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Opinião: a Apple nunca mais será a mesma

Mesmo investindo menos que concorrentes, empresa inovava mais; agora, sem a visão privilegiada de Steve Jobs, será difícil manter o mesmo fôlego

Ricardo Zeef Berezin, do IDG Now!

07/10/2011 às 14h16

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A Apple, criada à imagem e semelhança de seu fundador, agora terá de caminhar com as próprias pernas. Quando à beira da falência, Steve Jobs voltou para salvá-la, e precisou de apenas dois anos para recolocá-la em evidência, com o lançamento do primeiro iMac,  e de menos de 15 para transformá-la na empresa mais valiosa dentre as de tecnologia.

Cioso que era, preparou a transição, por saber que não poderia seguir no comando por muito mais tempo. Especialistas acreditam que suas qualidades – perfeccionismo, perseverança, criatividade – estão gravadas na cultura da companhia e que, portanto, seu futuro está garantido. Mais do que isso, os próximos quatro anos foram cuidadosamente planejados: novos iPhones e iPad já passaram pelo crivo de Jobs e só esperam o momento certo para serem lançados.

Galeria: Veja a trajetória e os produtos inovadores de Steve Jobs

As coisas, porém, não são tão simples quanto parecem. Gênios são insubstituíveis. A Apple investe bem menos em pesquisa e desenvolvimento do que suas rivais – nove vezes menos do que a Microsoft, por exemplo – mas surpreende muito mais. E não é preciso entrar no mérito se ela, de fato, cria, ou se “apenas” simplifica; inovação é inovação. Números como esses só fortalecem o mito em torno de Jobs. As outras gastam mais por não terem na direção uma pessoa tão certeira quanto ele.

Criador e criatura se misturam, mas algumas decisões são tão típicas de Jobs que é difícil pensar que na sua ausência o mesmo caminho teria sido tomado. No trato com o iPhone podemos ver seu perfeccionismo. Ele foi o primeiro a desafiar as operadoras, como se dissesse: “se mexerem, estraga”. Acreditava que, se alguém se preocupa tanto com o software, tem de fabricar o hardware também.

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Steve Jobs: executivo deixou a companhia no topo

“Não fazemos essas coisas porque somos malucos por controle”, disse a Walter Isaacson, autor de sua biografia. “Nós as fazemos porque queremos fazer grandes produtos, porque nos preocupamos com o usuário e porque gostamos de assumir a responsabilidade por toda a experiência, em vez de fabricar a porcaria que os outros fazem”.

O iPad é outro caso interessante. Há alguns anos, os netbooks eram fenômenos de vendas, e a Apple era pressionada para desenvolver um. A Google, convencida pelos números, criou o Chrome OS – sistema operacional voltado para aparelhos do tipo - mas, antes que pudesse lançá-lo, o tablet apareceu e inaugurou a era pós-PC.

A companhia de Mountain View não tem culpa, pois olhou para o mercado e enxergou uma bela oportunidade. Qualquer outro líder, que não Jobs, agiria dessa forma. O iPad traduz a independência de seu inventor que, assim como sua empresa, pensava diferente. “As pessoas não sabem o que elas querem até que você mostre a elas”, dizia.

Mudanças à vista?
Atualmente, vemos que enquanto as outras empresas de tecnologia se abrem, a líder do setor se mantém fechada. A Google deixa seus serviços por anos em estágio beta, aprimorando-os a partir das sugestões dos usuários, e a Microsoft, surpreendentemente, liberou uma prévia do Windows 8 para que desenvolvedores possam ajudá-la. A companhia da maçã, por outro lado, guarda seus produtos a sete chaves e só os mostra quando finalizados. É arriscado, mas representa a confiança que ela tem em si.

A questão é saber se a Apple seguirá a mesma daqui para frente. É difícil e, talvez, pouco recomendável. Nos últimos anos ela foi tão intransigente quanto seu fundador, pôde ser irredutível tal qual as pessoas que estão (quase) sempre certas. Tim Cook, o novo CEO, terá de seguir em frente sem se perguntar a todo instante o que seu antecessor faria em seu lugar. Sem a visão privilegiada deste, precisará ser mais flexível.

A situação em que se encontra, é verdade, é confortável. Qualquer empresa gostaria de ter em seu portfólio marcas como iPhone e iPad, possuir inúmeros clientes e contar com uma legião de fãs. A indústria de tecnologia, no entanto, é dinâmica. Daqui a uma década, a Coca-Cola continuará sendo a Coca-Cola, mas o mesmo não pode ser dito da HP, por exemplo. Há cinco anos, a Nokia reinava no setor de dispositivos móveis e BlackBerry era sinônimo de smartphone. Hoje, as duas estão em situação de risco.

É possível que cheguemos em 2020 com a Apple ainda na liderança. Essa seria uma aposta quase certa caso Jobs ainda estivesse controlando-a, já que, durante os últimos 14 anos em que esteve à frente, ela só cresceu, ao contrário dos 12 em que esteve distante. Sem ele, digamos que o palpite deixou de ser seguro. Passou a ser apenas provável.

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