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Por que o Windows RT caminha para a ruína

Menos capaz que o Windows 8, sistema tem como atrativos o baixo custo e longa autonomia de bateria dos aparelhos nos quais roda, vantagens que estão desaparecendo rapidamente

Brad Chacos, PCWorld EUA

21/01/2013 às 18h24

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Ah, Las Vegas. Lugar onde os sonhos se realizam e corações são despedaçados. Talvez não exista lugar mais adequado para mostrar a gigantesca aposta que é o Windows RT, o primeiro sistema operacional da Microsoft focado em tablets, e a primeira versão criada especificamente para processadores ARM.

Mas a Microsoft e a ARM não tiveram sorte, e perderam a aposta. O Windows RT não estava em sua melhor forma durante a CES 2013, e pra todos os efeitos morreu no deserto de Nevada no início de janeiro de 2013.

Um voto de não-confiança

Na verdade o Windows RT começou a CES fazendo barulho: Steve Ballmer, CEO da Microsoft, subiu ao palco durante a tradicional palestra de abertura da feira, feita neste ano pelo CEO da Qualcomm, Paul Jacobs. Ballmer mostrou dois tablets com Windows RT e processadores Qualcomm, entre eles o Samsung ATIV Tab, e destacou a Samsung como uma das principais parceiras de hardware da Microsoft.

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Steve Ballmer, da Microsoft, e Paul Jacobs, da Qualcomm, apresentam tablets com Windows RT

Mas apenas três dias depois a Samsung disse à CNET que não irá lançar o ATIV Tab nos EUA, citando uma baixa demanda em geral por tablets com o Windows RT. Mike Abrary, um Vice-Presidente Sênior (SVP) na Samsung, disse também que os consumidores não entendem a diferença entre o Windows RT e o Windows 8.

“Não houve um posicionamento muito claro sobre o lugar do Windows RT no mercado, e qual sua relação com o Windows 8”, disse Abrary à CNET. “Quando fizemos alguns testes e estudos para determinar como poderíamos colocar um aparelho com o Windows RT no mercado, descobrimos que ainda seria necessário muito trabalho para educar o consumidor sobre o que é o Windows RT”.

Para ser justo, a Samsung não é um indicador das tendências no mercado de PCs. Embora a empresa produza algumas máquinas com Windows interessantes, não é um grande participante no tradicional mercado de informática e sua atenção está voltada principalmente ao Android.

Mas a Samsung não é a única fabricante (OEM) a dar um passo atrás com o Windows RT. Tanto a HP quanto a Toshiba desistiram de planos para tablets com o sistema antes mesmo dele ser lançado. Já a Acer anunciou que seu tablet com Windows RT não irá aparecer nas lojas antes do segundo trimestre deste ano, se for lançado.

No momento o Dell XPS 10, ASUS VivoTab e Lenovo Yoga 11, além do Surface RT da Microsoft, são os únicos aparelhos com Windows RT no mercado nos EUA. Nenhum deles conseguiu algum sucesso, com exceção, talvez, do Surface.

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O VivoTab, da ASUS, é um dos tablets com WindowsRT no mercado

Embora a CES estivesse cheia de aparelhos com o Windows 8, o Windows RT esteve completamente ausente. Pra piorar a situação o sucessor do Lenovo Yoga 11 - batizado de Yoga 11S - troca o processador ARM por um Intel Core. A própria Microsoft mostrou, a portas fechadas, seu tablet Surface Pro baseado em um processador Intel Core i5, e não fez um anúncio sequer sobre o Surface RT ou seus planos para o modelo no futuro.

Vantagem dos ARM? Que vantagens?

Mesmo que a Microsoft tivesse gasto mais de seu orçamento de marketing (estimado em US$ 1.5 Bilhões) explicando as diferenças entre o Windows RT e o Windows 8, a mensagem não seria tão atraente para os consumidores por que, francamente, no momento o Windows RT é uma droga. E dizer que ele “é que nem o Windows 8, com a exceção de que não roda aplicativos desktop, e os aplicativos para Windows 8 na Windows Store não são tão bons” não é lá um bom argumento de vendas.

Embora não sejam capazes de rodar programas “legados” escritos para o desktop, os processadores ARM nos quais os tablets Windows RT são baseados tem, no geral, menor consumo de energia e custam menos que os processadores baseados na arquitetura x86 produzidos pela Intel e AMD - daí sua presença em tantos tablets Android e em aparelhos da Apple, onde a autonomia de bateria e um preço competitivo são duas das principais preocupações.

Entretanto, estes benefícios da arquitetura ARM já estão sendo desafiados por uma nova geração de processadores x86, mais especificamente o Intel Atom Z2760 “Clover Trail”. O novo chip para tablets da Intel é tão eficiente que em nossos testes de bateria um Samsung ATIV Smart PC equipado com ele durou impressionantes 9 horas e 14 minutos, superando a marca de aparelhos com processadores ARM e Windows RT como o ASUS VivoTab RT e o Surface RT da Microsoft. Em termos de desempenho bruto o Atom Z2760 fica muito aquém de seus irmãos na família Intel Core, mas é similar ao de produtos da ARM.

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AMD "Temash", chip sob medida para tablets, com baixo consumo e GPU Radeon integrada

Em termos de custo, tablets com Windows 8 ainda tendem a ser um pouco mais caros que suas contrapartes com Windows RT, mas modelos de baixo custo como o Dell Latitude 10 (US$ 499) e a versão de 32 GB do Acer W510 (US$ 549) já oferecem a experiência completa com o Windows 8 pelo mesmo preço que um tablet com o Windows RT. O modelo de entrada do Lenovo Yoga 11S irá custar os mesmos US$ 799 do atual modelo com Windows RT.

Em outras palavras, os tablets com Windows RT carregam todo o peso das limitações do Windows numa plataforma ARM, cujas supostas vantagens no preço e no consumo de energia estão desaparecendo rapidamente.

O golpe da Samsung no Windows RT foi seguido por dois ganchos certeiros desferidos pela AMD e Intel durante a CES. A AMD passou toda a feira demonstrando seu sistema em um chip de codinome Temash, que tem compatibilidade com DirectX 11.1, graças à GPU Radeon integrada. Tanto o Temash quanto o Intel “Bay Trail” - sucessor do Clover Trail, com o dobro de desempenho segundo a fabricante - aparecerão em tablets na segunda metade de 2013.

É uma data distante, mas os processadores da Intel e AMD irão erodir ainda mais as vantagens da arquitetura ARM quando surgirem. Rodando o Windows 8 completo, aliás.

Uma tábua de salvação?

Mesmo que o Windows RT esteja praticamente à deriva agora, isso não necessariamente significa que ele já era. Ironicamente, o maior aliado do Windows RT em sua luta pela sobrevivência é o Windows 8.

A maior falha do Windows RT é sua dependência nos aplicativos para o Windows 8. A Windows Store é atualmente tão útil quando o desktop residual no Windows RT, ou seja, não muito. Mas se a Microsoft conseguir atrair uma boa quantidade de usuários para o Windows 8 os desenvolvedores com certeza virão atrás, trazendo aplicativos novinhos em folha e feitos sob medida para o sistema junto com eles. E estes apps, antes que nos esqueçamos, rodarão tão bem nos tablets Windows RT quanto naqueles com processadores Intel e o Windows 8.

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A loja de aplicativos do Windows 8 pode ser a salvação do Windows RT

Em outras palavras, uma adoção em grande escala do Windows 8 só irá ajudar o Windows RT a longo prazo. Se com o tempo a Windows Store conseguir atingir seu potencial, o desktop inútil no Windows RT será um ponto negativo com muito menos peso do que atualmente, transformando o sistema no concorrente do iPad que ele desesperadamente quer ser. O tempo também irá ajudar a reduzir a distância entre os processadores x86 e ARM, à medida em que a Intel e a AMD continuam a aumentar a eficiência energética de seus chips, enquanto a ARM introduz núcleos cada vez mais poderosos, como o Cortex-A15 encontrado no novo Nvidia Tegra 4.

Será o Windows 8 capaz de sustentar o ecossistema por tempo suficiente para dar ao Windows RT uma chance de lutar pela sobrevivência? Apesar de histórias sobre uma fraca adoção do Windows 8 e a saúde do mercado de PCs em geral, novos números do Gartner colocam as vendas de computadores em perspectiva.

A empresa de pesquisas, especializada no mercado de tecnologia da informação, estima que cerca de 353 milhões de notebooks e desktops foram vendidos em 2012, embora as entregas de produtos para as lojas tenham sido um pouco reduzidas no final do ano em relação aos anos anteriores. Mesmo que a indústria mantenha este pequeno declínio ao longo de 2013, o Windows 8 estará em centenas de milhões de computadores ao longo do ano, com a nova interface se tornando familiar para muitos usuários.

A pergunta de US$ 1.5 Bilhões não é se o Windows 8 consegue gerar participação no mercado. Em vez disso a pergunta é: a Microsoft precisa da ARM se a AMD e Intel continuarem a lançar processadores de baixo custo e baixo consumo de energia? Considerando todas as outras coisas como iguais, não há motivo para escolher o Windows RT em vez do Windows 8 e seu desktop completamente funcional. A falta de retrocompatibilidade pode significar o fim do Windows RT a longo prazo - assumindo, claro, que a Microsoft não abandone completamente o desktop na versão básica do Windows 9.

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