiras e prevenir spam”, diz Con Mallon, diretor sênior de produtos de mobilidade da linha Norton na Symantec. “Em uma transação eletrônica, tanto o fornecedor da solução quando o vendedor tem a capacidade de rastrear os hábitos de consumo do comprador e até mesmo algumas informações financeiras - mas nem todo mundo faz uso disso”.

“A julgar por histórico anterior, acredito que empresas e instituições que são sensíveis às necessidades e preocupações dos consumidores irão prevalecer”, continua Mallon. “Entitades que tentarem aproveitar a tecnologia para capturar mais informações sobre os consumidores - sem seu conhecimento, consentimento ou envolvimento - serão expostas”.

Para ilustrar o que Mallon diz sobre empresas que exploram os dados sobre as transações de seus consumidores, lhes apresento um artigo publicado no The New York Times em fevereiro de 2012 sobre Andrew Pole, um estatista da Target que descreve seu trabalho: vasculhar os hábitos de consumo dos clientes e analisar seu significado.

A empresa atribui a cada consumidor que faz uma transação eletrônica (ou preenche uma pesquisa, formulário online, participa de um concurso ou faz uma compra na internet) um identificador único (Guest ID) e usando estes dados, associados ao histórico de compras, pode determinar até mesmo se uma cliente está grávida, e de quanto tempo.

Obviamente a Target não é a única grande corporação que usa estas técnicas, então você pode ter certeza de que muitas empresas sabem muito sobre você. Ainda assim, Pole diz que a Target é “extremamente conservadora” ao divulgar para os consumidores quanta informação acumulou sobre eles.

“Se mandamos um catálogo para alguém dizendo “Parabéns por seu primeiro filho!” e essa pessoa nunca nos disse que estava grávida, isso a deixará desconfortável”. Em vez disso a loja usa uma abordagem mais sutil, inserindo anúncios de produtos para bebês em meio aos itens normais no catálogo, para que o consumidor pense que é apenas uma coincidência.

As lojas não são as únicas a rastrear as compras de seus clientes. Bancos, operadoras de cartão de crédito e agências de governo (em vários níveis) também analisam estes dados. Os bancos e operadoras de cartão fazem isto para construir um “perfil” e mantê-lo mais seguro, diz David Mahdi, gerente sênior de marketing na Entrust, uma empresa de certificação digital.

“Ao longo do tempo, bancos e operadoras de cartões de crédito constroem o seu “perfil”. Se seu cartão for roubado e alguém usá-lo para fazer uma compra em um local que você não costuma visitar (ou se ele for clonado e usado para uma compra no Rio de Janeiro dois minutos depois de você usá-lo em São Paulo, por exemplo) o sistema pode bloquear a transação automaticamente, diz Mahdi.

Nesse caso a “invasão de privacidade” parece ser benéfica. “Não acredito que os consumidores devam ser paranóicos, porque em muitos casos a informação é usada para protegê-los”, diz Mahdi. “Entretanto, acho que os consumidores devem questionar se realmente querem um novo cartão de fidelidade do supermercado, e o que estão dando em troca disso”.

Problemas de segurança

A segurança, e não a privacidade, é a verdadeira preocupação quando falamos de uma sociedade sem dinheiro, pelo menos de acordo com Robert Siciliano, um especialista em roubo de identidades na McAfee.

“Não é uma questão dos dados estarem disponíveis”, diz Siciliano. “É que dano pode ser causado com eles, além de pequenos incômodos. É por isso que você deve ter cuidado com o que publica na rede, como a acessa e para quem você dá suas informações”.

De certa forma, um mundo “sem dinheiro” pode lhe oferecer mais segurança. Se você perde sua carteira e um estranho inescrupuloso a pega, o dinheiro lá dentro já era e não pode ser rastreado. Mas se você perde seu smartphone ou cartão de crédito, pode apagar remotamente o aparelho ou ligar para a operadora para cancelar o cartão antes que alguém tenha a chance de usá-lo. Smartphones, cartões de crédito e débito e sistemas de pagamento online como o Paypal vem com medidas de segurança integradas - senhas, códigos e assinaturas - que não existem no dinheiro.

Claro que é possível que criminosos consigam ultrapassar ou adulterar estas medidas de segurança. E se um hacker tem informações extras sobre você, como sua data de nascimento, cidade natal ou nome de solteira da sua mãe, poderá causar muitos danos. Se você perde R$ 500 em dinheiro, perde só o dinheiro. Mas se perde sua identidade no mundo digital um hacker pode apagar seus dados, contratar empréstimos em seu nome e gastar todo o dinheiro de sua poupança.

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O Google Wallet torna mais fácil comprar um "lanchinho" durante a tarde

Como os sistemas móveis de pagamento ainda são relativamente novos, seus criadores ainda estão aparando as arestas. Em fevereiro a empresa de segurança Zvelo descobriu que um ataque de força-bruta era capaz de adivinhar senhas no Google Wallet, sistema de pagamentos da Google baseado na tecnologia NFC.

Em setembro a empresa de segurança móvel MWR Labs demonstrou durante o concurso Mobile Pwn2Own uma forma de hackear um Samsung Galaxy S III usando a tecnologia NFC. E em fevereiro, durante a conferência hacker Shmoocon, a empresa de segurança Recursion Ventures mostrou como uma pessoa com conhecimento e portando equipamento que custa aproximadamente US$ 350 pode ler à distância cartões de crédito equipados com a tecnologia RFID.

“Zeros e uns são atualmente a base de nossa sociedade sem dinheiro”, diz Siciliano. “Há atos de Deus que podem varrê-la do mapa, e atos de terror que podem tentar. Como em uma sociedade com dinheiro, ela nunca será completamente segura enquanto a cobiça, vício, pobreza e outras mazelas humanas persistirem”.

O dinheiro não vai sumir tão cedo

Na Suécia dinheiro já não é aceito no transporte público, em um pequeno número de lojas e nas agências de alguns bancos. Em 2010 Diane Campbell virou notícia quando economizou US$ 600 para comprar um iPad e viu a compra ser recusada pela Apple Store em Palo Alto, na Califórnia, porque a loja “não aceitava dinheiro” (mais tarde a decisão foi revertida). E a rede de cafés Starbucks fez uma parceria com a Square para tornar o ato de pagar por um café sem usar notas e moedas o mais conveniente possível.

Para muitos observadores, nosso futuro sem dinheiro parece estar se aproximando a galope.

Mas provavelmente não é esse o caso. Afinal de contas, dinheiro é fácil de usar e razoavelmente anônimo, e pode até sobreviver a alguns ciclos na lavadora sem ficar desgastado demais para usar (ao contrário de seu smartphone com NFC). Também é mais barato, já que operadoras de cartão de crédito, bancos e serviços de pagamentos móveis não irão ficar com um percentual da transação. Isso significa lucro maior para o lojista.

“Acredito que continuaremos a ter um modelo híbrido de transações com dinheiro e sem ele”, diz Mallon. “Mudanças significativas como estas não podem ser forçadas. Hábitos e normas culturais e sociais são inibidores, e devem ser respeitados”.

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