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Otellini: “Não creio que exista um mundo centrado em smartphones ou tablets”

CEO da Intel explica porque os computadores tradicionais ainda reinam, e avisa que “o pessoal do ARM tem que viver sob as mesmas leis da física que nós”.

Tom Spring, PCWorld EUA

13/09/2012 às 20h02

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Aproveitamos o Intel Developer Forum, evento realizado nesta semana em San Francisco, nos EUA, para conversar com o CEO da empresa, Paul Otellini, e fazer algumas perguntas sobre o Windows 8, o futuro da computação pessoal, a ascensão dos tablets e o curso que a empresa traçou para seu futuro.

O executivo não nos deu nenhuma informação exclusiva sobre a próxima geração de processadores na família Core (de codinome Haswell), mas comentou, e desfez, o mito de que agora vivemos em um “mundo pós-PC”. Ele também detalhou as ambições da empresa no mercado de mobilidade, e discutiu as inovações que a Intel irá promover nos próximos anos.

Otellini é CEO da Intel desde 2005 e trabalha na empresa desde 1974. A seguir, temos uma versão editada de nossa sessão de perguntas e respostas.

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Paul Otellini, CEO da Intel

PCW: Onde a arquitetura x86 de processadores, usada em nossos notebooks e desktops, se encaixa na vida dos consumidores?

Otellini: Nós a chamamos de “arquitetura Intel” e não “x86”. Existe uma diferença, as coisas evoluíram desde a época dos 286 e 386. Nossa visão é que de a arquitetura Intel é a arquitetura de computação mais popular em termos de base instalada e número de aplicativos projetados para ela. É muito escalável, e pode ir dos supercomputadores aos PCs para o consumidor doméstico, e agora aos smartphones à medida em que a miniaturizamos.

Em nossa visão, a arquitetura Intel é homogênea - é uma fundação que nos dá a oportunidade de levá-la a qualquer tipo de aparelho eletrônico que irá estar conectado à Internet. E isso é bom para os desenvolvedores porque eles podem reaproveitar código. Também é bom para os desenvolvedores de hardware porque eles conhecem a arquitetura, e com isso podem levar novos produtos ao mercado mais rapidamente.

E nós estamos tentando torná-la muito, muito boa para o usuário final em termos de eferecer uma experiência de computação consistente.

PCW: Como você reage quando as pessoas dizem que estamos em uma era “pós-PC”? Os desktops e notebooks podem sobreviver em um mundo de smartphones e tablets?

Otellini: Não creio que exista um mundo centrado em smartphones ou tablets. Minha visão é que vivemos em um mundo centrado na computação pessoal. Diferentes tipos ou formatos de aparelhos para computação serão atraentes a pessoas com diferentes empregos ou níveis de renda. Por exemplo, mesmo que eu ame meu iPad, isso não significa que eu tenha abandonado meu notebook. Não conseguiria fazer meu trabalho sem ele.

As pessoas que ganham a vida criando coisas - seja uma apresentação no PowerPoint, planilhas complexas, modelos financeiros ou moléculas para novos medicamentos - precisam de PCs. Esta necessidade não irá desaparecer tão cedo. Nossa visão é que todos esses aparelhos existem e o PC irá continuar a evoluir rumo a novos formatos, como os Ultrabooks.

PCW: Estou pensando no PC desktop para o consumidor doméstico. Você vê este formato evoluindo da mesma forma?

Otellini: Sim, mas depende de onde você está. O mercado de desktops ainda é significativo e é um negócio multibilionário para nós, embora não esteja crescendo muito. A maioria das vendas é em mercados emergentes no exterior, onde o desktop ainda oferece o melhor custo benefício. Um PC desktop permite que múltiplos membros de uma família compartilhem um único computador, e pode ser atualizado e expandido. Para o usuário que está fazendo a primeira compra, e pequenas empresas, o desktop ainda é muito relevante.

PCW: Alguns analistas dizem que os Ultrabooks tem sido um grande sucesso, outros que as vendas desapontam. Quem está certo?

Otellini: Na primeira metade deste ano as vendas de Ultrabooks ficaram dentro do previsto. Não esperávamos algo gigantesco porque sabíamos que teríamos de ter múltiplos modelos e reduzir os preços.

Mas à medida em que analisamos o quarto trimestre, os preços aos quais chegamos, o número de modelos que estarão disponíveis e a amplitude da distribuição, acredito que estamos a caminho de cumprir as metas que estabelecemos publicamente.

PCW: À medida em que o lançamento do Windows 8 se aproxima, como a Intel está permitindo que seus parceiros inovem? Estou falando não só de Ultrabooks, mas Ultrabooks com telas sensíveis ao toque, conversíveis ou coisas assim. Algo mais?

Otellini: Nós não estamos permitindo que eles inovem, estamos encorajando isso. Com os Ultrabooks nosso objetivo inicial era uma melhor autonomia de bateria, com máquinas mais finas e melhor desempenho. Além dos Ultrabooks estamos vendo um ressurgimento da inovação, em particular nos designs vindos de nossos ODMs e OEMs.

Estamos vendo muitos conceitos interessantes envolvendo toque, máquinas conversíveis, telas destacáveis e novos formatos experimentais que tiram proveito dos recursos do Windows 8. O paradigma existente de que notebooks e tablets são entidades separadas que nunca deverão se encontrar não é verdade.

PCW: Vocês estão trabalhando com a Lenovo e a Motorola Mobility no projeto de smartphones. Quando veremos processadores Intel dentro de mais tablets, talvez um modelo da Google ou Apple? E onde a Intel espera estar em cinco anos com uma estratégia para ARM?

Otellini: Não temos uma estratégia para ARM. Estamos vendendo chips baseados na arquitetura Intel para o mercado de mobilidade - e isso continua a ser uma grande vantagem. Mas eu descrevo nosso trabalho com os fabricantes de dispositivos móveis como uma maratona, e não uma corrida de 100 metros rasos. Ninguém entra num destes mercados e se torna um sucesso da noite para o dia. É necessário muito trabalho e muito tempo, assim como fizemos com os PCs e servidores.

Você verá a Intel entrando no mercado de mobilidade à medida em que nos movemos através de sucessivas gerações de nossos produtos, impulsionados pela Lei de Moore. Aparelhos “movidos a Intel” ficarão cada vez melhores e no final teremos as melhores máquinas do mercado.

PCW: Quanto tempo até que vejamos um tablet da Google ou Apple com “Intel Inside”?

Otellini: Você tem que perguntar a essas empresas, nós com certeza não iremos anunciá-los. Mas estaremos em vários tablets Android que chegam ao mercado ainda neste ano. E também há uma boa quantidade de tablets com Windows 8 a caminho.

PCW: A Lei de Moore ainda está em vigor? Se sim, por quanto tempo?

Otellini: A Lei de Moore está mais para uma observação do que uma lei. Não é algo como a gravidade, e necessita da inovação de nossos funcionários para que possa se manter. É o que temos que fazer melhor do que qualquer outra empresa no mundo. Nós movemos a curva para torná-la na prática uma “lei”.

Sempre fomos capazes de ter uma boa visão das próximas duas ou três gerações de processadores. Sempre conseguimos ver claramente como dimensionar os transistores. Conseguimos enxergar cinco, seis ou sete anos à frente, e sabemos que podemos ao menos perseguir a tecnologia que está lá. Mas além disso é necessária mais inovação, e isto sempre foi verdade. Você nunca sabe exatamente como essas coisas irão se desenrolar.

A tecnologia irá mudar. Talvez tenhamos de mudar o transistor de novo. Usaremos materiais diferentes, mas iremos continuar crescendo, até onde consigo enxergar.

PCW: Os atuais processadores Ivy Bridge tem 1.4 bilhões de transistores. O que um chip com, digamos, 10 bilhões de transistores poderia fazer que o Ivy Bridge não pode?

Otellini: Em eletrônicos de consumo a tendência é um Sistema em Um Chip (SoC - System on a Chip). Neste modelo o processador se torna uma parte cada vez menor do que é um sistema completo em uma única pastilha de silício. Atualmente a GPU (chip gráfico) já é muito maior do que o processador. Podemos pensar em integrar todas as funções relacionadas à computação, e com o tempo as relacionadas à comunicação. E o que isso lhe dá são componentes com desempenho incrivelmente alto que tem um custo menor, porque são chips únicos e estarão por toda parte. 

Ou seja, em termos de futuro próximo os computadores irão ficar mais “inteligentes”, menores e mais rápidos, certo? O passo seguinte é mudar a interface com o usuário: a maior mudança que veremos será a adição do reconhecimento de voz, de gestos e cognitivo às nossas máquinas. Estas coisas irão revolucionar a forma como interagimos com elas. Mudar a interface com o usuário é particularmente útil em aparelhos menores, que não tem um teclado.

PCW: O que é o reconhecimento cognitivo?

Otellini: Quando a máquina entende as suas necessidades. Pense na evolução do telefone: os aparelhos atuais sabem quem você é, onde você está porque acessaram seu calendário ou o GPS, suas preferências porque registraram padrões de uso, tem suas informações financeiras e um monte de outras coisas. Então, em vez de pedir que o telefone faça isso ou aquilo para você, chegaremos a um ponto em que as máquinas irão fazer coisas para você de forma proativa, antes mesmo que você peça. A máquina sabe, entende suas necessidades e realiza ações por você.

PCW: Nesse cenário a Intel está na nuvem, no aparelho ou um pouco em ambos?

Otellini: Hoje em dia a nuvem já roda em Intel, a vasta maioria dela. E não vejo isso mudando tão cedo. E quando você começa a pensar em ter aparelhos com uma arquitetura comum àquela dos que compõem a nuvem, é possível construir máquinas muito mais capazes e entregar experiências de uso muito interessantes.

PCW: Dois anos atrás a Intel comprou a McAfee. Como a empresa se encaixa nos negócios atuais e futuros da Intel?

Otellini: Já apresentamos a primeira geração de produtos criados em conjunto entre as duas empresas. É uma família chamada Deep Defender. O que ela faz é aumentar dramaticamente a capacidade de um PC de se defender contra ameaças “dia-zero”, recém-anunciadas e para as quais ainda não há uma solução.

No futuro, continuaremos a evoluir. Já estamos começando a trilhar o caminho rumo a uma profunda integração entre hardware e software, e não só nos PCs, mas também em servidores, dispositivos móveis e tablets.

PCW: Existe um ditado que diz que a única coisa pior que ter um vírus no PC é rodar o software para impedir isso. Uma das coisas que as pessoas apreciam na experiência com um tablet ou smartphone é que elas não precisam parar para pensar, e não tem que ver software de segurança acenando e desviando a atenção a todo o momento como nos PCs.

Otellini: Software de segurança deveria rodar em segundo plano e ser invisível para você. Você quer estar protegido a todo momento. A McAfee relatou que seis meses atrás houveram mais incidentes de invasão de smartphones Android do que de PCs. Os smartphones estão se tornando alvos imensos, à medida em que se tornam mais capazes e começamos a confiar a eles informações pessoais e dados financeiros. As pessoas precisam ter mais consciência sobre a segurança, ou terão problemas de verdade.

PCW: Pessoalmente, eu espero não ter que ver avisos do McAfee, ou de outro software antivírus, pipocando na tela do meu smartphone.

Otellini: Você prefere não ver o aviso e ter o aparelho hackeado e as informações de seu cartão de crédito roubadas?

PCW: O que é mais importante quando o assunto são processadores? Poder de computação puro, número de transistores, tamanho do chip ou eficiência energética?

Otellini: Todas as anteriores. O trabalho de um arquiteto é entender onde o chip será usado e fazer os sacrifícios necessários de acordo com o cenário. Ninguém quer abrir mão. O que todos querem é o melhor desempenho, com o menor custo e menor consumo. Mas as leis da física às vezes impedem isso. Projetamos produtos de forma segmentada para vários mercados, e otimizamos a arquitetura para as necessidades de cada um destes segmentos.

PCW: A Intel já foi criticada por não ser tão eficiente no consumo de energia quanto outras fabricantes. Você concorda com isso? 

Otellini: Não existe mágica. Os fabricantes que adotam a arquitetura ARM tem que viver sob as mesmas leis da física que nós. O que aconteceu foi que, até recentemente, não tínhamos nos voltado para o mercado de smartphones. São necessários três a quatro anos para que os chips fiquem prontos, e agora eles estão começando a ser entregues, e temos um road map maravilhoso para o futuro.

No final das contas, o melhor transistor irá entregar o melhor desempenho otimizado para smartphones. Não existe nada inerente à arquitetura Intel - ou ARM - que as torne menos ou mais eficientes. É a forma como você projeta o sistema.

Então à medida em que pegamos nossa tecnologia líder em transístores, que ninguém mais no planeta tem, e nossa experiência em arquitetura de computadores adquirida ao longo de mais de 20 anos, e as aplicamos a esses novos mercados, você verá que faremos bastante progresso.

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