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Review: filme “Jobs” é bom programa para fãs da Apple, mas se perde em exageros

Com estreia prevista para 6/9 no Brasil, produção traz Ashton Kutcher no papel do cofundador da Apple.

Luiz Mazetto

13/08/2013 às 12h23

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Aviso: a crítica abaixo representa apenas a opinião do autor e não da Macworld Brasil ou do grupo Now! Digital. Além disso, vale notar que o texto contém spoilers, por isso pare de ler aqui se não quer saber mais sobre o filme.

Com estreia prevista para 6/9 nos cinemas brasileiros, o filme independente “jOBS”, com Ashton Kutcher no papel principal, é o primeiro a ser lançado após a morte do cofundador da Apple, em outubro de 2011. E, apesar de acertar em muitos pontos, a produção do diretor Joshua Micahel Stern deixa a impressão de que faltou alguma coisa. No caso, a ausência mais sentida é de uma direção mais firme, que cortasse os exageros que acabam tornando o filme cansativo e forçado em alguns momentos.

Mas primeiro vamos falar dos pontos positivos do filme, que são vários. Apesar do receio geral, Ashton Kutcher, mais famoso por seus papéis nada sérios em filmes como “Cara, Cadê meu Carro?”, surpreende de maneira positiva e entrega uma representação sólida do cofundador da Apple – menos nas cenas mais dramáticas, em que seu choro chega a ser constrangedor. O ator disse em entrevistas que assistiu a horas de vídeos para conseguir incorporar os maneirismos do ex-CEO da Apple. E isso transparece no filme, já que o ator consegue representar muito bem o andar e a fala/voz de Jobs em diversos momentos. O elenco de apoio também é muito bom, com destaque para Dermot Mulroney, no papel do investidor “anjo” Mike Markkula que tornou a Apple uma realidade.

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Ashton Kutcher se sai bem no papel do cofundador da Apple em "jOBS" (imagem: Open Road Films)

Apesr de Jobs ser muitas vezes colocado em um pedestal, tanto por seus fãs quanto pelo próprio filme, o diretor de “jOBS” acerta ao também mostrá-lo como um ser humano, com defeitos como todos nós. Desde uma cena em que perde a paciência com um engenheiro da Atari, Jobs é mostrado como alguém disposto a passar por cima de quase tudo para ter sua visão, muitas vezes considerada fora da realidade, colocada em prática. Essa moral duvidosa de Jobs também aparece em outras cenas do filme, como quando ele passa a perna em Steve Wozniak em um trabalho feito pelo amigo antes mesmo da Apple, ou se recusa a reconhecer a paternidade de sua filha Lisa nos anos 1970.

A primeira parte do filme, focada em mostrar a criação e os primeiros passos da Apple nos anos 1970, realmente empolga e é o ponto alto da produção, com um bom ritmo e cenas interessantes, mostrando o surgimento da empresa que mudaria o mundo nas décadas seguintes dentro de uma garagem num subúrbio da Califórnia. Para quem já assistiu a “Piratas do Vale do Silício”, muitas cenas serão parecidas, mas “jOBS”, por poder se focar em apenas um personagem específico, consegue contar essa caminhada inicial da Apple com muito mais detalhes do que o bom filme produzido pela TNT em 1999.

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Surgimento da Apple é o ponto alto do filme, que capricha nos detalhes (Imagem: Open Road Films)

Os anos 1980, em que a Apple virou uma gigante e as gravatas tomaram conta dos escritórios, acabaram ficando igualmente tediosos no filme. Nem mesmo a saída de Jobs após um conflito com o então CEO da Apple, John Sculley, ironicamente contratado a seu pedido, conseguem empolgar como deveria e confesso que só conseguia torcer pela chegada das próximas cenas.

Por sua vez, o período de Jobs fora da Apple, em que ele fundou a NeXT, passa quase despercebido, com apenas uma menção rápida, assim como sua briga com Bill Gates, que teria roubado a interface do Mac para o então novo sistema Windows, não mereceu mais do que uma cena com uma ligação raivosa de Jobs - e muito bem representada por Kutcher, por sinal. E a tão falada visita de Jobs e outros funcionários da Apple à Xerox nem é mencionada no filme.

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Woz (Josh Gad) e Jobs (Ashton Kutcher) no filme "jOBS" (imagem: Open Road Films)

A volta de Jobs à Apple, em 1996, traz alguns bons momentos, como quando ele tem a "faísca" para criar o iPod ao jogar um discman no lixo, e o encontro com um então jovem Jonathan Ive, que aparece como um devoto pupilo que ainda acredita em Jobs e no que a Apple representa, mesmo com a empresa não sendo mais o que era.

Percebeu que não falamos de Steve Wozniak, o cofundador da Apple, até agora? Pois é, o foco do filme é realmente em Jobs e o personagem de Woz, representado pelo bom ator Josh Gad, acaba tendo um papel bastante secundário em “jOBS”, aparecendo mais como um amigo inteligente e benevolente de Jobs do que o parceiro que fundou a Apple junto com o xará. Vale lembrar que o Woz da vida real, que colabora com a outra cinebiografia sobre Jobs, da Sony Pictures, criticou bastante “jOBS” após ver uma cena liberada para o público (veja abaixo) no começo do ano, dizendo que a sua relação com Jobs estava representada de maneira errada.

 

Pontos negativos

O primeiro exagero percebido, já que a maioria das primeiras cenas sofrem “desse mal”, é a trilha sonora, seja ela incidental ou com músicas. Em alguns momentos me perguntei se haveria algum momento do filme em que poderia assistir a uma cena apenas com os atores falando. Além dessa presença constante, que por vezes dá um tom de videoclipe para algumas cenas importantes, como as viagens de Jobs com ácido e para a Índia nos anos 1970, a trilha muitas vezes é usada de forma exagerada para criar situações dramáticas no filme, o que acaba não funcionando muito bem.

Mesmo conseguindo escapar do clichê de mostrar Jobs apenas como um gênio de nosso tempo, o filme cai na armadilha dos simplismos. Em sua parte criativa e de liderança, Jobs aparece sempre como um visionário. Já nas relações pessoais, seja na empresa ou com amigos e namoradas, Jobs é, na maioria das vezes, agressivo e/ou indiferente. Isso até a sua volta à Apple, nos anos 1990, em que aparece como um cara mais maduro e calmo, apesar de não deixar de ser vingativo.

Outro ponto negativo é que sua filha Lisa, que Jobs relutou em reconhecer nos anos 1970, e acabou virando uma obsessão a ponto de gastar muito dinheiro para criar um computador com seu nome nos anos 1980, só volta a aparecer para o público, sem nenhuma explicação, quando vemos o Jobs “maduro” dos anos 1990 em casa com a família.

Conclusão

“jOBS” está longe de ser um filme ruim, como muitas pessoas esperavam, até porque possui muitos pontos positivos. Apesar da falta de equilíbrio, já citada acima, a produção se sai bem ao retratar de maneira honesta a personalidade complexa de Jobs e é um programa mais do que recomendado para os fãs da Apple e para quem se interessa pela figura de Jobs.

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