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O que esperar da Microsoft após a aposentadoria de Bill Gates

Gates se aposenta no momento em que a MS enfrenta um dos maiores desafios da sua história: vencer na nova economia da internet.

Daniela Moreira, editora-assistente do IDG Now!

22/06/2008 às 13h30

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SELO_PEQUENO.jpgEm poucos dias, Bill Gates deixará o cotidiano da empresa que fundou há mais de 30 anos. A hora de sua partida não poderia ser mais decisiva para a companhia.

Depois de reinar absoluta durante toda a era em que a computação esteve centrada no desktop, a Microsoft vive um momento crítico: a transição para um mundo totalmente voltado à internet, no qual o sistema operacional, que garantiu a sua sobrevivência e supremacia durante todos esses anos, já não é mais a peça-chave do jogo.

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Quando anunciou sua saída, dois anos atrás, Gates não poderia prever que se aposentaria exatamente após a investida de 47,5 bilhões de dólares da sua empresa sobre o concorrente Yahoo fracassar. O fato fez com que o mercado questionasse a capacidade da empresa de rivalizar com o cada vez mais poderoso Google - arquiteto da nova economia da web e maior oponente da história da Microsoft.  

Gates não vai abandonar por completo a origem de toda sua fama e fortuna. No dia-a-dia, ele se dedicará à organização filantrópica Fundação Bill e Melinda Gates, mas continuará como conselheiro tanto na administração da companhia quanto em projetos de produtos.

Porém, oficialmente, o futuro da Microsoft está nas mãos de dois principais líderes que permanecerão na companhia: Steve Ballmer, amigo de longa data de Gates e Chief Executive Officer (CEO) desde 2000, e Ray Ozzie, que ocupa a função de Chief Software Architech. 

A estratégia de Ballmer para entrar com força na arena da publicidade online por meio de uma grande aquisição - focada mais em representatividade e tráfego, e menos em tecnologia – foi frustrada.

O próprio CEO declarou em recente entrevista ao Financial Times que a Microsoft não partirá para uma corrida à compra de empresas de internet de menor porte para substituir a perda do Yahoo.
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Isso confere um peso ainda maior ao papel de Ozzie à frente da companhia, pois significa que o caminho para a Microsoft virar o jogo na era da internet é tecnologia. Ele próprio indicou esse caminho, em meio às idas e vindas nas negociações com o Yahoo.

"O Yahoo não era uma estratégia [fechada] em si mesma", disse o sucessor de Gates em uma apresentação no final de maio. Ozzie disse que o Yahoo seria um mero acelerador do processo, mas que a Microsoft está preparando suas próprias mudanças em sua ferramenta de buscas para adicionar funções, além da conhecida tecnologia de buscas baseada no teclado, muito usada atualmente por concorrentes como Google.

Como sucessor de Gates, Ozzie é responsável pelo direcionamento técnico da companhia e pela sua interação com as áreas de negócio, especialmente no que diz respeito à visão de serviços hospedados em web.

Sua principal apresentação até o momento, na conferência TechEd, em Boston – no ano de 2006, quando se tornou Chief Software Architect – foi a primeira ocasião em que a Microsoft detalhou sua estratégia de “software mais serviço”.

O plano, que ainda está a meio caminho da sua execução, mostrava como a empresa pretendia fazer uma transição gradual de software vendido em prateleira para a oferta de softwares e serviços hospedados em web.

Para o chefe de pesquisas e vice-presidente sênior da IDC, John Gantz, Ray Ozzie é o homem certo para o desafio. “A Microsoft precisa mudar para desenvolver softwares com mais agilidade e de forma mais modular. Esse processo que leva seis ou sete anos não é mais eficiente”, ele analisa. “Ray é mais preparado que Bill para isso”, acrescenta o analista.
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Segundo Gantz, Ozzie tem grande respeito da comunidade de desenvolvimento, o que ajudará no processo de mudança de mentalidade e negociação dentro das diversas áreas da companhia.

O legado de Gates
A questão que deve ser respondida nos próximos anos é se Ozzie conseguirá sair da sombra deixada por Gates e liderar o esforço que a Microsoft terá de fazer para derrotar o Google no seu próprio jogo.

Um dos traços marcantes de Gates é a persistência para batalhar por uma visão – como a de um computador em cada casa, que, já sabemos, se tornou real.

“Gates tem uma mistura quase única de direcionamento, persistência e paciência ao perseguir suas metas”, opina Shane Greenstein, professor da Escola Kellogg de Administração, na Universidade de Northwestern, que escreveu um longo trabalho sobre o fundador da Microsoft. Não está claro o quanto da mesma postura Ozzie terá, segundo Greenstein.

Mas a falta de obsessão com as metas pode, na verdade, ser um ponto positivo para Ozzie, na avaliação de Stewart Alsop,co-fundador da empresa de capital de risco Alsop Louie Partners e observador da indústria.

Gates estava tão preocupado em manter o Windows como o centro dos PCs que não pôde antever o novo modelo centrado em anúncios na web até que ele estivesse consolidado.

“A visão de Bill sobre como explorar uma oportunidade – a internet em particular – estava arraigada na sua experiência no mercado de PCs”, avalia Aslop. “Ele não tinha a visão que muitas empresas mais jovens tinham sobre como a web poderia ser usada”, aponta o executivo.
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Ao contrário de Gates, Ozzie já provou que sabe a hora de desistir. Ele abandonou o bem-sucedido sistema de colaboração e e-mail Lótus Notes poucos anos depois de vendê-lo para a IBM e foi trabalhar na Groove Networks, experimentando com uma tecnologia emergente na época: as redes peer to peer.

A tecnologia da Groove, que permite que as pessoas colaborem tanto online quanto offline, agora encontra seu caminho no pacote Office, da Microsoft. Ozzie está aplicando as mesmas idéias para a estratégia de serviços online da Microsoft, com serviços como o Live Mesh.

Mas ainda resta uma questão: se Ozzie terá espaço para conduzir essas mudanças na Microsoft sem ter uma relação tão equilibrada e “camarada” quanto Gates e Ballmer tinham. “Não é uma questão de talento”, opina Alsop. “A questão é: quem vai tomar as decisões? Depende mais do Steve que do Ray”, ele pondera.

Segundo a diretora de marketing e negócios da Microsoft Brasil, Paula Bellizia, o legado de Gates será perpetuado por Ozzie. “Uma grande marca de Gates é a aposta em grandes caminhos e ruptura. Não acredito que isso mude”, ela prevê. Ela lembra que Gates vem preparando as lideranças para sua sucessão e que sua opinião continuará a ser ouvida e respeitada na companhia.

Ozzie não foi a única liderança preparada para a saída de Gates, lembra Belllizia. Outros executivos, como o Chief Research Officer, Craig Mundie, e o Chief Operating Officer, Kevin Turner, devem participar ativamente da gestão da companhia, ao lado de Ballmer e de Ozzie.
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E se tudo der errado no final, Gates pode saltar do banco de reservas e reassumir o comando da companhia – a exemplo de fundadores como Jerry Yang, do Yahoo, e Michael Dell –, apostam os analistas de mercado. “Ele sempre pode voltar”, opina Grantz, da IDC. “Acredito que dentro de três a cinco anos, Bill Gates voltará para ser CEO da empresa”, conclui Alsop.

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