Vale tudo por uma selfie? Lago tóxico vira febre no Instagram

Casos na Rússia e em Bali nos fazem repensar o papel das redes sociais

Foto: Instagram
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Na última semana, me deparei com dois casos bizarros relacionados ao turismo de fotos “instagramáveis”. Se você ainda não ouviu este termo, saiba que ele reflete objetos ou locais que despertam o desejo nas pessoas em fotografar para depois postar nas redes sociais, é claro. 

Mas voltando ao contexto inicial deste artigo, as notícias em questão eram: decepção com imagens fakes num templo de Bali, e pessoas confundindo um lixão tóxico com um lago paradisíaco.

No primeiro caso, uma jornalista búlgara chamada Polina Marinova publicou um tuíte indignada por ter ido até Bali e descoberto que um dos pontos turísticos que ela sempre sonhou em conhecer era, na verdade, bem diferente do que mostravam as redes sociais. O que parecia ser um lugar cheio de água, era apenas o efeito de um espelho colocado abaixo da câmera dos smartphones pelos guias locais na hora de tirar uma foto dos turistas. 

“Eis aqui uma prova de que os influencers do Instagram estragaram tudo. Meus sonhos e esperanças se partiram em mil pedaços ao descobrir que a água sob os Portões do Céu é somente um pedaço de vidro debaixo de um iPhone”, diz o tuíte.

Água tóxica, porém com uma cor incrível

Já o segundo caso mostra o quanto as pessoas estão dispostas a arriscar até mesmo sua saúde para tirar fotos dentro de um lago de água azul turquesa na Rússia. O problema é que o local, na verdade, é uma barragem com água tóxica que pode causar reações alérgicas na pele e até mesmo acidentes, já que o fundo é tão lamacento que sair é quase impossível.

O lago (que não é lago) fica na cidade de Novosibirsk, na Sibéria, e recebe dejetos tóxicos de uma central termoelétrica, incluindo cinzas de carvão. O belo tom de azul que atrai os Instagrammers é, na verdade, causado por uma reação química que chega acompanhada de um cheiro de detergente. Muito saudável, não é mesmo?

“Na semana passada, nosso depósito de cinzas do Novosibirsk TEZ-5 tornou-se a estrela das redes sociais”, disse a companhia de energia em um comunicado no Facebook. “Mas você NÃO PODE nadar no depósito de cinzas. Sua água tem um ambiente altamente alcalino. Isso se deve ao fato de que os sais de cálcio e outros óxidos metálicos são dissolvidos nele. O contato da pele com essa água pode causar uma reação alérgica!”

No entanto, nem mesmo as chaminés à vista e uma placa dizendo “Isto não é uma praia”, instalada pela empresa de energia responsável pelo local, espantou os fotógrafos de redes sociais. Foi preciso que a companhia fechasse as estradas para tentar impedir o acesso ao que vem sendo erroneamente chamado de “Maldivas siberianas”.

Isso também me faz lembrar o boom gerado pela série Chernobyl, da HBO, que fez o número de fotos tiradas no local do maior acidente nuclear da história da humanidade subir vertiginosamente. Neste caso, a situação é ainda mais complicada, pois envolve um lugar que reflete o luto de uma tragédia.

Topa tudo por um like

Casos deste tipo nos mostram muito sobre o poder das redes sociais. Muitas vezes as pessoas buscam seus destinos turísticos com base em imagens que aparecem em seus feeds, e não porque realmente querem conhecer os lugares, sua cultura, ou apreciar belas paisagens. Afinal, se não tirar uma foto e postar, como as outras pessoas vão saber que estiveram lá? E se ninguém souber, qual é o propósito de viajar?

No caso dos Portões do Céu, por exemplo, o passeio real vai muito além de uma foto na água fake. O cenário fica em um complexo de templos em uma região remota de Bali, com escadarias enormes e arquitetura impressionante. Muita gente, inclusive, faz a subida por mais de 1.000 metros de altura nos templos como parte de uma jornada espiritual. Então vamos combinar que ir até lá só para uma foto nas águas inexistentes do portal é um pouco superficial demais, não é mesmo?

Templo de Besakih

A culpa é de quem?

A jornalista búlgara que se decepcionou com o destino do seu passeio culpou os influenciadores por estragarem seu sonho, mas a realidade não é bem essa. 

Uma pesquisa do site Hoteis.com mostrou que 41,4% dos viajantes entrevistados acredita que olhar o Instagram em busca de ideias para fotos é mais importante do que checar as atrações do destino (21.8%) ou até mesmo conferir os detalhes do hotel (13,5%) onde pretendem se hospedar.

Já uma pesquisa realizada pela Sony mostrou que 85% das fotos tiradas em Machu Picchu, por exemplo, são do mesmo ângulo. Ou seja, tem mais de meio milhão de fotografias idênticas no Instagram (só de Machu Picchu!).

Em abril deste ano, o próprio Instagram começou a testar um recurso que dividiu opiniões: esconder o número de curtidas das imagens postadas na plataforma. A ideia era deixar a coisa toda menos tóxica e competitiva. Seria este o caminho ideal para tentar amenizar a falta de limites dos usuários? Eu acredito que o problema é um pouco mais profundo do que isso. 

Já foi comprovado que redes sociais como o Instagram têm um impacto negativo na nossa mente, depreciando, inclusive, a nossa autoimagem. Agora, parece que as criações de Mark Zuckerberg e sua turma também estão definindo para onde “queremos” viajar.

Vivemos em uma era digital onde é praticamente impossível sair de casa sem um celular no bolso e sentir-se tranquilo. No entanto, também precisamos parar um pouco para refletir até onde estamos fazendo as coisas porque realmente desejamos, ou se estamos tomando nossas decisões baseadas no que os outros querem ver em nossos perfis mesmo que isso não seja o seu trabalho, mas apenas uma plataforma de entretenimento e comunicação.

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