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Por que a rede Orkut caiu no gosto dos usuários brasileiros

Na estréia do OpenSocial, IDG Now! explica sucesso do Orkut, com seus 40 milhões de brasileiros, em setor pontuado pela exclusão digital.

Guilherme Felitti, editor-assistente do IDG Now!

10/07/2008 às 2h04

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Em um país em que quase 60% da população nunca usou a internet, segundo dados do NIC.br,
imaginar uma rede social adotada em massa por mais de 40 milhões de
usuários, em uma reprodução demográfica relativamente tendenciosa às
classes mais altas, mas com grande representatividade entre as mais
baixas, é algo digno de um fenômeno.

Torça a cara ou passe grande parte do seu tempo livre ali, o  Orkut é, definitivamente, este fenômeno.

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A rede social criada em 2004 por Orkut Buyukkokten
em suas horas vagas no cargo de engenheiro de software no Google
encontrou tamanha recepção entre os usuários brasileiros que, tal qual Maizena para amido de milho e Gilette para lâminas de barbear, se tornou sinônimo de rede social no Brasil.

Quase
cinco anos após se abrir para os primeiros brasileiros, a rede social
do Google se vê às voltas com a introdução da plataforma de aplicativos
OpenSocial
, que começa nesta quinta-feira (10/07) no Brasil pretende trazer serviços e utilidades para dentro da rede, em um mercado amplamente favorável.

No
ascendente mercado mundial de redes sociais, o Brasil ocupa uma rara
posição em que a rede social dominante não sofre qualquer tipo de
ameaça direta de qualquer outro concorrente, em um desdobramento do
ambiente encontrado pelo Orkut quando os primeiros perfis de
brasileiros começaram a ser criados.
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Nos Estados Unidos, o Facebook recentemente botou mais lenha na fogueira deste setor ultrapassando o MySpace,
até então a maior rede social do mundo, em número de usuários. Na
Europa, a briga é ainda intrincada entre três concorrentes (Bebo, MySpace e Facebook),
que trocam de posições em diferentes países.

A América Latina, com a
exclusão de Brasil e Paraguai (com semelhante preferência pelo Orkut),
se divide entre Hi5, Metroflog e MySpace, segundo o mapa de redes sociais publicado pelo jornal francês LeMonde no começo de 2008.

No Brasil,  são mais de 40 milhões de usuários, responsáveis por 54% de todos os inscritos na rede social. Rival direto mais próximo do Orkut, o MySpace vem apresentando crescimento acentuado desde que iniciou sua operação
nacional, mas acabou de passar dos dois milhões de cadastrados em maio,
segundo dados do IBOPE//NetRatings.

O que faz com que uma rede social criada como projeto extra-profissional
de um engenheiro chame tanta atenção e reúna tanto usuários em um
mercado de internet tão marcado pela exclusão digital, transformando o
Orkut no primeiro legítimo fenômeno brasileiro na internet?

Pesquisadores, engenheiros do Google e analistas de mercado consultados pelo IDG Now! apontam a interseção de três principais motivos responsáveis pela explosão do Orkut entre os brasileiros.

¨O Orkut foi a ferramenta certa no lugar certo¨, define bem a pesquisadora Raquel Recuero, da Universidade de Pelotas, em relatório feito por equipe comandada por Raquel a pedido do Google.

O primeiro deles é um timing
preciso. Os primeiros convites para o Orkut começaram a circular entre
engenheiros e profissionais do mercado de tecnologia no Vale do
Silício, onde o Google está localizado,  a partir de janeiro de 2004,
quando foi lançado.

É
praticamente impossível apontar com exatidão onde foram criadas as
primeiras contas do Orkut no Brasil, mas o Google defende que alguns
convites foram parar nas mãos de engenheiros e entusiastas brasileiros
em cidades como São Paulo, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, com
forte apoio da comunidade de código aberto.

Em fevereiro, uma provável explicação sobre como brasileiros conseguiram os convites apareceu em um vídeo do co-fundador da Eletronics Frontier Foundation (EFF), John Barlow, detalhando a José Murilo Junior, do Global Voices
Online, como tinha repassado 100 convites da rede para brasileiros por
entender o Brasil como ¨uma sociedade amplamente conectada¨.
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Há quem defenda que muitos dos contatos para os quais Barlow
mandou os convites foram feitos durante o festival Mídia Tática Brasil,
realizado em março de 2003 em São Paulo, onde o co-fundador da EFF esteve presente, junto a jornalistas, ciberartistas, ativistas online e pesquisadores sobre o ciberespaço brasileiro.

É provável que, mais do que ser o principal responsável pela popularização, Barlow ajudou a fomentar a competição entre núcleos de amizades formados por early-adopters que se registrou a seguir.

Segundo Raquel, a partir de março de 2004, o Google registrou altos índices
de crescimento focado em determinadas cidades que indicavam uma
suposta competição entre os núcleos e, em um segundo momento, contra os
usuários norte-americanos.

Eduardo Tuhler, gerente de produto do Orkut no Brasil, reforça
a situação citando a liderança do Rio Grande do Sul nos primeiros meses
do Orkut como justificativa para a adesão de desenvolvedores e membros
da comunidade de software livre de São Paulo e Rio de Janeiro.

O relatório elaborado por Recuero cita, inclusive, a influência de estudantes das universidades de São Paulo (USP) e Sagrado Coração (USC) e funcionários da Conectiva, desenvolvedora de distribuição de Linux que atende atualmente pelo nome de Mandriva, após a fusão com a francesa Mandrake
em abril de 2005.

O fato de a rede pertencer ao Google, visto com bons
olhos pelos brasileiros, aumentou a adesão ao Orkut neste estágio,
indica o relatório.

O ritmo de
crescimento, baseado unicamente na rivalidade entre cidades nos
primeiros meses, começou a ganhar mais corpo com as primeiras matérias
na mídia sobre o fenômeno de uma rede social em ascensão, o que fechou
um círculo vicioso: quanto mais usuários ganhava, maior a cobertura da
imprensa brasileira, que atraía mais pessoas que não tinham conhecimento
do Orkut.
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Dois outros fatores, explica Tuhler,
temperaram a histeria que começou a se formar ao redor do Orkut: a mais
evidente era a necessidade de um convite para participar, o que
instigava a curiosidade dos que ainda estavam de fora.para entender qual
era o grande atrativo da rede social. Isso agiu como uma espécie de
fermento para a vontade do internauta em fazer seu perfil.

O
segundo é bem conhecido de usuários antigos do Orkut e, à primeira
vista, pode facilmente ser encarado como demérito: os problemas de
servidor enfrentados pelo Google para dar vazão à procura.

A latência enfrentada pelo Orkut em seus primeiros meses, escancarada pela irônica mensagem ¨Bad bad server, no donut for you¨(¨mau,
mau servidor, sem rosquinhas pra você¨, em tradução livre), não se
mostrou suficiente para fazer com que usuários abandonassem o serviço
por um rival, e se transformou em um voto confiança dado ao Google,
segundo o executivo.

A possibilidade de
se abandonar o Orkut por qualquer outra rede social é o segundo motivo
que possibilitou a alta penetração do serviço no Brasil - simplesmente
não havia um concorrente direto no País.

¨Brasileiros tinham (na época) grande experiência com outras ferramentas (como fotologs
e weblogs) e uma rede social com perfis, como o Orkut, era algo novo
que precisava ser testado. Alguns já haviam tido experiência com o Friendster, mas não gostaram da interface¨, afirma o relatório elaborado pela equipe de Raquel.

Até que o MySpace
formalizasse sua operação brasileira e começasse a bolar estratégias
para o mercado nacional, como shows secretos e debates políticos para
jovens, foram três anos e meio sem qualquer rivalidade formal ao Orkut
no Brasil.

Chegar antes, porém, não significa ter sucesso garantido - nomes como ICQ, Napster e Netscape,
pioneiros e esquecidos em seus setores, provam a teoria. E é aí que
entra o terceiro motivo do sucesso do Orkut: sua interface simples.

¨Esta interface simples do Orkut é muito propícia a novos usuários. Ela exige pouco domínio prévio de interface web, como exigem disparados o Facebook ou o Second Life¨, explica o presidente da Agência Click, Abel Reis. Nas palavras de Tuhler, o Orkut ¨tem alto nível de usabilidade¨.

Em
palavras mais simples, o Orkut é fácil de se usar mesmo para quem não
conhece inglês, exigência para se inscrever no serviço até abril de
2005, quando a versão em português foi lançada.
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Além

de conseguir se localizar facilmente na ¨simplicidade tosca¨ dos menus
e ferramentas, como apelida Reis, inscritos poderiam facilmente ver, no
perfil de contatos ou desconhecidos, os amigos e a quais grupos aquela
pessoa pertencia, algo não tão fácil em um serviço como o Facebook, com sua cultura digital mais madura, classifica o presidente da Agência Click.

Com
a alternância entre aparições na mídia e a conseqüente procura de
usuários que conheceram o Orkut apenas pela TV, a rede viu o número de
brasileiros ultrapassar o de norte-americanos no ranking geral apenas
seis meses depois de ser lançada (o que acarretou, inclusive, uma festa
em São Paulo pela efeméride) e atingiu massa crítica além dos usuários
entusiastas com menos de 25 anos que desbravaram o Orkut.

Vale
lembrar que, por mais que carregasse características que facilitassem
sua adoção, o Orkut é apenas o veículo que, até o momento, melhor
comporta a expressão online do brasileiro médio, entidade vista por
pesquisadores e analistas de mercado como amplamente sociável e
fortemente atraída por serviços gratuitos de interação que dêem vazão
ao seu espírito gregário de trocar ¨experiência, informações e
memória¨, como defende Reis.

Comunidades, crachás e GIFs
A
mistura entre facilidade de uso, customizações na medida para o gosto
do internauta nacional e uma aparente anarquia pela publicação de
conteúdo (o que acarretaria mais tardes problemas sérios para o Google
Brasil junto a autoridades brasileiras) fomentou um certo comportamento
padrão do brasileiro dentro do Orkut.

A carência de ferramentas mais avançadas, algo que o Google tenta combater com o lançamento do OpenSocial, se mostrou uma arma para não confundir usuários sem o que Abel Reis chama de ¨maturidade online¨.

Ao
mesmo tempo, o Orkut permite configurações de recados e depoimentos com
¨coisas de gosto duvidoso e um pouco eletrizantes¨, segundo Reis, que
se provaram bastante populares e alimentaram um rico ecossistema de sites
com GIFs a animações para a rede social
.
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Uma característica marcante do Orkut, defende Recuero,
é se juntar a comunidades não como uma forma de debater assuntos dentro
dos fóruns, mas apenas como uma forma de expressar a seus contatos a
quais grupos pertence ou quais idéias o usuário defende, como se os
grupos fizessem o papel de ¨crachá digital¨ sobre suas preferências.

De tão forte, a característica sustenta os critérios usados pelo IBOPE//NetRatings, em sua recém-anunciada
ferramenta para avaliar o impacto da reação de consumidores dentro de
redes sociais, no Orkut, o projeto toma como base apenas o nome das
comunidades às quais usuários com determinado perfil definido pela
empresa que encomenda o estudo estão atrelados.

Rogério
de Paula, antropólogo da Intel, defende ainda que o Orkut tomou lugar
como calendário pessoal, pela administração de datas comemorativas ou
aniversários de seus contatos.

Fora a agressiva campanha da operação brasileira, que deixa claro sua rivalidade com o Orkut freqüentemente, o MySpace pode ter parte do crescimento na sua base relacionada à possibilidade de também integrar animações e vistosos GIFs ao perfil do usuário.

O salto do MySpace Brasil de menos de 50 mil usuários para mais de 2 milhões em apenas seis meses significa que o Orkut terá concorrência de verdade à frente no mercado brasileiro?

Orkut: ainda imbatível?
Alexandre
Magalhães, analista do IBOPE//NetRatings, é direto: em médio e longo

prazo, sim. Por enquanto, o Orkut funciona muito mais como um
fornecedor de conteúdo para seus supostos rivais do que realmente um
serviço capaz de centralizar todas as atenções.

¨Como
(o tráfego de redes sociais no Brasil) está
crescendo muito, eles são mais impulsionadores um do outro que
concorrentes. Não vejo pessoas procurando alternativa ao Orkut. Portais
sofrem mais perigo¨, explica Magalhães, relacionando os tradicionais
centralizadores de conteúdo e tráfego
na internet brasileira.

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Ainda
que uma migração em massa em curto prazo do Orkut, Raquel reconhece um
possível risco de adoção em massa de rivais, especialmente o MySpace (a interface do Facebook é uma clara dificuldade ao internauta médio, ela defende), mas alerta para a consolidação da rede do Google como principal entrave.

O MySpace
Brasil sabe do tamanho do problema e corre atrás de uma solução que
leve a rede social para as massas sem o círculo vicioso ou a
curiosidade da mídia pelo ineditismo de um serviço social no país - o
diretor geral do serviço, Émerson Calegaretti,
já admitiu que vem negociando com canais de TV para reprodução parcial
de conteúdo e dos debates políticos que promoverá durantes as Eleições
2008.

¨Quando o MySpace
começou a ganhar tração, o Orkut já tinha capturado os corações e
mentes dos brasileiros. Existe pouco incentivo para mudar para uma
diferente tecnologia se todos seus amigos já estão ao seu redor¨,
explica Danah
Boyd, pesquisadora de mídia social na Universidade de Berkeley,
rejeitando a possibilidade de atração para um serviço real pelo melhor
gerenciamento de privacidade, quesito no qual, por exemplo, o Facebook supera o Orkut.

¨As pessoas vão onde seus amigos estão¨, sintetiza Boyd, remetendo a uma frase de Luli Radfaher,
professor da Universidade de São Paulo, que pode soar mais agradável
aos ouvidos dos entusiastas mais jovens que começaram a popularizar o
Orkut no Brasil em 2004 - “uma comunidade online é como um bar - o
usuário não vai pela cerveja nem pela comida. Vai pelas pessoas que estão ali”.

Seja pelos dados do IBOPE//NetRatings ou pelo potencial viral que aplicativos do OpenSocial, como ¨Vou Não Vou¨, têm entre usuários brasileiros, a festa (mais um rodeio que um boteco nos últimos anos) está longe de terminar.

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