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Veja como a vitória da AMD na nova geração de consoles beneficiará os PCs

Uso de processadores x86 no Xbox One e PlayStation 4 pode levar a jogos para PC mais numerosos e melhor otimizados, e até mesmo mudar o rumo da evolução dos computadores pessoais

Brad Chacos, TechHive

08/07/2013 às 20h39

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Deixem a próxima geração de consoles ganhar destaque. Deixem a Microsoft e Sony travarem uma batalha épica pela preferência dos gamers em todo mundo. Deixem as manchetes falarem sobre gamepads modificados ou sensores inclusos. Por quê? Porque os novos consoles abrigam um grande segredo: há hardware da AMD no coração de cada um dos sistemas desta nova geração. Cada um deles, até mesmo o Wii U! E por causa disso o futuro dos jogos no PC nunca foi tão brilhante. Deixem-me explicar.

O rugido do Jaguar

Antes de falar de benefícios temos que falar, brevemente, de hardware.

Quando analisado com atenção, o hardware tanto do Xbox One quanto do PlayStation 4 equivale ao de um PC mediano para jogos. Cada console tem uma APU AMD semi-customizada com oito núcleos baseados na arquitetura Jaguar, compartilhando a mesma pastilha com uma GPU Radeon “de próxima geração”, acompanhada por 8 GB de RAM.

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Tanto o Xbox One quanto o PlayStation 4 usam APUs x86 da AMD, muito similares

Se você quiser mais detalhes técnicos recomendo o artigo “Será o Playstation 4 capaz de competir com os PCs?”, que publicamos em fevereiro. Este aqui é sobre os benefícios que nós, gamers de PC, teremos como resultado do compartilhamento da arquitetura x86 de nossos computadores com os consoles da próxima geração.

E de fato, apesar de nem o Xbox One nem o PS4 estarem nas lojas os gamers de PC já estão começando a colher benefícios tangíveis que são resultado da “alma de PC” destes sistemas.

Versões de montão

Os gamers de PC estão acostumados a serem tratados como “cidadãos de segunda classe”. Sim, temos uma boa parcela de MMOs (como World of Warplanes e Star Wars: The Old Republic) e jogos complexos de estratégia em tempo real (como Company of Heroes 2), além de um ocasional jogo de tiro em primeira pessoa com gráficos gloriosamente detalhados (Olá, Crysis 3!). Mas em geral, a maioria dos grandes jogos vem ignorando o PC e sendo lançada apenas nos consoles.

“No passado os consoles tinham arquiteturas muito singulares em comparação aos PCs”, diz David Nalasco, gerente técnico de marketing para as GPUs Radeon na AMD. Esta situação tornou o desenvolvimento multiplataforma mais difícil, e criar um jogo para uma única plataforma já exige uma enorme quantidade de tempo, esforço e dinheiro. Dito isto, Nalasco nota que a própria natureza dos consoles os torna atraentes para os desenvolvedores.

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Battlefield 4 é um dos jogos da próxima geração que também chegará aos PCs

“Se você é um desenvolvedor de jogos tentando tirar o máximo de sua plataforma, irá trabalhar naquela que conhece há anos, que não mudou e tem uma enorme base instalada”, disse ele. Ou seja, os consoles.

Portanto a aura de “negligência” ao redor dos PCs. Mas com sangue x86 correndo pelas veias de cada uma das novas plataformas, estes dias podem estar chegando ao fim.

Como disse, criar um jogo de primeira linha custa muito dinheiro, então os desenvolvedores tem um forte incentivo para colocar seus produtos na frente da maior quantidade de consumidores possível. E o compartilhamento da arquitetura x86 irá tornar fácil adaptar os jogos dos consoles para os PCs.

Durante a conferência E3 no mês de junho, evento onde os melhores e mais aguardados jogos são apresentados, a maioria dos games “AAA” anunciados para o Xbox One e PlayStation 4 também foram anunciados para o PC. Jogos como The Crew, Titanfall e Watch Dogs. Obrigado x86!

“Creio que veremos um melhor aproveitamento do trabalho entre consoles e PCs”, diz Patrick Moorhead, fundador e principal analista da Moor Insights and Strategy.

E este trabalho não está limitado ao hardware.

“Uma declaração muito importante que a Microsoft fez na conferência Build 2013 há algumas semanas foi quando desenvolvedores independentes perguntaram “O que tenho que fazer para desenvolver jogos para o Xbox One?”. E a resposta da Microsoft foi “aprendam a programar para o Windows 8”. Isso diz tudo”, completa Moorhead.

Versões de montão, parte 2

OK, o futuro dos jogos no PC parece brilhante, mas as versões de jogos de console não são uma porcaria? São sempre cheias de bugs, e nunca tão bonitas quanto um jogo nativo de PC, certo? Então vale a pena ficar animado com uma enxurrada de versões?

Nesse caso vale. Estamos entrando na teoria aqui, mas a presença de uma GPU Radeon e uma CPU x86 em cada console promete tornar mais fácil para os desenvolvedores a otimização dos para os PCs, que usam componentes similares. E melhor otimização significa melhores gráficos e melhor desempenho.

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O futuro dos jogos de PC será mais como Crysis 3 do que como o limitado Crysis 2

Nalasco indica que o desempenho dos jogos mais recentes para a geração atual (Xbox 360 e PS3) de consoles é um exemplo do que pode ser conseguido com otimização extrema. Estes consoles são baseados em tecnologia de sete anos atrás e tem uma fração do poder de processamento dos modernos PCs para jogos, mas ainda assim são capazes de produzir gráficos bastante impressionantes.

“A oportunidade que vemos é de conseguir esse nível de otimização, ou algo próximo a isso, nos jogos para PCs”, diz Nalasco. “Se você está desenvolvendo um jogo, ou um engine para um jogo, e quer adaptá-lo para o PC, não terá de começar do zero com a otimização. Você partirá de uma base que tem um processador com núcleos muito similares, GPUs muito similares, e um conjunto geral de recursos que é mais equivalente”.

Representantes da AMD reforçam que a empresa irá continuar a redefinir os limites do hardware dos PCs, mas dizem que os jogos criados para os consoles baseados em processadores x86 continuarão atuais mesmo daqui a muitos anos, graças às suas otimizações.

Claro que é esperado que um representante da AMD diga isso, mas Tony Tamassi, um vice-presidente sênior da rival Nvidia (cuja tecnologia já foi usada no primeiro Xbox e no PlayStation 3), disse algo muito similar durante a conferência de imprensa na E3 neste ano.

“O PC irá continuar a crescer, mas os consoles irão nos dar o próximo impulso”, disse Tamasi. “Os desenvolvedores podem agora criar coisas realmente incríveis que podem ser facilmente transpostas para o PC”.

Se parece estranho ouvir a Nvidia dizendo algo positivo sobre produtos baseados em tecnologia de sua rival, considere que a inclusão da AMD nos consoles pode ser benéfica para a indústria dos PCs como um todo. Tanto a Microsoft quanto a Sony anunciaram que suas máquinas suportam a API DirectX 11, um padrão na indústria.

“Se você está mesmo criando jogos para o Xbox One usando DirectX, não vejo porque a AMD teria necessariamente uma vantagem sobre a Nvidia, e não vejo porque os desenvolvedores iriam escrever código proprietário para as CPUs da AMD em seus jogos para consoles”, diz Moorhead.

Em outras palavras: todos ganham. E Moorhead, que durante muito tempo foi um executivo da indústria de PCs antes de fundar sua empresa, concorda com a perspectiva otimista quanto à otimizações compartilhada pela AMD e Nvidia.

“Você verá muitos jogos que foram melhor otimizados”, diz ele. “Será menos comum ver uma versão de um jogo de console com gráficos ruins”, mesmo levando em conta que os consoles da próxima geração já perdem para os PCs topo de linha em desempenho gráfico. Gosto da idéia.

Incentivo ao paralelismo

Mas o novo lar da AMD junto aos consoles pode dar à empresa uma grande vantagem no que diz respeito ao hardware para os PCs. Em primeiro lugar, há o simples fato de que os consoles serão baseados em um processador Jaguar com oito núcleos. E embora os chips da Intel venham tendo uma vantagem em “força bruta” de processamento nos últimos anos, os da AMD competem bem em aplicativos que fazem uso de “multithreading”, um técnica de processamento paralelo que subdivide uma tarefa em porções menores executadas simultâneamente para tirar melhor proveito dos múltiplos núcleos nos processadores modernos.

Programar jogos “multithreaded” é difícil, e no passado isso fez com que os desenvolvedores criassem títulos otimizados para “single threading”, ou seja, otimizados para executar tarefas sequencialmente, e confiar na força do processador para que elas sejam executadas a tempo. 

Mas com os núcleos Jaguar relativamente “fracos” no coração do Xbox One e do PlayStation 4, jogos multithreaded podem se tornar mais comuns à medida em que os desenvolvedores aprender a otimizar seus jogos para tirar melhor proveito do hardware disponível. Se isso acontecer os processadores para PCs da AMD podem  se tornar opções mais competitivas para os gamers, especialmente considerando seu preço tradicionalmente menor.

Memória unificada

Além disso, a estrutura única das APUs semi-customizadas da AMD usadas nos novos consoles pode dar à empresa uma vantagem no futuro, já que elas são projetadas de acordo com os principios da HSA, ou “Heterogeneous System Architecture” (Arquitetura Heterogênea de Sistema).

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O que é computação heterogênea? À medida em que os transistores vão ficando cada vez menores, os fabricantes de processadores vem tendo dificuldade em manter o ritmo previsto pela famosa Lei de Moore. Hardware projetado de acordo com os princípios de computação heterogênea divide a carga computacional entre as CPUs e GPUs, abrindo as portas para muito mais desempenho do que é possível quando elas são tratadas como mundos isolados.

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A placa-mãe de um Xbox One. A APU da AMD é claramente visível à direita

Este “trabalho em equipe” pode ser a chave para deixar a Lei de Moore para trás se a técnica for adotada em grande escala. Como parte da HSA Foundation, a AMD está na vanguarda na promoção do conceito, e as APUs usadas na próxima geração de consoles tem um recurso único relacionado a HSA que pode dar às APUs para PCs da AMD uma vantagem no futuro.

Em vez de ter componentes com memória separada, como é comum no hardware dos PCs, a CPU e a GPU do Xbox One e PlayStation 4 compartilham um bloco único de 8 GB de memória. Ter uma Arquitetura Heterogênea de Memória Unificada (hUMA), como este banco de memória é chamado, permite que os processadores se comuniquem e dividam tarefas de forma muito mais eficiente. Entretanto, o software precisa ser especificamente escrito para tirar proveito deste arranjo.

Implementar hUMA nos grandes consoles pode ajudar a levar os desenvolvedores de jogos para os braços da HSA Foundation, que já tem entre seus membros fabricantes de processadores de renome como a ARM, Qualcomm, Samsung e Texas Instruments. Notem que a Intel está notavelmente ausente na lista.

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Diagrama de uma APU baseada nos princípios da HSA.
Note o tamanho da GPU em relação às CPUs.

As APUs “Kaveri” da AMD, que devem ser lançadas ainda neste ano, também farão uso de memória unificada. As APUs futuras também seguirão as diretivas da HSA, e a AMD disse que espera lançar GPUs discretas compatíveis com a HSA em 2014.

Isso pode ser incrivelmente importante. Andrew Wilson, o chefão da EA Sports, disse que a engine “Ignite” usada para a próxima geração de jogos de esportes da empresa não será adaptada para o PC porque a CPU, GPU e memória dos computadores atuais não trabalham em conjunto, da forma como ocorre no Xbox One e no PlayStation 4.

“Vemos a inclusão dos princípios da HSA nos consoles de videogame como o próximo passo, e realmente um dos melhores pontos de partida para tornar a HSA relevante e dar a ela longevidade, especialmente entre os usuários entusiastas”, disse Marc Diana, gerente sênior de marketing de produtos (CPUs e APUs) na AMD. “Você vai nos ouvir falando muito mais sobre hUMA e HSA mais para o final do ano, especialmente na época do lançamento da Kaveri”.

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O engine Ignite, usado nos novos jogos da EA Sports, não chegará aos PCs atuais por
causa de diferenças fundamentais na arquitetura em relação aos novos consoles

Rumo ao futuro

Hoje já estamos vendo alguns jogos que no passado seriam exclusivos para os consoles ganhando versões para o PC. Amanhã estes jogos serão muito melhor otimizados para rodar em PCs do que são hoje. E em anos futuros a inclusão dos processadores da AMD nos consoles da nova geração pode ajudar a empresa a reconquistar espaço no mercado de CPUs para PCs, e talvez até ajudar a impulsionar a computação rumo ao futuro encorajando a adoção dos princípios de computação heterogênea.

Nada mal para duas máquinas rodando APUs “Jaguar” bastante comuns. E vocês, jogadores de PC? Já ficaram tão animados com o lançamento de novos consoles domésticos?

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