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Navegando na Internet por um fio
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Navegando na Internet por um fio

Em um país como o nosso, onde aproximadamente 95% das casas têm acesso à eletricidade, a transmissão de dados pela rede elétrica pode ser uma solução interessante. Mas a coisa não é tão simples assim.

Mário Nagano

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Um dos grandes empecilhos que ainda existem para a ampla disseminição do acesso à Internet para o público em geral é, sem dúvida, a falta de um meio de transmissão e recepção de dados de baixo custo.

Até recentemente, a maioria dos esforços públicos e privados esteve concentrada na montagem de uma grande infra-estrutura de comunicação, capaz de suportar o tráfego de informações na Internet por meio de grandes vias de dados, os chamados backbones.

O passo seguinte consistiu em encontrar uma maneira simples e prática de conectar individualmente cada usuário doméstico ou empresa ao backbone principal, um trecho normalmente chamado de "the last mile" (a última milha) pelos profissionais da área.

Isso até hoje tem sido feito utilizando infra-estruturas já existentes, como redes telefônicas ou de TV a cabo. Entretanto, esses meios se concentram em zonas urbanas - o que exclui residências de regiões afastadas ou de difícil acesso -, além de serem relativamente caros.

Para vencer essa última milha, uma nova abordagem está sendo testada nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo, utilizando a própria rede elétrica para distribuir acesso contínuo e de alta velocidade para usuários residenciais, uma tecnologia conhecia como PLC (Power Line Communication) ou comunicação por linhas elétricas.

Em termos simples, a PLC é uma tecnologia capaz de transmitir sinais de dados e voz pela rede convencional de distribuição de energia, usando sinais de alta freqüência.

Como esses sinais não conseguem passar por transformadores, é necessário o uso de dispositivos externos que combinam os sinais de dados e voz com a corrente de baixa voltagem (gerada nas subestações), para serem enviados às residências, cobrindo desse modo a última milha.

Nas residências, é necessário o uso de um adaptador parecido com um modem externo, usando interfaces convencionais como Ethernet ou USB, para filtrar os sinais de dados e voz e os distribuir para os vários dispositivos locais, como computadores e telefones, de acordo com sua aplicação.

A tecnologia PLC não é nova; ela já é pesquisada há mais de uma década e utilizada em aplicações que não demandam grande velocidade na transmissão dos dados. Esse meio de acesso também é usado por distribuidoras de rede elétrica para medições remotas, controle de equipamentos, monitoração de postes e até de parquímetros.

A novidade fica por conta do uso da PLC em transmissões de dados em alta velocidade (4,5 Mbps, podendo chegar em breve a 8 Mbps), o que abre caminho para que aplicações mais sofisticadas, como Internet de banda larga e videoconferência, estejam disponíveis em qualquer tomada elétrica de casas ou edifícios.

Vantagens e desvantagens
A tecnologia PLC seria uma solução perfeita se não fosse pelo fato de as linhas de força - assim como a rede telefônica no passado - não serem consideradas meios ideais para a transmissão de dados.

Dentro e fora de casa, a rede elétrica está sujeita a todo tipo de interferência e ruídos gerados por fontes chaveadas, motores e até dimmers.

Outro fator negativo das redes elétricas é sua oscilação: características como impedância, atenuação e freqüência podem variar drasticamente de um momento para o outro, à medida que luzes ou aparelhos conectados à rede são ligados ou desligados.

Além disso, se a intenção for transmitir informações a longas distâncias, os transformadores de distribuição são verdadeiras barreiras para a transferência de dados. Apesar de permitirem a passagem de corrente alternada a 50 Hz ou 60 Hz com quase 100% de eficiência, os transformadores atenuam seriamente outros sinais de maior freqüência.

Para atender às suas próprias necessidades, as distribuidoras de energia elétrica ocasionalmente criam soluções que fazem com que esses sinais contornem ou até atravessem os transformadores por meio de redes especiais de alta freqüência. Novas técnicas são capazes de recuperar sinais fortemente atenuados, entretanto somente as grandes empresas tem acesso a essa tecnologia.

Outra desvantagem vem do fato de a PLC ser uma mídia compartilhada e estruturada de modo paralelo. Assim, todas as casas conectadas numa mesma subestação local estarão compartilhando a largura de banda disponível. Isso significa que o desempenho da conexão pode variar de acordo com o número de pessoas que estiverem navegando ou baixando arquivos simultaneamente.

Apesar desses revezes, a PLC também possui outras características interessantes, além do aproveitamento de uma infra-estrutura já existente. A principal delas é ter a Internet sempre à disposição, 24 horas por dia. A atual velocidade máxima de 4,5 Mbps é bem maior que a de uma conexão ISDN (128 kbps) ou ADSL (faixa dos megabits por segundo).

Outra característica interessante da PLC é a possibilidade de transformar toda a infra-estrutura elétrica de uma residência ou edifício em uma rede local de dados, onde cada tomada pode ser encarada como um ponto de acesso que pode ser usado de maneira simples e descomplicada.

Essa idéia de transmitir dados sobre rede elétrica também poderia ser aplicada para interconectar dispositivos inteligentes dentro de uma casa. No início do ano de 2000, a empresa Sunbeam - por meio de sua subsidiária Thalia Products - anunciou uma linha de eletrodomésticos inteligentes que trocavam informações no momento em que eram ligados à tomada. Batizada de HLT (Home Linking Technology), a iniciativa pretendia lançar produtos como despertadores, detectores de fumaça, cafeteiras, cobertores elétricos, medidores de pressão arterial, capazes de se comunicar. Por exemplo, o despertador poderia ser programado para mandar uma ordem à cafeteira para começar a preparar o café um pouco antes do pessoal da casa cair da cama. Num futuro próximo, até será possível colocar um filme em DVD no PC da casa e transmitir o som e a imagem para uma TV compatível pela fiação interna.

A PLC pode transformar toda a infra-estrutura elétrica de uma casa ou edifício em uma rede local de dados.

A PLC pode também ser utilizada pelas operadoras de telefonia para levar dados por meios convencionais até um certo local, utilizando a rede elétrica para cobrir a última milha até o usuário final. Uma idéia interessante é utilizar a PLC a partir da entrada de um condomínio fechado ou edifício, por exemplo. Desse modo, os moradores poderiam gozar das facilidades de uma rede doméstica sem se preocupar com os problemas relacionados às transmissões de longa distância. Finalmente, a PLC é uma tecnologia mais simples de ser implementada do que outras já disponíveis, como conexões por meio de antenas de microondas.

A PLC no Brasil
Três distribuidoras de energia já implantaram projetos-piloto para avaliar a viabilidade da tecnologia PLC no Brasil. São elas a Copel, do Paraná, a Cemig, de Minas Gerais, e a Eletropaulo, de São Paulo.

Pioneira nesse experimento no País, a Copel (Companhia Paranense de Energia Elétrica) anunciou em abril do ano passado que instalaria a PLC em 50 domicílios selecionados na região de Curitiba, que já tinham computadores instalados, de modo que comparações pudessem ser feitas.

O contrato de cooperação foi assinado em março de 2001 na CeBIT, na Alemnha, época em que a empresa alemã RWE Plus demonstrou sua linha de produtos RWE PowerNet, capazes de alcançar taxas de transmissão de até 2 Mbps.

A Copel investiu cerca de um milhão de dólares no projeto e os resultados demonstraram que o sistema funcionou bem em conexões de curta distância - algo em torno de 300 metros entre a fonte de sinal e a residência -, alcançando taxas de transferência de até 1,7 Mbps.

A Cemig foi a segunda distribuidora a anunciar um experimento semelhante em dezembro de 2001, na cidade de Belo Horizonte, utilizando a tecnologia da empresa suíça Ascom. A responsável pela infra-estrutura é a Empresa de Infovias, uma joint venture entre Cemig e AES, que opera redes ópticas em Minas Gerais.

"A Internet chega ao usuário trafegando pela rede óptica da Infovias e nós oferecemos a última milha pela rede elétrica, do poste à residência", explica Luiz Henrique de Castro Carvalho, superintendente de telecomunicações e informática da Cemig.

O projeto-piloto da Cemig que consumiu algo em torno de R$ 200 mil em investimentos (junto com a empresa Infovias) já está funcionando em 40 pontos na capital mineira, sendo 15 em um novo condomínio residencial na Vila Paris, 20 na Associação das Obras Pavonianas de Assistência - entidade de ensino profissionalizante para alunos carentes - e outros cinco pontos em um prédio de construção antiga no Belvedere. O canal de acesso utilizado também é de 2 Mbps compartilhado. Os testes devem ser encerrados em maio.

A iniciativa da Cemig em oferecer o acesso à Internet como valor agregado, segundo Carvalho, não parte da premissa que a companhia elétrica queira transformar-se em empresa de telecomunicações. O projeto de trafegar dados pela rede elétrica nasceu da necessidade de implantar telemedição de consumo e controle de carga em tempo real na rede de Belo Horizonte.

"Para viabilizar economicamente o projeto, resolvemos oferecer serviços de valor agregado, que serão explorados comercialmente assim que a Anatel definir um regulamento para o setor", afirma Carvalho.

A Cemig pretende vender a capacidade de transmissão pela rede elétrica na última milha para provedores de Internet, operadoras que queiram atuar no segmento de voz sobre IP (VoIP) e até mesmo operadoras de TV por assinatura e empresas de vigilância, quando os equipamentos da Ascom estiverem desenvolvidos a ponto de trafegar 4,5 Mbps.

Em março, a concessionária de energia elétrica Eletropaulo Metropolitana também iniciou testes práticos de viabilidade da tecnologia PLC na região metropolitana e no interior do estado de São Paulo. A empresa deve seguir os mesmos moldes do projeto da Cemig e, de acordo com o engenheiro José Luiz Cavaretti, líder de equipe na Eletropaulo, tanto no caso da Cemig como na Eletropaulo, o projeto de oferta da PLC em alta velocidade segue a estratégia do grupo norte-americano AES, conglomerado de geração e distribuição de energia, que detém ações de ambas as distribuidoras de energia.

Na visão do engenheiro da Eletropaulo, o maior desafio na implantação da PLC é a adaptação de suas condições ao sistema elétrico brasileiro.

"Na Europa e nos Estados Unidos, a rede é subterrânea, ou seja, não sofre interferências do meio ambiente", explica.

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