Home > Notícias

Será você um “Homo Facebookis Mutantis”?

Quem tem entre 20 e 60 anos pode muito bem pertencer a uma geração única, que combina de forma rara as sutilezas dos mundos real e virtual.

Computerworld/EUA

07/06/2010 às 17h58

Foto:

O que acontece quando alguém tenta trazer um idoso para o Facebook?

Semana passada compramos um iPad, para presentear minha avó pelo 98.º aniversário. Sem qualquer inibição, ela passou a dominar o novo brinquedo. Como se fosse amiga intima do aparelho, começou a enviar e a receber e-mails, e a se divertir com jogos instalados no tablet de Steve Jobs.

Com o iPad, foi amor a primeira vista; já o Facebook são outros quinhentos.

Fácil de usar, e garantia de contato com os parentes e amigos, as vantagens do Facebook parecem não ter fim. A conta criada para a vovó foi total e completamente ignorada; ela detesta a rede social. Pode?

O vírus da antipatia pela rede social mais acessada do mundo parece ter pego meu pai também. Ele vive por fora das novidades na família, o que me obriga a converter em conversa todas as atualizações, mesmo elas estando ali na tela, no Facebook, a dois cliques de distância - para todo mundo ver.

Por que ele se recusa a usar os recursos do site? O que, alguém explique, o afasta desse serviço simples de usar? Para alguém capaz de montar e desmontar um motor de carro com os olhos vendados, usar uma ferramenta como a de Zuckerberg deveria ser algo descomplicado.

Empecilho
O fenômeno não para por aí. Uma amiga da família, na casa dos 80, possui uma desenvoltura de causar inveja quando o negócio é enviar e-mails e se relacionar com as outras nuances da vida moderna, quer dizer, com quase todas. Como acontece nos casos anteriores, o Facebook representa um empecilho gigantesco no roteiro de atualização digital dessa amiga.

Nem quando instruída sobre todas as vantagens do site de relacionamento, de A a Z, nada parecia persuadi-la. A resposta? Sucinta e objetiva, ela deu a entender que compreende, mas “Facebook? Não, obrigada”.

Mais interessante ainda: quando o assunto é usar o Facebook, a reação apresentada pelos idosos é a mesma da demonstrada pela garotada, quando subtraídos do acesso ao site.

++++

Simplificando. Coloque um estudante do Ensino Médio em uma sala de aula. Tire o celular, todo e qualquer dispositivo eletrônico e elimine as possibilidades de interação. Agora, peça que preste atenção ao que diz o professor. A reação do adolescente é a mesma de um idoso – confusa e desorientada.

O que ocasiona isso? O que faz do Facebook um divisor de águas no ingresso de diferentes gerações no universo digital?

A resposta é: condicionamento.

Conhece a Ilusão dos Quatro Olhos? Trata-se do rosto de uma jovem, alterado digitalmente para acomodar um par de olhos e uma boca extra. Olhar para a imagem pode ser extremamente desconfortável, há quem tenha tontura e até náuseas só de olhar. Por quê?

Distorção inaceitável
O fato é que os cérebros são treinados para assimilar feições humanas. Uma vez condicionados a relacionar um rosto humano a um par de olhos e a uma boca apenas, qualquer distorção desse conjunto representa algo inaceitável. A informação não é compatível com o sistema de arquivos instalado nos sistemas nervosos.

O que acontece com o Facebook pode ser um desdobramento dessa condição. A maioria das pessoas com idade acima dos 60 entende bem duas diferentes matrizes de comunicação. A particular: cartas, telefonemas e telegramas, e a pública, representada por televisão e rádio.

O e-mail, por ser entendido como desdobramento da modalidade particular de comunicação, não causa qualquer transtorno. O mesmo pode ser dito do YouTube, assimilado como forma de televisão digital, certo?

Para essas pessoas, usar o Facebook e olhar diretamente para a ilusão de ótica são uma e a mesma coisa. A rede social representa uma via de comunicação que não se define nem como uma (a particular), tampouco como a outra (pública) modalidade conhecida. Entender que as mensagens podem ser enviadas de uns (pessoas ou grupos) para outros (também indivíduos ou grupos), as qualificam em qual categoria? 

++++

Existe um conflito fundamental entre a estrutura de mensagens existente no Facebook e o condicionamento sobre as categorias de comunicação entendidas pelo público mais experiente.

Ao mesmo tempo, não usar o Facebook causa desorientação em adolescentes – e vai continuar causando, mesmo com o passar do tempo. Qualquer um com menos de 20 anos de idade aprendeu, ainda em seus primeiros anos de vida, a assimilar um objeto doméstico inconfundível: o computador.

Vida tecnológica
Na época em que tinham idade suficiente para falar com vovô pelo telefone, é possível que o tenham feito com um celular. Ao completar 12 anos, devem ter investido uma parte razoável do dia enchendo os ouvidos de seus pais com pedidos de um celular capaz de conectar-se a internet e de enviar mensagens de texto. Ao som de “por favor, todo mundo tem um!” os progenitores eram acuados até a loja de celulares mais próxima; a essa altura a garotada já era íntima do ICQ.

Quem tem menos de 20 anos possui uma formatação cerebral diferente quando o assunto é comunicação. Dela sabem apenas que acontece em larga escala, é móvel, e seus destinatários são muitos. Não perdem um minuto pensando se é pública, ou privada. Tudo que querem é conversar com os amigos, a qualquer hora e em qualquer lugar.

Já a turma de 60 ou mais tende a ser composta por gente “do mundo real”. O seu conforto com a tecnologia dura enquanto as representações digitais puderem ser relacionadas com algo palpável. Nos e-mails, eles escrevem “me ligue”; ao receberem uma fotografia, querem imprimi-la. Para eles, “social” significa “cara-a cara”.

Os nascidos de 1990 para cá são “habitantes do plano virtual”. O mundo real é compreensível na medida em que pode ser explicado na esfera digital. Quando estão ao telefone dizem coisas como “me manda um SMS”, e basta dar-lhes uma fotografia comum, para pedirem a versão digital ou correrem com ela até o scanner mais próximo. A maneira de experimentar algo é eletrônica, e “social” significa “online”, oras!

Onde quero chegar?

++++

Dois mundos
Pessoas com idade entre 20 e 60 anos são Homo sapiens sapiens muito peculiares. Parecem saídos da tela de "Splice" (filme de 2009, com Adrien Brody e Sarah Polley); são criaturas mutantes, híbridas. O sistema operacional nos cérebros interpreta arquivos dos dois mundos, tanto do “real” quanto do “virtual”.

Pertencem a uma geração de transição e formam o único grupo de humanos capaz de funcionar sem o Facebook, ao passo em que estão preparados para interagir com ele de maneira plena e satisfatória.

O fato é que tiveram tempo necessário para se ajustar às tecnologias emergentes nos últimos 20 anos. Quando ainda crianças, não havia celulares, redes sociais, salas de bate-papo virtuais, jogos entre clãs e todo o resto de circunstâncias e planos de existência calçados por avatares, thumbnails, sons de alerta e winks.

A revolução digital aconteceu de maneira suave suficiente para ser assimilada com naturalidade; começou nos locais de trabalho, demorou, mas chegou aos lares e foi entendida como recurso facilitador, não único. Alguém se recorda de como eram os primeiros celulares? O que estes faziam? Praticamente nada. Usar ou não um programa de mensagens instantâneas era decisão individual.

O que chamamos de “social” hoje em dia, é o resultado de uma transformação lenta dos meios analógicos em digitais; melhor, “social” são as coisas como eram antes, reforçadas pela robustez e velocidade trazidas pela tecnologia.

Eles são a única geração humana que teve o privilégio de ser apresentada ao mundo digital de maneira lenta e gradual.

Muita interação, muita responsabilidade
Essa condição de “seres transacionais” lhes impõe um entendimento esclarecido sobre as forças em ação.

É importante entender que a recusa da vovó em entrar para o universo do Facebook não sinaliza – de jeito nenhum – senilidade. Ela não gosta, e provavelmente nunca gostará, da rede social. A forma de relacionamento proposta pelo site é incompatível com o hardware dela.

++++

Ainda: os jovens que ingressam no mundo profissional vão demandar “cuidados especiais”. A maneira pela qual, obsessivamente, se relacionam com as facilidades da comunicação online não caracterizam estupidez, preguiça ou falta de caráter. É puro condicionamento.

Deixando bem claro: jovens vão usar o Facebook em seus locais de trabalho, ponto.

Tentar dizer para um adolescente que ele não poderá usar o site de relacionamento no trabalho equivale a ouvir do chefe que é proibido conversar com os outros empregados. Tente imaginar como seria sentar-se ao lado de um colega e encontrar, na regras da empresa, a proibição de conversa entre colaboradores.

Sem qualquer embasamento técnico ou explicação satisfatória que justifique tal decisão, não será de se espantar se houver quem opte por não querer trabalhar nesse local. O mesmo vale para a geração mais jovem, resistente a regras dessa natureza.

Eles vão partir do princípio de que quem criou essas regras, só pode ter inventado isso antes de existir o Facebook. Eles estão cobertos de razão.

Conviver com essa geração no trabalho será um desafio enorme. Resistir à tentação de rotulá-los de incompetentes, no lugar de tentar entender que estão seguindo sinais evidentes de mudanças, é outro exercício de paciência.

Um exemplo prático disso: a comunicação corporativa reforçada por networking social é exponencialmente mais eficiente que o milenar e tradicional e-mail ou as circulares.

Engajar-se na tarefa de mudar o paradigma dos mais jovens é batalha perdida. Eles jamais vão ver o mundo com os mesmos olhos de alguém que, há décadas, atribuía o Atari a forças sobrenaturais e achava que Pong é coisa do outro mundo.

Tags

Junte-se a nós e receba nossas melhores histórias de tecnologia. Newsletter por e-mail Newsletter por e-mail